Escrever sobre a luta antimanicomial a partir de uma perspectiva institucional nunca é simples. Porque a luta não pertence a uma instituição, nem a um grupo específico. Ela nasce e se sustenta no cotidiano das pessoas em sofrimento mental, nas suas vivências, nos territórios, nos vínculos e nas formas de existir em sociedade.
Por isso, falar sobre o Dia da Luta Antimanicomial é falar sobre muito mais do que uma data simbólica. É falar de protagonismo, defesapertencimento, vivência, encontros, afetos, cidadania e defesa da vida. É um dia de mobilização coletiva, visibilidade e reafirmação do cuidado em liberdade. Um momento em que a Política Nacional de Saúde Mental ganha força nas manifestações culturais, nos serviços, nos usuários, familiares e trabalhadores por ocupar as ruas, apresentar a potência do cuidado em liberdade, que insistem, diariamente, na construção de uma sociedade sem exclusão.
Conhecemos a história. Sabemos por que essa luta começou. Já contamos inúmeras vezes sobre as violências cometidas em nome do tratamento, os confinamentos e as vidas apagadas atrás dos muros das instituições fechadas, dos manicômios.
A luta antimanicomial reivindica que pessoas em sofrimento mental sejam reconhecidas em sua humanidade, tenham lugar social, possam circular pela cidade, construir vínculos, acessar trabalho, moradia, cultura, cuidado e exercer sua cidadania.
Ser antimanicomial é, sim, ser contra manicômios. Mas é também questionar toda prática de cuidado baseada no isolamento, na punição, na ideia de periculosidade ou na tentativa de normalizar comportamentos pela exclusão.
Porque o manicômio não existe apenas em prédios. Ele também se manifesta nas práticas, nos discursos, nos estigmas e nas formas de negar humanidade às pessoas.
E o estigma segue produzindo exclusão diariamente. Pessoas em sofrimento mental ainda encontram barreiras no acesso à saúde, à educação, ao trabalho e à moradia. Ainda são atravessadas pela discriminação, pelo medo e pelo abandono. Isso compromete trajetórias de vida e enfraquece aquilo que sustenta o cuidado em liberdade.
É justamente nesse ponto que as práticas antimanicomiais revelam sua força. Elas constroem modos de cuidado pautados na inclusão social, na autonomia, na convivência e no reconhecimento de direitos. Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são expressões concretas desse projeto de sociedade e precisam ser valorizados e fortalecidos pelo poder público, especialmente pelas gestões municipais e estaduais de saúde.
Ao mesmo tempo, o mundo contemporâneo tem produzido sofrimentos cada vez mais profundos e complexos. Pandemia, crises climáticas, insegurança econômica, empobrecimento, violências, polarizações extremas, cultura do ódio, hiperconectividade e esgotamento emocional atravessam a vida cotidiana e impactam diretamente a saúde mental da população.
Em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que mais de 1 bilhão de pessoas viveriam com algum problema relacionado à saúde mental no início de 2026. Os transtornos mentais já representam uma das maiores causas de incapacidade no mundo, com crescimento expressivo especialmente após a pandemia.
O sofrimento psíquico não é exceção. É uma realidade social e, por isso, precisamos defender o cuidado em liberdade. Precisamos reafirmar que ninguém deve ser privado de humanidade em nome do cuidado.
É por isso que a luta antimanicomial segue necessária. Que este dia não seja apenas um marco de memória, mas um chamado coletivo à defesa da dignidade humana.
Que a luta antimanicomial deixe de ser, um dia, uma resistência permanente, porque seus princípios terão se tornado consenso social.
Viva a luta. Salve a luta. Luta Antimanicomial presente!
*Barbara Coelho Vaz e André Guerrero são pesquisadores do Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusmad) da Fiocruz Brasília.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não expressa necessariamente a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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