Investigada por ligação com integrante do PCC e doadora de Tarcísio, fazendeira leva município do Piauí ao topo do desmatamento no Brasil

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Canto do Buriti, no sudoeste do Piauí, apareceu pela primeira vez no topo da lista dos municípios que mais desmataram no Brasil. Divulgado no final de maio pelo MapBiomas, o Relatório Anual do Desmatamento (RAD) mostra que o município derrubou 20.877 hectares de vegetação nativa em 2025, o equivalente a 132 parques do Ibirapuera em São Paulo. 

O dado chama atenção não apenas pelo volume registrado no último ano, mas pela velocidade da transformação. Em 2019, Canto do Buriti não registrava nenhum hectare desmatado. Os números continuaram pouco significativos até 2024, quando o município saltou para mais de 10 mil hectares desmatados. Um ano depois, o número mais que dobrou. Tudo graças a uma única propriedade.

Dos 20.877 hectares registrados em Canto do Buriti em 2025, 18.966 hectares estão associados a uma fazenda, segundo cruzamento realizado a partir dos alertas do MapBiomas. O número corresponde a cerca de 91% de toda a área desmatada no município naquele ano.

Trata-se da Fazenda Reunidas Canto do Buriti, um megaempreendimento de gado e soja vinculado à empresária Maribel Schmittz Golin, investigada pela Polícia Federal sob suspeita de ter relações financeiras com integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC) e sexta maior financiadora de campanha de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o governo de São Paulo (SP).

Maribel é matriarca da família controladora do Grupo Golin, conglomerado do agronegócio com atuação em diferentes regiões do país. O grupo ficou conhecido nacionalmente por empreendimentos agropecuários de grande escala e por protagonizar expansão de áreas destinadas à produção de grãos e à pecuária.

Casada com Joselito Golin, fundador do Grupo Golin, ela integra um dos clãs do agronegócio que avançaram sobre áreas rurais em diferentes regiões do país, especialmente no Mato Grosso e no Matopiba.

Levantamento do De Olho nos Ruralistas identificou ao menos 69 propriedades ligadas ao grupo em Piauí, Bahia, Tocantins, Mato Grosso e São Paulo. Juntas, elas somam 229 mil hectares em bases do Incra e do Cadastro Ambiental Rural (CAR). A área pode chegar a 247 mil hectares quando incluídas fazendas ainda registradas em nome da massa falida da Boi Gordo, segundo a publicação.

O CAR da Fazenda Reunidas Canto do Buriti, da qual esta reportagem trata, tem, sozinho, 104,3 mil hectares. Para comparação, trata-se do equivalente às áreas de Salvador (BA) e Belo Horizonte (MG) somadas.

Em resposta ao Brasil de Fato, sua defesa afirmou que todas as atividades da Fazenda Reunidas Canto do Buriti são conduzidas “sob o mais estrito amparo da legalidade” e que o empreendimento possui todas as licenças, autorizações e outorgas exigidas pelos órgãos competentes.

Do Boi Gordo ao PCC

A trajetória do Grupo Golin se cruza com a história da Fazendas Reunidas Boi Gordo, empresa que ficou conhecida por uma das maiores pirâmides financeiras do país. Em 2003, Joselito Golin comprou a massa falida da companhia. Anos depois, o Ministério Público de São Paulo apontou que os Golin teriam desviado R$ 612 milhões em bens que deveriam ser usados para pagar os mais de 30 mil credores de uma das maiores falências da história. O grupo contesta irregularidades.

Segundo reportagem da Agência Pública, investigações ligadas à massa falida da Boi Gordo apontaram que parte dos recursos que deveriam ressarcir credores foi reinvestida na compra de fazendas no Cerrado piauiense e em outros estados da nova fronteira agrícola. É a chegada dos Golin ao Matopiba.

Maribel Golin também ganhou projeção política em 2022, quando doou R$ 500 mil para a campanha de Tarcísio de Freitas (Republicanos), atual governador de São Paulo. A pecuarista foi a sexta maior doadora individual da campanha.

Procurada pela reportagem, a assessoria do governador Tarcísio de Freitas afirmou que a campanha de 2022 contou com mais de 600 doadores e foi conduzida “com total respeito às leis eleitorais”. Em nota, o governo paulista declarou que o governador “não possui qualquer vínculo com a doadora citada, bem como conhecimento prévio sobre possíveis condutas que não dizem respeito à campanha”. A assessoria também afirmou que a prestação de contas foi aprovada pela Justiça Eleitoral sem pendências. 

Pouco tempo depois, em 2025, seu nome aparece como uma das investigadas na Operação Mafiusi, da Polícia Federal, que apura lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo o Estadão, a PF apontou transações entre Maribel e Willian Barile Agati, descrito pelos investigadores como operador logístico do PCC e elo da facção com a máfia italiana ’Ndrangheta.

O relatório da PF afirma que Maribel mantinha uma “relação próxima” com Agati e que as operações analisadas “sugerem fortemente a ocorrência de lavagem de dinheiro clássica, relacionada a imóveis”. A investigação identificou transações de R$ 20,656 milhões entre Maribel e Agati, além de movimentações envolvendo empresas ligadas à empresária, como a JBT Empreendimentos e Participações Ltda. e a Aeroplan Aviação Ltda. Entre 2020 e 2022, as movimentações bancárias atribuídas a Maribel e a empresas relacionadas a ela somaram R$ 1,426 bilhão.

Em nota enviada ao Brasil de Fato, o advogado Carlos Alberto Pires Mendes, representante da JBT Empreendimentos e Participações Ltda., afirmou que a representante legal da empresa “nunca possuiu relação próxima” com Agati e que a relação entre ambos foi “apenas comercial”. A defesa também afirmou que a Justiça Federal de Curitiba reconheceu, em decisão transitada em julgado, a boa-fé da empresa, sua capacidade econômica e a licitude dos negócios jurídicos celebrados com Agati, além de reconhecer que a JBT seria “parte alheia aos fatos investigados”. Segundo a nota, todas as movimentações bancárias da empresa e de sua representante legal tiveram origem lícita. 

A Fazenda Reunidas Canto do Buriti

O projeto prevê o cultivo de soja, milho e arroz, além da criação de bovinos. As publicações feitas nas redes sociais, no entanto, tratam apenas de soja e gado. Nos documentos apresentados ao órgão ambiental, a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí (Semarh), os empreendedores estimam investimentos de aproximadamente R$ 40 milhões e a manutenção de um rebanho que poderá chegar a 43 mil cabeças bovinas.

Os registros do MapBiomas mostram que o avanço da atividade ocorreu de forma acelerada. Em 2024, a propriedade registrou 13.794 hectares de supressão de vegetação nativa. Em 2025, foram outros 22.659 hectares. Somados, os dois anos concentram 36.384 hectares de desmatamento associados ao imóvel. Uma parte da propriedade entra no território de Pavussu, município vizinho de Canto do Buriti.

Ainda segundo os cruzamentos feitos a partir dos dados do MapBiomas, de fato, o empreendimento obteve o licenciamento ambiental e as autorizações de supressão da vegetação nativa emitidas pela Semarh. A única exceção, aponta o MapBiomas, é a derrubada de 699 hectares (cada hectare equivale a um campo de futebol, aproximadamente) originalmente demarcados como área de reserva legal da propriedade. O sistema aponta essa área desmatada como ‘com indícios de ilicitude’.

As licenças também autorizam estruturas de apoio ao empreendimento. Entre elas está uma pista de pouso particular já instalada dentro da propriedade, além de infraestrutura energética e logística necessária à operação da fazenda.

Entre as 28 espécies de árvores derrubadas com tratores de esteira atrelados a correntão estão catuabas, guabirabas, jacarandás e barrigudas. Triste sina. Os buritis, palmeiras majestosas, símbolo do Cerrado e que dão nome ao local, aparentemente foram poupados. Eles predominam em áreas alagáveis nas margens dos rios, protegidas por lei, e não constam nos documentos como espécies a serem derrubadas.

Jaguatiricas, onças-pardas, tamanduás, raposas, caititus, tatus e preás perderam seu habitat, junto com 67 espécies de aves e 22 de répteis e anfíbios. O MapBiomas estima a média de 72,2 hectares devastados por dia na fazenda, a maior do Brasil.

Para o pesquisador do MapBiomas Nerivaldo Afonso Santos, o caso chama atenção não apenas pelos números. “Canto do Buriti merece atenção não só porque liderou o desmatamento no Brasil em 2025, com 20.877 hectares, mas também porque está em uma área de transição entre Caatinga e Cerrado”, afirma. 

Segundo ele, ecótonos – regiões de transição entre biomas – como esse concentram biodiversidade, conectam diferentes formações vegetais e costumam ser especialmente sensíveis a processos acelerados de conversão da vegetação nativa.

“O debate não é apenas sobre ilegalidade, mas também sobre a escala e os impactos territoriais da conversão autorizada da vegetação nativa”, diz o pesquisador.

Empregos, água e agrotóxicos

A chegada do megaprojeto de soja e gado do Grupo Golin a Canto do Buriti foi celebrada pela mídia local e pelo então secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí, Daniel Oliveira, que viajou até a fazenda para divulgar a política de atração de investimentos do governo do estado. “O Piauí é uma terra de oportunidades”, disse o secretário. Oliveira também garantiu a atuação da secretaria para que tudo ocorresse com respeito à legislação ambiental.

Quando esteve na fazenda de Maribel Golin, em dezembro de 2024, cerca de três meses antes de deixar o cargo, ele publicou um vídeo em sua conta pessoal do Instagram sobre o que chamou de “um grande projeto do agronegócio irrigado”, com “mais de R$ 60 milhões de reais em investimentos”. “A fazenda já gera 100 empregos diretos, com expectativa de alcançar 500 em dois anos”, afirma o ex-secretário na postagem.

Os números apresentados nos documentos ambientais acessados pelo Brasil de Fato, porém, são mais modestos. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) prevê 15 trabalhadores na etapa de supressão vegetal, dez para a construção de cercas e cerca de 30 trabalhadores permanentes para a operação da fazenda. A documentação analisada pela reportagem não explica como se chega à estimativa de 500 empregos divulgada publicamente.

Na mídia local, o latifúndio de soja é tratado como um marco para a economia da região. O apresentador Neguinho de Castro, da TV Centro-Sul, exalta “a primeira plantação de soja já plantada em Canto do Buriti”. “Coisa que ninguém imaginava que ia acontecer, mas os anos vão passando e o progresso vai chegando”, celebra o comunicador.

No vídeo publicado em janeiro de 2026, Neguinho passeia pela propriedade de caminhonete, destaca a tecnologia de plantações de soja irrigadas, lagoas e a geração de emprego e renda. “Muita gente trabalhando aqui para manter as suas famílias”, afirma.

Outra questão que permanece sem resposta diz respeito à água necessária para sustentar o empreendimento “irrigado”. O próprio EIA destaca que a soja exige grande disponibilidade hídrica para germinação e desenvolvimento. Apesar disso, os documentos analisados pelo Brasil de Fato não tratam de irrigação nem detalham qual será a principal fonte de abastecimento para uma eventual operação em larga escala.

O Rio Itaueira atravessa a fazenda e é fonte de água para a agricultura familiar da região. O curso d’água é um dos principais recursos hídricos da região e aparece nos estudos ambientais como elemento que demandará medidas de controle e monitoramento durante a implantação do projeto.

Os documentos ambientais também apresentam informações contraditórias sobre o uso de agrotóxicos. Enquanto o Relatório de Impacto Ambiental (Rima) afirma que o empreendimento “não utilizará defensivos agrícolas”, o EIA prevê a aplicação de herbicidas, fungicidas e fertilizantes químicos nas áreas destinadas ao cultivo de soja, milho e arroz.

Entre os produtos citados estão formulações à base de glifosato, princípio ativo do herbicida Roundup, agrotóxico amplamente utilizado na agricultura brasileira que pode contaminar o solo, o ar e a água quando utilizado em grande escala.

O avanço da soja e a promessa de desenvolvimento

O caso de Canto do Buriti não é isolado. Dos dez municípios que mais desmataram no Brasil em 2025, cinco estão no Piauí: Canto do Buriti, Guadalupe, Uruçuí, Baixa Grande do Ribeiro e Currais. No lado do Maranhão, Balsas também integra a lista. Esses municípios fazem parte do chamado Matopiba, fronteira agrícola que concentra parte significativa da expansão recente da produção de commodities sobre áreas de vegetação nativa.

Segundo o levantamento do MapBiomas, o Matopiba respondeu por 42% de toda a área desmatada no país em 2025, consolidando-se como principal vetor da conversão de vegetação nativa registrada no período.

Nos documentos apresentados para o licenciamento da Fazenda Reunidas Canto do Buriti, a expansão agropecuária é associada à geração de empregos, aumento da arrecadação municipal e dinamização da economia local. O empreendimento é descrito como um vetor de desenvolvimento capaz de ampliar oportunidades econômicas na região.

Mas a relação entre avanço das commodities agrícolas e desenvolvimento local, contudo, é alvo de debate entre pesquisadores. Estudos do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam que o crescimento da produção de grãos e das exportações no Matopiba foi acompanhado por forte concentração fundiária e por um processo de mecanização que reduz a demanda por mão de obra permanente nas grandes propriedades. 

Dados do último Censo Agropecuário mostram que os estabelecimentos da agricultura familiar ocupavam cerca de 23% da área agrícola da região, mas concentravam 67% das pessoas ocupadas no campo. Já os imóveis com mais de mil hectares reuniam quase metade da área agropecuária do Matopiba. 

Outros lados

Procurada pelo Brasil de Fato, a defesa de Maribel Golin enviou as seguintes notas, assinadas pelo advogado Joaquim Lopes da Silva Neto.

1) “Na condição de representante jurídico da Sra. Maribel Schmittz Golin e dos responsáveis pelo empreendimento agrícola em Canto do Buriti (PI), apresentamos os esclarecimentos solicitados por este veículo de imprensa.

Inicialmente, informamos que todas as atividades de implantação, manejo e desenvolvimento do projeto agrícola na referida propriedade, incluindo as etapas de supressão de vegetação nativa, são conduzidas sob o mais estrito amparo da legalidade.

O empreendimento possui todas as licenças, autorizações e outorgas necessárias, devidamente emitidas pelo órgão ambiental estadual competente. O processo de licenciamento atendeu rigorosamente a todas as etapas e exigências administrativas previstas na legislação, amparado pelos estudos técnicos ambientais exigidos pela norma vigente, os quais contemplam os critérios de mitigação, monitoramento e viabilidade do projeto.

Divergimos dos termos e das estimativas de desmatamento mencionados na consulta. Cumpre esclarecer que as intervenções realizadas na área não configuram desmatamento ilegal ou irregular, mas sim supressão vegetal autorizada, executada dentro dos limites permitidos pelo Código Florestal Brasileiro (Lei nº 12.651/2012) e em total conformidade com os percentuais de Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente (APP) exigidos para o bioma.

A atividade da empreendedora pauta-se pelo compromisso inegociável de atuar rigorosamente dentro das normas ambientais e jurídicas vigentes, respeitando as determinações dos órgãos fiscalizadores e aliando o desenvolvimento produtivo, a geração de empregos e a sustentabilidade regional.

Permanecemos à disposição para eventuais esclarecimentos complementares dentro dos parâmetros processuais e legais.”

2) “A respeito das notícias publicadas no Estadão, reiteramos que:

  1. A representante legal da empresa JBT EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES
    LTDA. nunca possuiu “relação próxima” com WILLIAN BARILE AGATI;
  2. A relação da JBT com WILLIAN BARILE AGATI foi apenas comercial;
  3. A Justiça Federal de Curitiba já reconheceu – em sentença transitada em julgado (Embargos de Terceiro n.o 5058194-36.2022.4.04.7000) – a boa-fé da empresa JBT, sua capacidade econômica e a licitude dos negócios jurídicos celebrados com WILLIAN AGATI. E também que a JBT é parte alheia aos fatos investigados.

Todas as movimentações bancárias da empresa e de sua representante legal têm e sempre tiveram origem lícita.”

A assessoria de imprensa do governo do estado de São Paulo enviou o seguinte posicionamento:

“A campanha de Tarcísio de Freitas contou com mais de 600 doadores e foi conduzida com total respeito às leis eleitorais. O governador não possui qualquer vínculo com a doadora citada, bem como conhecimento prévio sobre possíveis condutas que não dizem respeito à campanha. A prestação de contas foi analisada e aprovada pela Justiça Eleitoral sem qualquer pendência neste sentido.”

A Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí (Semarh) foi procurada, pediu prorrogação de prazo, mas não enviou resposta até a publicação desta reportagem.

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