‘É uma música rica, é uma cultura muito rica’: presença paraense cresce na Virada Cultural de SP

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A forte presença de artistas paraenses na Virada Cultural de São Paulo ajuda a evidenciar um movimento que vem ganhando espaço cada vez maior nos grandes eventos do país. Ritmos, estéticas e expressões populares historicamente ligados ao Norte do Brasil vêm ocupando novos palcos e alcançando públicos muito além da região amazônica.

A edição deste ano da Virada Cultural, que ocorre neste fim de semana, reúne nomes do brega, tecnobrega e da cena amazônica em diferentes pontos da capital paulista. Um dos destaques é a estreia da aparelhagem Carabao – O Máximo do Marajó no Sudeste. A programação conta com artistas do Pará distribuídos entre o palco São João, o Centro Velho e o Vale do Anhangabaú.

A presença paraense na Virada não é inédita. Na edição passada, a aparelhagem Crocodilo ocupou o centro da cidade e nomes como Viviane Batidão também integraram a programação. Neste ano, no entanto, a cena amazônica ganha ainda mais espaço, com artistas e DJs distribuídos em diferentes palcos e formatos.

Entre os nomes confirmados estão Gaby Amarantos, Joelma, Banda Fruto Sensual, Valéria Paiva, Zaynara, Baby Plus Size, DJ Meury, DJ RayTech e Célia Sampaio.

Para Valéria Paiva, cantora da Banda Fruto Sensual e uma das principais vozes do brega paraense, conhecida em Belém como a “rainha das aparelhagens”, essa presença representa um momento importante para uma produção cultural que por muito tempo foi tratada como regional.

“É uma música que não é considerada mais regional, porque é uma música que já conquistou Brasil e mundo”, afirmou em vídeo enviado à Rádio Brasil de Fato.

A participação na Virada também marca a estreia de Valéria no evento paulistano. Para a artista, o espaço ocupado pela música paraense em um dos principais polos culturais do país ajuda a reforçar uma identidade construída ao longo de décadas.

“É uma música rica, é uma cultura muito rica tanto nas letras, como nos ritmos, nas coreografias, nos figurinos”, disse.

Além do show com a Banda Fruto Sensual no palco São João, Valéria também integra a programação da aparelhagem Carabao, que ocupa o Vale do Anhangabaú com agenda voltada ao tecnobrega e à cultura musical amazônica.

Referência do tecnobrega no Pará, Valéria Paiva participa da programação da aparelhagem Carabao, que estreia no Sudeste durante a Virada Cultural.
Referência do tecnobrega no Pará, Valéria Paiva participa da programação da aparelhagem Carabao, que estreia no Sudeste durante a Virada Cultural. | Crédito: Reprodução/Instagram @valeriapaivaofficial

Palcos

A estreia da aparelhagem Carabao na Virada Cultural de São Paulo também evidencia como esse formato, criado no Pará, passou a ocupar festivais e grandes eventos fora da região Norte.

O movimento das aparelhagens surgiu entre as décadas de 1940 e 1950, nas periferias de Belém, inicialmente com caixas de som e toca-discos usados em festas e bailes populares.

Com o tempo, essas estruturas cresceram e incorporaram iluminação, projeções, identidade visual e tecnologia cada vez mais sofisticadas. Hoje, muitas são conhecidas como “naves”, grandes estruturas que misturam música, performance e uma forte identidade estética ligada ao brega e ao tecnobrega.

As aparelhagens deixaram de ser apenas grandes estruturas de som e se consolidaram como parte importante da cultura popular paraense. Hoje, movimentam DJs, produtores, técnicos, dançarinos e grandes públicos.

Esse crescimento também acompanha a circulação cada vez maior de artistas paraenses em festivais e espaços culturais fora da região Norte.

Origens

A força dessa musicalidade, no entanto, tem raízes muito anteriores às aparelhagens.

A formação cultural do Pará foi marcada por encontros entre povos indígenas, populações ribeirinhas, influências africanas e processos de urbanização popular que ajudaram a construir uma identidade sonora própria.

Belém teve papel central nesse percurso. Pela posição estratégica nos rios, portos e rotas comerciais da Amazônia, a cidade se consolidou como um importante ponto de circulação econômica e cultural. Durante o ciclo da borracha, entre o fim do século 19 e o início do 20, esse intercâmbio se intensificou.

Além de mercadorias, circulavam discos, instrumentos e referências musicais vindas de outras partes da América Latina e do Caribe. Mais tarde, o rádio aprofundou essas trocas. Ritmos como cumbia, merengue, bolero, salsa e calypso passaram a ser ouvidos, reinterpretados e misturados localmente, ajudando a formar uma sonoridade própria no estado.

Desse processo surgem e se fortalecem gêneros que mais tarde ganhariam projeção nacional, como a guitarrada, a lambada, o brega e, posteriormente, o tecnobrega.

Expansão

Nomes como Pinduca, Dona Onete, Fafá de Belém, Toninho Nascimento, Manoel Cordeiro, Banda Calypso, Joelma, Gaby Amarantos e Jaloo ajudam a dimensionar a força e a diversidade da música paraense em diferentes gerações.

Do carimbó à guitarrada, do brega ao tecnobrega, da música popular ao pop contemporâneo, esses artistas contribuíram para levar sonoridades do Pará a públicos de outras regiões do Brasil e também de fora do país.

Hoje, novas gerações de DJs, produtores e cantores seguem renovando essa cena e ocupando novos circuitos culturais.

Valéria Paiva vê esse avanço como parte de uma consolidação nacional dessa produção musical.

“A gente fica muito feliz em participar desse momento muito especial, em que a nossa música se solidifica nacionalmente”, afirmou.

Ela também destacou o caráter festivo e afetivo dessa tradição. “A gente vai levar o nosso repertório, levar essa alegria que o povo aqui do Norte tem, para mostrar para vocês.”

Valéria se apresenta com a Banda Fruto Sensual no palco São João e também participa da programação da Carabao no Vale do Anhangabaú.

Serviço

A programação da aparelhagem Carabao – O Máximo do Marajó segue, neste domingo, no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo.

23 de maio
18h30 — Carabao – O Máximo do Marajó
21h — Carabao – O Máximo do Marajó
23h30 — Carabao recebe Zaynara

24 de maio
2h — Carabao recebe DJ Meury
4h30 — Carabao – O Máximo do Marajó
19h — Carabao recebe DJ RayTech
12h — Carabao recebe Valéria Paiva
15h30 — Carabão recebe Baby Plus Size
18h — Carabao – O Máximo do Marajó

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