1º de Maio mobiliza trabalhadores ao redor do mundo contra bilionários, reformas trabalhistas e perda de tempo de vida

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Cento e quarenta anos após as greves de Chicago que deram origem ao Dia Internacional dos Trabalhadores, o 1º de Maio voltou a levar multidões às ruas ao redor do mundo. De Buenos Aires a Paris, de Manila a Istambul, de Havana a Nova York, a data foi marcada por atos contra bilionários, reformas trabalhistas, perda de renda e jornadas cada vez mais exaustivas.

Em todos os continentes foram registradas mobilizações da classe trabalhadora, algumas reprimidas pelas polícias locais. Em comum, os atos reuniram reivindicações por salários maiores, melhores condições de trabalho, proteção social e paz, em um cenário de alta nos custos de energia e redução do poder de compra.

Criada a partir da luta pela jornada de oito horas, a data ganhou novo sentido em países onde o tempo de trabalho voltou ao centro da disputa política. Em diferentes contextos, trabalhadores denunciam que a crise tem sido enfrentada por governos e empresas com cortes, flexibilização de direitos, arrocho salarial e ampliação da exploração.

Argentina protesta contra reforma trabalhista de Milei

Na América Latina, um dos principais focos de mobilização ocorreu na Argentina. Em Buenos Aires, trabalhadores marcharam contra a reforma trabalhista aprovada pelo governo de Javier Milei. O ato foi convocado pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), que acusa o governo de atacar direitos históricos.

A legislação facilita contratações e demissões, amplia a jornada diária para até 12 horas, estende o período de experiência e permite substituir o pagamento de horas extras por folgas. Para sindicatos, as mudanças aprofundam a precarização em um país marcado pela perda de empregos formais e pela ampliação da informalidade.

A teleSUR informou que sindicatos e organizações populares organizaram jornadas de protesto ao longo da semana do trabalhador, denunciando empobrecimento, demissões e desfinanciamento de políticas públicas.

Nos EUA, atos miram bilionários e política migratória

Nos Estados Unidos, onde o 1º de Maio não é feriado nacional, sindicatos e organizações populares convocaram protestos sob o lema “workers over billionaires” (trabalhadores acima de bilionários, traduzido para o português).

De acordo com o Guardian, as ações reuniram milhares de pessoas sob a coalizão May Day Strong, que articula mais de 3,5 mil organizações, incluindo sindicatos e entidades de defesa de imigrantes. A coalizão defendeu paralisações e boicotes com o mote “sem escola, sem trabalho, sem compras”.

Segundo a AP, protestos e boicotes foram organizados em cidades como Nova York, Chicago, Washington e Portland. Trabalhadores criticaram a concentração de riqueza, políticas do governo Donald Trump e a repressão migratória.

Europa tem protestos por paz e direitos

Na França, sindicatos convocaram atos em Paris e outras cidades com o lema “pão, paz e liberdade”, articulando o custo de vida aos conflitos internacionais. Também houve críticas a propostas de flexibilização do trabalho. Os atos foram reprimidos pela polícia na capital francesa.

Na Turquia, a data também foi marcada por repressão. De acordo com a teleSUR, cerca de 360 pessoas foram detidas ao tentar chegar à Praça Taksim, em Istambul, local simbólico para o movimento trabalhista. Houve uso de gás lacrimogêneo, detenções em massa e bloqueios de transporte.

Na Bósnia, trabalhadores marcharam pela reabertura da siderúrgica de Zenica. Segundo a Reuters, o fechamento da planta ameaça milhares de empregos e simboliza o declínio da indústria pesada no país.

Em diferentes países europeus, os atos também foram acompanhados por forte presença policial e episódios de repressão. Na foto, um trabalhadore é detido em Paris (Foto: Alain Jocard/AFP)

Na Itália, trabalhadores marcharam contra a precarização, em resposta ao anúncio do governo de incentivos pra supostamente aumentar as taxas de emprego. As medidas são criticadas pela oposição. Em Portugal, sindicatos mantêm resistência a mudanças na legislação trabalhista que ampliam horas extras e reduzem direitos, após meses de negociação sem acordo.

América Latina e Caribe ligam mobilização à soberania

Na Bolívia, mobilizações reuniram trabalhadores, camponeses e indígenas em torno de pautas salariais e da defesa de empresas públicas.

Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro convocou mobilizações em defesa de reformas sociais e trabalhistas, conectando os atos a uma disputa institucional com o Congresso.

No Chile, trabalhadores também foram às ruas em Santiago e foram reprimidos com bombas de efeito moral e jatos de água.

Ásia e África denunciam carestia

Na Ásia, protestos também foram marcados pela alta do custo de vida. Nas Filipinas, manifestantes cobraram salários maiores e redução de impostos. Houve confronto com a polícia nas proximidades da embaixada dos Estados Unidos.

Na Indonésia, milhares foram às ruas em Jacarta para exigir proteção diante da alta de preços.

No Paquistão, a AP destacou que muitos trabalhadores informais não conseguem aderir às paralisações por dependerem da renda diária.

Na África, protestos no Marrocos e na África do Sul denunciaram o aumento dos preços de combustíveis, alimentos e serviços básicos. A presidente da central sindical Cosatu afirmou que trabalhadores enfrentam uma “crise de dignidade”.

Em Gaza, guerra impede mobilizações

Na Palestina, segundo a Al Jazeera, trabalhadores cancelaram atos em Gaza devido à crise econômica agravada pelo genocídio praticado por Israel. A Federação Geral Palestina de Sindicatos estima que cerca de 550 mil trabalhadores estejam sem renda entre Gaza e Cisjordânia.

O cenário expõe uma face extrema da data: em vez de mobilizações, a impossibilidade de trabalhar e viver uma vida digna.

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