Política anti-imigração de Trump coloca latino-americanos como inimigos internos, avalia analista internacional

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A notícia de mais uma morte pelas mãos do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) deu ainda mais combustível para a forte polarização vivida no país comandado por Donald Trump. Apesar de a vítima, mais uma vez, ser um cidadão estadunidense, a política anti-imigração do presidente dos Estados Unidos tem um componente racista ao mirar especialmente em latino-americanos, segundo avaliação da analista política internacional Amanda Harumy.

Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (Prolam/USP), Harumy conversou nesta segunda-feira, 26, com o jornal Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fatoe apontou semelhanças entre a forma trumpista de fazer política e a ascensão de regimes autoritários históricos.

“A liderança do Trump surge de uma crise nos Estados Unidos: uma crise estrutural. Em momentos de crise, já vimos isso na II Guerra Mundial com a ascensão, por exemplo, do (Adolf) Hitler, é comum criar a narrativa de um inimigo interno. Criar a narrativa de que é possível construir ‘os Estados Unidos grandes novamente’ e que a América Latina tem que ser quintal dos Estados Unidos, é por conta de uma compreensão da reorganização mundial”, comparou.

“Isso tem a ver também com a agenda internacional. Não é por acaso que o Trump persegue imigrantes. Esses imigrantes são latino-americanos, são considerados por eles como inferiores, periféricos, então tem uma base ideológica muito grande, inclusive racista, nessa política”, prosseguiu.

Para a especialista, o trumpismo identificou um problema estrutural dos Estados Unidos: com o deslocamento do eixo industrial do mundo para a Ásia, o país perdeu muitos empregos e vive, há décadas, em situação de instabilidade econômica. Entretanto, em vez de oferecer soluções efetivas para esse problema, oferece à população uma narrativa manipulada para combater ‘inimigos’ – internos e externos.

“A partir dessa agenda, que é muito racista, ele faz uma perseguição interna nos Estados Unidos, uma agenda anti-imigrante. Com isso, consegue uma base de estadunidenses que defendem que os Estados Unidos sejam novamente esse líder econômico e tenha empregos, ao mesmo tempo que projeta poder e muita intervenção na América Latina, tentando desestabilizar os governos que reivindicam sua soberania; fragilizar os processos autônomos da América Latina e manipular que esses novos governos, ou governos que ganham (eleições) a partir de seu apoio, entreguem suas riquezas para o uso dos Estados Unidos, como estamos vendo na Argentina”, destacou, citando a subserviência de Javier Milei ao presidente dos EUA.

Amanda Harumy acredita que o processo de repressão aos imigrantes nos Estados Unidos vai continuar, já que o governo Trump precisa da disputa ideológica para se manter forte.

“Tudo indica que o governo do Trump quer mesmo polarização, radicalização, e alguns dizem que o cenário nos Estados Unidos se parece mais com uma guerra civil, um caos, uma disputa interna”, resumiu.

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