O pedido de perdão aos povos Guarani pelo extermínio e pelas violências cometidas ao longo do processo colonial marcou a 48ª Romaria da Terra do Rio Grande do Sul, realizada no Santuário do Caaró, em Caibaté, na região das Missões. Com o tema dos 400 anos de evangelização missioneira, a atividade reuniu romeiros, lideranças religiosas, representantes de movimentos sociais, indígenas e autoridades locais em uma jornada que combinou fé, memória histórica e reivindicação de direitos.

A escolha do local não foi casual. A proposta de realizar a romaria no território missioneiro partiu do frei Sérgio Görgen, que defendia a necessidade de revisitar criticamente a história das Missões Jesuíticas e relacioná-la aos desafios atuais da terra, da ecologia integral e da justiça social. Frei Sérgio morreu recentemente e foi homenageado ao longo da programação, com menções públicas à sua trajetória de atuação junto a camponeses e povos originários.

Segundo o padre Anderson Rabêlo, reitor do Santuário do Caaró, a romaria assumiu de forma explícita o compromisso de reconhecer as violências do passado. “A gente não pode celebrar 400 anos sem olhar para as dores que marcaram esse processo. É um tempo de memória e também de pedido de perdão aos povos que foram exterminados”, afirmou.
Para o religioso, a proposta não é apagar a história, mas encará-la com responsabilidade. “A terra sem males, que é expressão tão cara ao povo Guarani, e o Reino de Deus que professamos, não se constroem sem justiça.”
Quatro paradas, um caminho de reflexão
O momento central da Romaria da Terra foi a caminhada com quatro paradas ao redor do Santuário do Caaró, organizada como um percurso pedagógico e espiritual. Padre Anderson Rabêlo explicou que cada estação foi pensada para articular memória histórica, espiritualidade e compromisso social, conectando passado e presente.

A primeira parada foi dedicada à Mãe Terra, aos povos indígenas e à natureza. O gesto simbolizou o reconhecimento de que o território missioneiro já era habitado muito antes da chegada dos europeus.
“Ali recordamos que essa terra tem dono ancestral, que havia vida, cultura e espiritualidade muito antes da colonização”, afirmou o padre. O momento foi marcado por referências à cosmovisão indígena e ao cuidado com a criação, reforçando o pedido de perdão aos povos Guarani.
A segunda parada foi conduzida sob o símbolo de Nossa Senhora e trouxe ao centro a reflexão sobre a água como direito do povo. A estação relacionou fé popular e justiça social, destacando a água como bem comum ameaçado pela mercantilização e pela degradação ambiental. Segundo padre Anderson, a espiritualidade mariana foi associada à proteção da vida e à defesa dos bens naturais.

A terceira parada foi inspirada na espiritualidade franciscana e na ecologia integral. Houve a oração de São Francisco, evocando a fraternidade universal e o cuidado com todas as criaturas. O momento também foi de recordação da trajetória de frei Sérgio Görgen. A fala destacou seu compromisso com a terra, com os camponeses e com os povos originários, reafirmando que sua memória permanece como inspiração para as lutas atuais.
A quarta e última parada apontou para o presente e o futuro. O foco esteve na continuidade da resistência indígena e camponesa e na responsabilidade coletiva diante das mudanças climáticas. “Não é só sobre o passado. É sobre como vamos caminhar daqui para frente, em respeito à casa comum e aos direitos dos povos”, disse padre Anderson.
Durante todo o trajeto, símbolos religiosos, a cruz missioneira e elementos da espiritualidade indígena foram conduzidos pelos participantes, compondo um gesto coletivo de reconciliação e compromisso. Segundo a organização, a caminhada foi estruturada como um ato público de contrição, mas também como afirmação de que a fé, naquele território, precisa estar ligada à justiça histórica e à defesa da vida.
A memória como denúncia
Para Roberto Antônio Liebgott, coordenador do Conselho Indigenista Missionário na Região Sul (Cimi Sul), a romaria cumpre um papel importante ao trazer à tona uma história muitas vezes celebrada sem o devido reconhecimento das violências cometidas. “Quando se fala em quatrocentos anos de evangelização, é preciso dizer que esse processo também significou imposição de fé, perda de território e genocídio”, afirmou.

Segundo ele, o pedido de perdão precisa estar acompanhado de ações concretas. “A memória não pode ser só simbólica. O povo Guarani segue enfrentando dificuldades enormes para ter seus territórios demarcados e suas comunidades reconhecidas. Se a Igreja e a sociedade reconhecem o erro histórico, isso precisa se traduzir em apoio efetivo às lutas atuais.”
Liebgott ressaltou que a presença indígena na romaria foi fundamental para dar legitimidade ao gesto de contrição. “Não se pede perdão por alguém ausente. É preciso escutar quem sofreu as consequências desse processo.”
A voz Guarani
O cacique Eloir Oliveira, da retomada Nhe’engatu em Viamão, trouxe à romaria dados sobre a redução drástica da população indígena no estado ao longo dos séculos. Segundo ele, antes do período missioneiro havia dezenas de milhares de indígenas na região. “Hoje somos pouco mais de quatro mil no Rio Grande do Sul. Isso não é um dado qualquer, é resultado de extermínio”, afirmou.
Para o cacique, a história oficial também silencia a violência sofrida pelos povos originários. “Para nós, essa história é triste, mas para a sociedade no geral ela é algo marcante e a ser exaltado. Só que ela precisa ser contada inteira.”
Ele defendeu que o pedido de perdão seja acompanhado do reconhecimento do direito à terra e à autonomia cultural. “Nós não estamos aqui para brigar como já foi brigado no passado, não estamos aqui para ser confinados como já fomos no passado. Estamos aqui para viver em liberdade.”

Eloir Oliveira também destacou que a espiritualidade Guarani permanece viva, apesar das tentativas históricas de apagamento. “A nossa ancestralidade não morreu. Ela resiste nas aldeias, na língua, na forma de rezar e de viver.”
Igreja, poder público e responsabilidades
Dom Liro Vendelino Meurer, bispo diocesano, afirmou que a romaria se insere em um esforço mais amplo da Igreja de rever sua própria história. “Não podemos negar que houve erros e violências. Pedir perdão é um passo necessário, ainda que não apague o sofrimento causado”, declarou. Segundo ele, a presença de lideranças indígenas e de movimentos sociais indica uma disposição de diálogo. “A reconciliação só é possível quando há verdade.”
O prefeito de Caibaté, Daniel Herz (PP), destacou a importância da romaria para o município e para a região missioneira. Ele ressaltou o caráter espiritual do evento e a acolhida aos visitantes. “Recebemos pessoas de diversas partes do estado para um momento de fé e reflexão. O Santuário do Caró é um espaço sagrado e também um lugar de memória”, afirmou.

Herz avaliou que a discussão sobre o passado pode fortalecer o turismo histórico e religioso, mas reconheceu que o debate sobre os povos indígenas exige sensibilidade. “É um tema que envolve dor e que precisa ser tratado com respeito.”
Memória viva dos romeiros
Entre os participantes estava o agricultor Leonildo Zanc, assentado em Viamão, no assentamento Filhos de Sepé, que acompanha a Romaria da Terra desde suas primeiras edições. Ele relembrou sua trajetória no evento e situou historicamente a mobilização. “Eu participo da romaria desde a quinta edição, há 43 anos. Eu me lembro que ela foi em Canoas, no bairro Santo Operário, onde estava o frei Antônio Cecchin coordenando. Lembro também do frei Sérgio. Os dois já são falecidos, mas trazem uma história”, afirmou.
Segundo Zanc, a participação ao longo das décadas reforça o sentido simbólico da romaria. “Depois disso, a gente vem sempre participando, não em todas, mas na grande maioria. Ano passado a gente participou lá em Arroio do Meio, onde o símbolo era o da enchente. A Romaria da Terra sempre traz um símbolo.” Para ele, a edição deste ano tem um significado particular. “Hoje vai ser um dia especial.”

Ao ser questionado sobre o símbolo da romaria deste ano, Zac relacionou o tema aos 400 anos da violência sofrida pelos povos indígenas na região. “São os 400 anos da história desses índios que aqui habitaram e hoje a gente só vê soja, só vê agronegócio. Então é pena a gente ver tanta destruição da natureza”, disse.
Ele também apontou para a necessidade de aprendizado com os povos originários. “Nós temos que aprender com a cultura indígena. Se nós pudéssemos aprender um pouquinho com eles, eu acho que nós ainda salvaríamos esse planeta que está sendo destruído.”
Projeto de sociedade em disputa
A relevância política da Romaria da Terra também foi destacada por lideranças que enxergam no território missioneiro não apenas um espaço de memória, mas uma referência para pensar outro modelo de sociedade. Para o ex-governador Olívio Dutra, a simbologia das Missões funciona como convocação permanente à participação popular e à construção de um projeto coletivo.
Segundo ele, o local remete à necessidade de que o povo seja sujeito, e não apenas objeto, das decisões políticas. Olívio defendeu uma economia menos concentrada, com distribuição de renda e respeito à natureza e às relações comunitárias. Ao mencionar a organização social das reduções, destacou que a experiência histórica continha elementos de solidariedade e partilha. “As romarias são uma convocação permanente para a continuidade de uma luta. Tem conquistas, mas as conquistas encerram outras lutas para não perder o que você conquistou e para avançar”, afirmou.

Para o ex-governador, o desafio contemporâneo é retomar práticas baseadas na cooperação, em contraposição ao modelo que privilegia a concentração de riqueza e a exploração intensiva dos recursos naturais.
Em sintonia com essa perspectiva, o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento, Edegar Pretto, avaliou que o Rio Grande do Sul vive um momento que exige reconstrução estrutural. Ele criticou o cenário de déficit orçamentário e a precariedade dos serviços públicos, especialmente nas áreas de saúde e educação, e defendeu um governo mais conectado à realidade concreta da população.
Pretto afirmou que a experiência missioneira pode inspirar um novo ciclo de desenvolvimento, alinhado à sustentabilidade e à justiça social. “Nós queremos organizar um projeto de desenvolvimento com sustentabilidade, levando em conta esse novo momento das mudanças climáticas”, declarou.

Ao relacionar memória histórica, crise ambiental e políticas públicas, as falas reforçaram que a Romaria da Terra ultrapassa o caráter religioso e se consolida como espaço de debate sobre os rumos econômicos e sociais do estado.
Homenagem a frei Sérgio
Ao longo da programação, a figura de frei Sérgio foi lembrada como idealizador da realização da romaria no território missioneiro. Lideranças recordaram sua atuação em defesa da agricultura familiar, da reforma agrária e dos povos indígenas. Uma homenagem especial marcou a edição deste ano, com menção à sua contribuição para a reflexão sobre terra e justiça social.
Padre Anderson Rabêlo afirmou que a proposta de trazer a romaria para as Missões nasceu da inquietação de frei Sérgio diante da necessidade de revisitar a história. “Ele dizia que não podíamos falar de terra sem falar do que aconteceu aqui. Essa romaria também é fruto da insistência dele.”

Carta da 48ª Romaria da Terra
Ao final da caminhada, o tom predominante foi o de compromisso com a continuidade do diálogo. O pedido de perdão aos Guarani, repetido em diferentes momentos da celebração, foi apresentado como ponto de partida, não de chegada. Entre orações, cantos e manifestações culturais, a Romaria da Terra deste ano deixou registrado que a memória do passado segue atravessando o presente e desafiando instituições, governos e comunidades a responderem às marcas ainda abertas da história.
Durante a celebração, foi divulgada a carta da 48ª Romaria da Terra do RS, que reafirma o caráter espiritual e político do encontro ao denunciar injustiças históricas contra povos indígenas, quilombolas e comunidades camponesas. O documento cobra verdade, memória e reparação, retoma o brado de Sepé Tiaraju como símbolo de resistência à concentração de terras e defende reforma agrária, demarcação de territórios e fortalecimento da agricultura camponesa. Também alerta para o avanço do extremismo e o uso da religião para legitimar violência e manipulação eleitoral.
A carta também critica o que chama de “empreendimentos de morte”, como o agronegócio predatório, monocultivos com uso intensivo de venenos, fábricas de celulose e projetos de mineração, apontados como responsáveis por devastação ambiental e expulsão de comunidades. Em contraposição, assume compromissos com a Ecologia Integral, a agroecologia, o reflorestamento com espécies nativas, a proteção das águas, o apoio a economias solidárias e a articulação entre campo e cidade, reafirmando a defesa da democracia e dos direitos dos povos dos campos, das águas e das florestas.
Confira aqui a carta da 48ª Romaria da Terra.

