Não deixe o Carnaval morrer, não deixe a festa do interior do RJ acabar

Publicada em

O Carnaval mexe comigo. É a população feliz, toda colorida e brilhando, dançando no asfalto quente, ao som de um tambor que chama mais gente, num mar de fantasias feitas em mutirão e memórias que atravessam gerações. É quando a rua vira a casa de todo mundo e a cultura popular ocupa o centro da cena. Como mangueirense ferrenha desde menina e grande apaixonada pela cultura popular, aprendi cedo que o Carnaval não é apenas festa. É identidade, trabalho, pertencimento. É uma das formas mais profundas de o Brasil contar a própria história e se perpetuar com alegria.

No Rio de Janeiro, essa força se traduz também em números que desmontam qualquer ideia de que cultura é supérflua. A estimativa é que a festa movimente mais de R$ 5,7 bilhões na economia fluminense, aquecendo turismo, hotelaria, transporte, comércio e serviços. Carnaval é cultura, mas também é emprego e renda. Muitos podem reclamar e nem mesmo curtir a festa, mas todos se beneficiam com os lucros trazidos por ela.

O problema é que esse reconhecimento ainda não chega de forma equilibrada a todos os territórios. Ao olharmos para além da capital, vemos um Brasil de festas em risco. Municípios do interior têm visto suas tradições carnavalescas diminuírem ou simplesmente deixarem de acontecer por falta de incentivo. Fora da capital, o que se vê é um Carnaval cada vez mais fragilizado. O interior do estado enfrenta falta de apoio e descontinuidade de políticas públicas.

:: Quer receber notícias do Brasil de Fato RJ no seu WhatsApp? ::

Para podermos comparar melhor, o Carnaval do Grupo Especial ultrapassa os R$ 77 milhões de subvenção pública. Já o investimento em editais culturais, que contemplam blocos de rua, bate-bolas, folias de reis e outras manifestações tradicionais, chega a R$ 20 milhões para todo o estado.

Municípios do interior precisam estar em foco também. Em Itaperuna, depois de anos de abandono e falta de incentivo de sucessivos governos à festa popular, a atual gestão municipal decidiu retomar o Carnaval, com recursos próprios e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). A celebração, no entanto, precisou ser cancelada diante do agravamento da crise climática, marcada por dias de fortes chuvas, enchentes e deslizamentos. O episódio reforça a urgência do Estado de investir de forma permanente em políticas culturais, mas também em políticas ambientais e de prevenção de tragédias, para que o direito à alegria não continue refém do descaso histórico. E para que a época mais feliz do ano, não continue se transformando em pesadelo para tantas pessoas.

É preciso lembrar: quando um bloco deixa de desfilar, não é só a música que silencia e o povo que fica em casa. É a comunidade que perde espaço, memória e circulação de renda.

Teresópolis, por exemplo, vive uma situação complicada. Apesar de suas escolas de samba serem patrimônio cultural material, o poder público tem restringido o apoio, deixando nas mãos dos blocos independentes, como União Samba Rosário, Bloco Bebe Rindo, Gatos Pingados, Blocogu, Bloco Deu Branco e Bond do Porre, a missão de manter a cultura viva por meio de editais, eventos e mobilização própria. Iniciativas como o projeto do Bloco Bebe Rindo em parceria com o Centro Cultural Feso Proarte, que resgata saberes e práticas carnavalescas, mostram a força dessas tradições mesmo diante de negligência institucional. O que deveria ser política de Estado acaba virando esforço voluntário de quem ama o Carnaval.

Se os números provam que a magnífica festa movimenta bilhões, é hora de tratar o Carnaval de todo o estado como estratégia de desenvolvimento. Precisamos descentralizar investimentos, fortalecer editais regionais e garantir que o interior também tenha direito à folia. Defender o Carnaval é defender a cultura, economia local e dignidade dos trabalhadores da cultura. É assegurar que o Brasil, e consequentemente o Rio, continue se reconhecendo no batuque que ecoa das grandes avenidas às vielas mais simples dos nossos municípios. Nossas tradições não podem desaparecer e é nosso dever lutar pela manutenção da memória do nosso povo. E viva o Carnaval!

Source link