‘Defesa Civil não trabalha na perspectiva de se antecipar ao problema’, aponta geógrafo sobre eventos climáticos extremos

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As fortes chuvas que atingiram a Zona da Mata mineira no último fim de semana deixaram um rastro de destruição, com deslizamentos, mortos e desabrigados em cidades como Juiz de Fora e Ubá. Mais de 500 mm de chuva em pouco mais de 24 horas — volume histórico — fizeram encostas deslizarem e levaram moradores a relatarem tremores de terra na noite de domingo.

Com intensidade maior, esses eventos extremos serão cada vez mais comuns, no entanto, os governos e a sociedade não estão preparados para eles, aponta Wagner Ribeiro, geógrafo e professor de pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP) ao Conexão BdF e Rádio Brasil de Fato.

“A gente tem que abrir o olho. Temos um caminho praticamente sem volta se não cuidarmos dessa questão das mudanças climáticas. Os eventos extremos serão cada vez mais frequentes. A pergunta não é se vão acontecer, mas quando vamos estar preparados.”

Ele detalhou a dinâmica meteorológica por trás do evento em Juiz de Fora. “Um centro de baixa pressão trouxe a chuva da Amazônia com alta intensidade, deslocada para essa faixa. Ao mesmo tempo, houve a subida de frentes frias com volume importante de chuva. Tudo isso se concentrou nessa porção do território brasileiro.”

O professor destaca a necessidade urgente de mudança de postura do poder público e da população. “A pergunta é: quando vamos estar mais preparados para enfrentar essas anomalias cada vez mais recorrentes? Se a população percebeu que poderia ocorrer algo mais grave, por que não foi tomada uma ação antes?”

Para Ribeiro, a resposta passa por investimento em prevenção. “Capacitar a população, treinar para apreender situações de risco e, evidentemente, sair dessas áreas quando necessário. Se o indivíduo percebe uma movimentação de terra, não há por que ficar na residência. Para isso, você tem que ter todo um trabalho preparatório: saber onde as pessoas vão ser alocadas, por quanto tempo, que tipo de preparo vai ser dado.”

Ele critica a atuação da Defesa Civil no Brasil, que é muito reativa. “Ela não trabalha na perspectiva de se antecipar a um problema sério. Depois que ocorre o incidente, você tem que ter prioridade de acolhimento. Mas o ideal é prevenir.”

Ribeiro aponta a complexidade geográfica de cidades como Juiz de Fora, por ser uma região com muitas áreas íngremes. “Encontrar áreas que não estejam sujeitas a escorregamentos é complicado. Mas é um desafio que os órgãos públicos têm que enfrentar.”

Ele lembra que Juiz de Fora é o nono município brasileiro com mais população vivendo em encostas. “Não adianta só soar o alarme. É preciso ter para onde ir. Treinar lideranças locais para que, quando a sirene tocar, elas orientem: ‘Vamos para aquela escola, para aquele ginásio’. Isso só se faz com preparação.”

Ribeiro não poupa críticas aos governantes. “O governo de Minas Gerais reduziu 95% do valor para combater enchentes. A Prefeitura de Juiz de Fora não conseguiu destravar verbas do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para obras de contenção. Isso mostra falta de vontade política. Não é mais falta de capacidade técnica. Nós temos inúmeros pesquisadores, geógrafos, geólogos, engenheiros ambientais que poderiam fazer laudos, capacitar prefeituras, montar projetos adequados.”

Ele vê nas eleições uma oportunidade de pressão popular. “Quando chega na dimensão política, só a pressão da população vai fazer isso mudar. Temos um momento importante com a onda de eleições. É uma chance de mudar esse despreparo. Não dá mais para ter desculpa de ‘a chuva foi muito forte’. Elas são esperadas e vão ocorrer novamente.”

O aquecimento dos oceanos e os eventos extremos no mundo

Ribeiro também relaciona as tragédias brasileiras a fenômenos globais. “Quando a gente olha para o planeta, 75% da superfície é coberta por água salgada. Esse fluido tem um papel fundamental na dinâmica do sistema Terra. Com a água mais aquecida, isso repercute em todo o fluxo energético: massas de ar frio, massas de ar quente, correntes marítimas.”

Ele cita um dado alarmante. “Uma reportagem recente aponta que 20% das espécies de peixes morreram por conta desse aquecimento. Estamos falando de formas de vida, de fonte de proteína para muitas populações. Os oceanos são fundamentais na regulação da dinâmica planetária.”

O professor alerta para o risco de colapso das correntes marítimas que regulam o clima. “As correntes levam calor da faixa tropical para os polos e trazem ar frio. Esse sistema permite, por exemplo, que o norte da Europa tenha temperaturas amenas. Mas essa corrente hoje está em risco. Já há estudos projetando que ela pode estar mudando. Se for alterada nos próximos 10 anos, teremos consequências gravíssimas.”

Ribeiro também relaciona as nevascas históricas nos Estados Unidos ao mesmo desequilíbrio climático. “Os números mostraram 50 cm de neve em pouco tempo. Uma das causas especulativas é justamente essa mudança na circulação termohalina – a circulação de água que sai da faixa tropical e vai para o norte. Se ela está menos densa, as correntes trazem mais umidade fria, gerando correntes mais intensas no hemisfério norte.”

Para ouvir e assistir

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