Agroecologia é arma contra colonialismo, dizem intelectuais e camponeses do Sahel na África

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Os camponeses dos países do Sahel africano querem utilizar a agroecologia para enfrentar o colonialismo. É o que disseram representantes do Mali e de Burkina Faso ouvidos pelo Brasil de Fato.

O intelectual malê Mamadou Goita e o líder camponês buquinabé Joseph Thiombiano estão em Cartagena, na Colômbia, para participar da 2ª Conferência sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (ICARRD +20).

Eles conversaram com a reportagem sobre os problemas conjuntos que seus países compartilham e as soluções que os trabalhadores rurais e seus governos estão propondo. Desde 2018, Mali, Níger e Burkina Faso protagonizam experiências de governo revolucionários oriundos de levantes militares nos países do chamado Sahel — região ocidental da África — que se colocam contra a influência e a dominação francesa.

Os processos são conduzidos por militares e apoiados por diversas organizações populares de seus países e ao redor do mundo. É o caso da Confederação Burquinabé dos Camponeses, organização presidida por Joseph Thiombiano. Segundo o militante, “Burkina Faso usa a agroecologia como arma para vencer o colonialismo”.

“Em Burkina Faso nós incentivamos ideias como o consumo local, o produto local. Veja você, eu estou vestido de um produto 100% burquinabé. Esse algodão foi feito por nossos camponeses, e os nossos joalheiros fizeram esse broche, e os nossos costureiros foram os que coseram esse tabuk. Esses são recursos para lutar contra o império”, disse ao BdF.

O líder camponês burquinabé Joseph Thiombiano e seu tabuk 100% nacional | Crédito: Lucas Estanislau/Brasil de Fato

Cerca de 80% da população economicamente ativa em Burkina Faso depende da agricultura. Após o levante militar no país e com o início do governo do capitão Ibrahim Traoré, a prática da agroecologia — produção de alimentos sem agrotóxicos e com integração à biodiversidade local — tem ganhado mais espaço no país.

Organizações populares como a Fundação Yelemani tem impulsionado a luta por soberania alimentar no país ainda muito atrelado à antiga metrópole, a França.

Thiombiano destaca que hoje o governo conduz políticas importantes voltadas para o campesinato e para a construção da soberania alimentar como a entrega de milhares de hectares de terras a organizações camponesas, o impulsionamento de sistemas de irrigação e a luta contra a desertificação, que deu origem a um programa de plantio massivo de árvores.

O líder camponês ainda disse estar contente por participar da ICARRD +20 já que, segundo ele, “os problemas dos países do Sul Global são geralmente os mesmos”.

“Hoje, nós estamos enfrentado uma guerra que não é nossa. Uma guerra que foi imposta pelos imperialistas. Nossas autoridades estão trabalhando para recorrer a totalidade do território nacional para instaurar a paz, a equidade e a justiça social”, disse.

Mali faz parte da luta

O intelectual de Mali Mamadou Goita também acredita na agroecologia como instrumento para transformar a realidade do seu país. Economista e diretor executivo do Institute for Research and Promotion of Alternatives in Development (IRPAD), ele disse ao Brasil de Fato que implementar sistemas agroecológicos nos países do Sahel é enfrentar diretamente o interesse das companhias estrangeiras na região.

“No Sahel, hoje, há muita esperança. Nós estamos rompendo com esse modelo de produção, rompendo com as monoculturas que tanto dano causaram com seus fertilizantes químicos”, disse.

Mali
Mamadou Goita também acredita na agroecologia como instrumento para transformar a realidade do seu país | Crédito: Lucas Estanislau/ Brasil de Fato

O professor explica que no Mali, desde 2016, as leis de propriedade da terra estão orientadas para a soberania alimentar e isso foi impulsionado pelo governo do presidente Assimi Goïta, um militar que tomou o poder após um levante em 2021.

Segundo maior produtor de ouro da África e o quarto do mundo, o Mali é um país estritamente produtor e exportador de minérios. Goita explica que o setor é totalmente dominado por companhias estrangeiras que, muitas vezes, participam de grilagem de terras para desenvolver negócios de mineração.

O governo do general Goïta tenta criar uma estatal para competir no mercado com as privadas estrangeiras. “Mas não é fácil”, explica o professor. “Nós ainda trabalhamos com técnicas artesanais que danificam o meio ambiente e poluem os rios.Precisamos avançar a uma produção sustentável”, afirma.

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