O Censo Escolar 2025 trouxe dados importantes sobre a educação brasileira, mas também acendeu alertas. Enquanto as matrículas em creches na rede privada caíram 0,13%, a rede pública cresceu 1,5% — um avanço, mas ainda insuficiente diante de uma demanda de 7 milhões de crianças de 0 a 3 anos fora da escola. No ensino médio, a situação se inverte: as redes estaduais perderam quase meio milhão de alunos em um ano, com São Paulo liderando as quedas, enquanto as escolas particulares cresceram 2,46%.
“A cobertura da imprensa sobre o censo tem sido problemática porque não consegue compreender a diferença entre o censo, que determina a oferta de educação e os dados do IBGE que calcula a demanda”, denuncia Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da USP, no Conexão BdF e Rádio Brasil de Fato.
Sobre a creche, ele destaca: “A redução de matrículas nas escolas privadas não foi completamente incorporada pelo setor público. As redes públicas expandem matrículas, isso é fundamental, é uma grande notícia, mas ainda não na medida de superar todas as necessidades. A demanda por matrícula em creches é de 7 milhões de crianças de 0 a 3 anos que não estão matriculadas.”
O professor também elogia a qualidade da rede pública. “A melhor matrícula em creche é a matrícula pública. A rede direta da cidade de São Paulo é excelente, um trabalho que começou no governo Mário Covas e se expandiu de forma impressionante no governo Lula. Temos uma boa política de estabelecimentos públicos, mas é preciso expandir o número de vagas.”
Sobre a queda de quase 500 mil matrículas no ensino médio estadual, Cara aponta dois fatores principais. “Primeiro, há um envelhecimento gravíssimo e vertiginoso da população brasileira. Precisamos de força produtiva, e ela se dá por meio do trabalho humano. O envelhecimento da população significa menos jovens, e isso é preocupante em termos econômicos.”
“O Pé-de-Meia, em que pese ser uma política acertada de distribuição de renda, não dá conta de todas as necessidades de consumo dos jovens. Muitos acabam optando por ingressar precocemente de maneira muito precária no mercado de trabalho. O resultado é que, quando você ingressa de forma precária numa trajetória de subemprego, seu teto de renda ao longo da vida fica muito baixo”, explica o segundo fator.
Sobre o aumento das matrículas na rede particular, Cara é categórico que muitas famílias acreditam em uma mentira: que a escola particular que cabe no bolso da população com menos salário é melhor. “Não é. Escolas particulares que oferecem boa qualidade de educação são caríssimas – acima de R$ 2.500 em capitais, acima de R$ 1.500 no interior. Abaixo disso, em geral, as escolas não têm tanta qualidade.”
Por sua vez, ele defende o caminho oposto que é o melhor investimento da sociedade brasileira para garantir uma escola pública de qualidade. “O Centro Paula Souza, por exemplo, é uma rede excelente, assim como os institutos federais. Se essa fosse a referência de ensino no Brasil, nós estaríamos no topo do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). Essa é a educação pública que devemos lutar para ofertar para todos.”
Cara critica duramente a gestão Tarcísio de Freitas. “A cultura de seu governo é uma racionalidade mal economicamente. Calcula que a demanda do ensino noturno tem que justificar o custo. Se tiver algum custo, ele fecha a sala de aula.”
Ele lembra que o fechamento de classes noturnas afeta diretamente quem trabalha. “Se o sujeito não tem uma classe perto de casa, como é que ele vai acordar no outro dia às 6 da manhã? Se você não dá a possibilidade da pessoa ter acesso à renda e ter o ensino noturno, ela simplesmente não vai estudar.”
“A rede direta, a escola pública de qualidade, existe. Nós temos que lutar para que ela seja ofertada para todas as brasileiras e todos os brasileiros. É direito dos paulistas e de todos os brasileiros poderem estudar no momento em que quiserem estudar. E não é por bondade, é direito”, conclui.
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