Guerra da Ucrânia: apesar da continuidade das negociações, cenário é de impasse ‘sem concessões’

Publicada em

A guerra da Ucrânia completou a marca de quatro anos de conflito na última terça-feira, 24 de fevereiro, sem uma perspectiva clara de uma resolução de paz, apesar dos avanços recentes nos processos de negociação. Divergências políticas e territoriais continuam sendo obstáculos centrais no diálogo entre as partes.

Enquanto isso, Moscou, Kiev e Washington se preparam para uma nova rodada de negociações. Na última quinta-feira, dia 26, representantes da Rússia e da Ucrânia se reuniram com autoridades dos Estados Unidos, em Genebra, para discutir os próximos passos do diálogo. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, confirmou que há “maior preparo” para o próximo encontro com a Rússia após as negociações em Genebra.

“Conversei várias vezes hoje com Rustem Umerov, David Arakhamia (membros da delegação ucarniana) e representantes do presidente dos EUA, Steve Witkoff e Jared Kushner. Como resultado das reuniões de hoje, já existe uma maior preparação para o próximo formato trilateral. Muito provavelmente, a próxima reunião será nos Emirados Árabes Unidos, especificamente em Abu Dhabi. Esperamos que o formato seja definido no início de março”, afirmou.

Apesar da continuidade das negociações, a guerra da Ucrânia entra no quinto ano sem avanços concretos rumo a um acordo de paz. O distanciamento entre as partes ficou evidente no dia 24 de fevereiro, data que marcou o aniversário do início do conflito, quando a inteligência russa divulgou um relatório acusando França e Reino Unido de planejar o envio de armamentos nucleares a Kiev e de possíveis ataques a gasodutos russos no Mar Negro.

Segundo o serviço de inteligência russo, isso envolveria a transferência secreta de componentes, equipamentos e tecnologias europeias para a Ucrânia nessa área. Ao comentar o relatório, o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, classificou a possível transferência de armas nucleares para Kiev como uma violação flagrante do direito internacional. O presidente russo, Vladimir Putin, também comentou o relatório da inteligência russa:

“O inimigo não está hesitando em usar qualquer meio. Parece que já houve relatos na mídia sobre tentativas, ou melhor, intenções, de usar algum tipo de componente nuclear. Eles precisam entender como isso pode terminar. Temos recebido informações. A mídia pode tê-las recebido hoje – provavelmente já recebeu, embora eu não tenha tido a oportunidade de verificar – mas estão falando sobre a possibilidade de explosões em nossos sistemas de gás no Mar Negro, especificamente o Turkish Stream e o Blue Stream”, afirmou.

Ó de Donbass

Enquanto isso, por um lado, a Rússia segue com vantagem no campo de batalha, avançando de forma lenta, mas consistente. Por outro, a Ucrânia, sustentada pelo apoio financeiro e militar do Ocidente, permanece sob forte pressão, mas ainda consegue sustentar a linha de frente. Esse impasse caracteriza o que analistas chamam de “guerra de exaustão”, um cenário que, por enquanto, afasta qualquer perspectiva de concessões tanto de Kiev quanto de Moscou.

Em entrevista ao Brasil de Fatocientista político e diretor do Instituto Ucraniano de Política, Ruslan Bortnik, afirma que esta fase de “guerra por exaustão” ainda pode prolongar o conflito por bastante tempo.

“Infelizmente, apesar de muitas declarações, a guerra ainda não entrou em uma fase estável, em uma fase de estabilização ou congelamento do fronte. Vemos que no campo de batalha se mantém uma dinâmica que permite, por exemplo, que a Rússia espere que, após algum tempo, um ano, um ano e meio ou dois anos, consiga capturar toda a região de Donbass pela força. Por isso, não há necessidade de ela fazer concessões agora ou desistir de suas exigências em relação à Ucrânia”, disse.

A questão territorial é um dos principais pontos de divergência entre as partes. A Rússia exige que as Forças Armadas da Ucrânia se retirem plenamente dos territórios da região de Donbass onde ainda têm controle. Kiev rechaça essa alternativa, reivindicando a sua soberania territorial. Essa rigidez nas posições sustenta a lógica da guerra por exaustão: nenhuma das partes vê necessidade imediata de ceder, apostando que o desgaste prolongado ainda possa produzir vantagens no campo de batalha.

Desta forma, para o analista Ruslan Bortnik, o conflito se encontra em uma fase de manutenção do status quo. De acordo com ele, as negociações continuarão e haverá muitas tentativas de alcançar concessões, especialmente por parte dos Estados Unidos. No entanto, o pesquisador destaca que não vê “prontidão das partes em ceder em seus interesses fundamentais”.

“Não vejo disposição para compromissos estratégicos mútuos nem uma necessidade urgente disso. Nem a Ucrânia nem a Rússia têm essa urgência, pois ambos os países podem continuar lutando. Para os políticos, por enquanto, o cenário de paz é mais perigoso do que a continuação da guerra. Do ponto de vista das elites políticas, o partido do status quo está vencendo tanto na Ucrânia quanto na Rússia”, analisa.

À espera das eleições nos EUA

Outro fator que torna a guerra da Ucrânia difícil de definir a curto e a médio prazo é o fato de que o atual curso das negociações e do apoio a Kiev, por parte dos EUA, pode sofrer uma alteração significativa a partir dos resultados das eleições de meio mandato nos EUA.

De acordo com o cientista político Ruslan Bortnik, recentemente “a Europa assumiu o fardo do financiamento do apoio técnico-militar e político à Ucrânia, compensando a interrupção do apoio dos Estados Unidos”. No entanto, segundo ele, há uma percepção de espera das eleições estadunidenses por parte dos atores envolvidos para adotar passos políticos mais concretos em relação ao conflito ucraniano.

“A Europa dobrou seu apoio e sustenta a situação. A duração e a sistemática desse apoio são grandes questões, mas a impressão é de que todos aguardam o desenlace das eleições de meio de mandato americanas no outono deste ano. Somente após as eleições para o Congresso, que podem levar ao enfraquecimento do poder de Trump e dos republicanos, é que a estratégia de negociação e o comportamento em relação à guerra e à paz serão revisados”, completou.

Source link