Após dez meses de viagem numa travessia inédita pelo Ártico Siberiano, o navegador ucraniano naturalizado brasileiro Aleixo Belov e a tripulação a bordo do veleiro Fraternidade desembarcaram em Salvador (BA) na manhã deste sábado (28). Apesar da chuva, o grupo russo-brasileiro foi recebido de forma calorosa no cais do 2º Distrito Naval por centenas de pessoas e recebeu homenagens de autoridades, que destacaram a trajetória de Belov e o desafio da rota atravessada, uma das mais difíceis do mundo.
Realizada sob a bandeira do Brics, a expedição também teve caráter simbólico ao reforçar a importância da cooperação e integrar as celebrações dos 200 anos das relações diplomáticas entre Brasil e Rússia.
“Comandante Aleixo, este cais o recebe com gratidão, a Bahia o recebe com orgulho e o Brasil o recebe com respeito. Na sua partida, não sei se o senhor se lembra, eu mencionei que, para os marinheiros, partidas são sóbrias, chegadas são festivas. Então esta é a sua festa”, celebrou o Vice-Almirante Gustavo Calero Garriga Pires, comandante do 2º Distrito Naval.
Feito histórico
Sob liderança de Belov e do capitão russo Serguei Shcherbakov, além de uma tripulação de 18 pessoas, entre brasileiros e russos, o veleiro-escola Fraternidade iniciou a expedição em abril de 2025, também em Salvador. Ao longo do percurso, a embarcação passou por regiões próximas aos Açores, ao litoral da Inglaterra, norte da Noruega e pela costa da Rússia, até alcançar o Estreito de Bering.

Denominada Passagem Nordeste 2025, a jornada percorreu uma das rotas marítimas mais desafiadoras do mundo, tradicionalmente utilizada por grandes embarcações. Como aponta a Agência Marinha de Notícias, a navegação pelo Ártico é realizada sob condições adversas, sobretudo pela presença de gelo durante a maior parte do ano. Com a conclusão da viagem, o Fraternidade se tornou a primeira embarcação de bandeira brasileira, e também das Américas, a completar a Passagem Nordeste.
Ao portal Toda PalavraBelov reforçou que a expedição também cumpre o papel de fortalecer a relação entre Brasil e Rússia e a cooperação dos países no Brics.
“Nosso futuro agora depende, em grande parte, do Brics. É uma aliança muito forte entre vários países de grande relevância, incluindo Brasil e Rússia, que vêm desempenhando um papel fundamental no cenário mundial”, destacou.
Fruto das políticas públicas
Imigrante ucraniano, Aleixo Belov chegou à Bahia ainda criança, após sua família fugir da guerra. Para o engenheiro e escritor, o destino escolhido pelo pai foi fundamental para que ele se tornasse também navegador. “O fato dele ter vindo pra Bahia de Todos-os-Santos fez com que eu me apaixonasse pelo mar”, relembra.
No Brasil, se formou em Engenharia Civil na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (Ufba), virou mergulhador, velejador e criou uma empresa de engenharia portuária. Deu cinco voltas ao mundo a bordo de veleiros que ele mesmo construiu, percorrendo desde a Antártida até o Alaska, e registrou suas aventuras em diversos livros.

Naturalizado brasileiro, Belov destaca a acolhida do país e como os serviços públicos foram essenciais para ele conseguir mudar sua vida e de sua família.
“Eu fui tão bem recebido aqui. Cheguei como imigrante de guerra e progredi, claro, porque a sociedade permitiu que eu progredisse. Aqui eu estudei o primário de graça, o ginásio de graça, o científico de graça, a Universidade Federal da Bahia de graça. Tudo foi de graça. Eu não tinha dinheiro para ter plano de saúde. A saúde era de graça. Isso aqui é um país, rapaz”, destacou.
Como forma de retribuir o apoio que recebeu e compartilhar a experiência acumulada ao longo de mais de 80 anos de vida, Belov decidiu transformar sua embarcação num veleiro-escola e custear a viagem de toda tripulação.
Animado após a chegada, o navegador ressaltou a sua conexão com a Bahia e com o Brasil.
“Eu fui fazer o Mar da Sibéria com 82 anos. Essa energia foi a Bahia que me criou. Estou aqui muito feliz por estar de volta com todos vocês.”

