Enquanto Minas Gerais contabiliza ao menos 64 mortos e 5 desaparecidos após as chuvas que devastaram a Zona da Mata, o governo federal anunciou medidas emergenciais: repasse de R$ 1,43 milhão para municípios atingidos e liberação do saque do FGTS para moradores de Juiz de Fora, Matias Barbosa e Ubá. Mas, para especialistas, o problema vai muito além da resposta imediata.
“Estamos no meio de uma crise climática no Brasil e no mundo. 2024 foi o ano mais quente da história; 2023, o segundo, e 2025, o terceiro. As emissões de gases de efeito estufa continuam, não estão melhorando, mesmo com o Acordo de Paris”, avalia Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, no Conexão BdF e Rádio Brasil de Fato.
Ela explica que o problema não é a chuva em si, mas sua intensidade que está cada vez mais forte. “Chuva nessa época na Zona da Mata é esperada. O mundo está aquecendo, infelizmente, e não nos preparamos com medidas de adaptação no ritmo adequado. Sempre estamos nessa de responder às tragédias.”
A especialista critica duramente a redução dos investimentos em prevenção. “Ficou claro em Minas a questão da redução dos aportes orçamentários para gestão de acidentes envolvendo chuva. É inaceitável.”
Dados do Portal da Transparência acessados pela Revista Fórum mostram que os investimentos para prevenção de enchentes no estado sofreram uma queda de 95,6%. “É assustador”, resume Araújo.
Ela lembra que o governo de Minas até tem planos climáticos, mas isso não basta. “Não adianta fazer plano e não garantir meios de implementação. Precisamos de uma discussão aberta sobre a questão orçamentária para haver uma realocação de recursos que olhem a crise climática nas diferentes políticas públicas.”
Araújo defende medidas estruturais, além de prevenir com contenção de encostas, mas também alterar a forma de planejamento urbano. “Cidades com propensão a enchentes precisam conversar melhor com as águas. Normalmente, a água chega, escorre pelo concreto, procura um rio entubado no meio de uma avenida e aí enche.”
“As cidades têm que ser mais permeáveis, ter áreas verdes que consigam conter parte dessa água por mais tempo. Precisam ter taxa máxima de impermeabilização de terrenos, recuperar nascentes, fazer obras de engenharia para segurança de encostas. Tudo isso garantindo o direito das populações à moradia e o direito à cidade”, propõe.
A especialista destaca que as tragédias atingem a todos, mas afetam com mais força os mais pobres. “É a população mais carente que vai escorregar nas ladeiras, que vai ser literalmente alagada em um caso de cidade com palafita. Esse olhar também é de justiça climática: ter atenção para os direitos das populações mais vulneráveis.”
“As maiores lacunas, pelo menos no meu entendimento, estão no nível estadual. É como se os governos ficassem esperando a tragédia para o governo federal dar um jeito e mandar dinheiro. Isso é realidade, o governo federal tem dever de ajudar. Mas para planejar a cidade, temos que ter participação dos estados e muitas vezes dos municípios”, aponta.
Ela critica decisões locais que agravam os riscos. “Os municípios aprovam planos diretores em contradição com o que se espera em termos climáticos. Colocam edificações gigantes na beira do mar, que tem seu nível elevado. Reduzem as faixas de mata ciliar ao longo dos rios, autorizados por lei a fazer isso, mas não deveriam. Isso piora as consequências dos eventos extremos.”
“O cidadão tem que entender que está sendo afetado diretamente e exigir medidas concretas que coloquem a crise climática no centro das diferentes políticas públicas. Ela afeta tudo: a política de saúde, por exemplo. Na enchente de 2024 no Rio Grande do Sul, apareceram doenças do século 19, que os hospitais não estavam mais preparados para tratar”, destaca.
Ela conclui com um alerta que tem que ser entendido como transversal às diferentes políticas públicas. “Temos que exigir de cada um de nossos governantes não só planos, mas meios de implementação. O governo de Minas até tem planejamento climático, mas não adianta ter plano e não garantir recursos. Precisamos de uma discussão orçamentária séria sobre a crise climática.”
Para ouvir e assistir
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