Conflito dos EUA-Israel contra Irã é ‘guerra de hegemonia’ e pode reconfigurar geopolítica global

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Chega ao sétimo dia o conflito deflagrado pelo ataque conjunto dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, que resultou na morte do líder supremo aiatolá Ali Khamenei e de centenas de civis — incluindo 171 meninas em uma escola bombardeada em Teerã. Enquanto os bombardeios se intensificam também no sul do Líbano, a comunidade internacional assiste à escalada com preocupação. Analistas tentam compreender em que momento se encontra essa guerra e quais podem ser seus desdobramentos.

Para o professor Gustavo Menon, docente da Universidade Católica de Brasília (UCB) e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam-USP), o conflito precisa ser analisado à luz da disputa geopolítica mais ampla: a tentativa dos Estados Unidos de reafirmar sua hegemonia em um mundo cada vez mais multipolar.

Menon destaca não Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato, que a ofensiva representa uma aposta política de Donald Trump e Benjamin Netanyahu, ambos em ano eleitoral e com suas carreiras políticas em jogo. “Trata-se de atacar exatamente seus adversários políticos, chamando a atenção para o Irã, no sentido de projetar esse poderio bélico militar dos Estados Unidos em parceria com Israel para enfraquecer o regime iraniano”, analisa.

O professor ressalva, porém, que “não há qualquer indício de sucessão ou de transição mais estrutural por parte do regime iraniano”, mesmo com o enfraquecimento provocado pelas movimentações em Teerã e outras cidades do país persa.

Para Menon, o ataque precisa ser compreendido como uma resposta à movimentação de forças anti-imperialistas que vêm contestando o poderio estadunidense. “Nitidamente, os Estados Unidos apresentam esses sinais de fragilidade no controle da sua hegemonia no plano internacional”, afirma.

O professor situa o conflito na dinâmica de “crise de hegemonia” que marca a primeira metade do século 21, com debates sobre uma possível transição da hegemonia no campo das relações internacionais. “Os Estados Unidos tentam, por intermédio da força, por intermédio dessas ações unilaterais e consequentemente ilegais, bombardear exatamente esses adversários políticos, se aliando ao seu maior parceiro no Oriente Médio, que trata-se exatamente dessa política sionista encampada pelo governo de Israel.”

Fazendo um balanço dos primeiros sete dias de guerra, Menon afirma que “as respostas que serão dadas daqui por diante serão determinantes”. Ele aponta a incerteza como marca deste momento: “Não sabemos nessa era das incertezas qual será a duração desse conflito e se esse conflito deve se dilatar ou não nos próximos meses.”

O Irã, lembra o professor, detém capacidade bélica significativa e uma carta estratégica: o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do petróleo mundial. “Todo o Oriente Médio passa por esse cenário de instabilidade em razão fundamentalmente dessa política colonial, dessa política que Israel adota em diferentes países do entorno se comportando como esse estado agressor.”

Menon destaca ainda que o genocídio do povo palestino persiste, enquanto ataques atingem instalações sensíveis, como a escola em Teerã que vitimou mais de 160 mulheres e meninas. “Estamos diante dessa quadra de um cenário de bifurcamento de uma série de crises tanto para Israel bem como para o imperialismo estadunidense.”

China, Europa e a nova geopolítica global

O professor chama atenção para o papel da China nessa nova configuração geopolítica. “Sabemos que a China não quer a guerra, não quer a escalada desse conflito, já que estamos falando da verdadeira fábrica do mundo”, afirma, lembrando que o país asiático depende da importação de gás e petróleo do Irã.

“Vale destacar que o Irã é uma peça essencial nessas disputas geopolíticas da contemporaneidade, porque estamos falando praticamente da terceira maior reserva de petróleo do planeta”, completa Menon.

Sobre a Europa, o professor aponta que os países europeus, até então neutros ou críticos tanto às ações dos EUA e Israel quanto ao governo iraniano, enviaram embarcações, caças e armamentos para o Mediterrâneo. “Precisamos nos indagar como os países europeus vão se portar sabendo que a Europa está envolvida já em uma primeira frente que é a guerra na Eurásia envolvendo Rússia e Ucrânia. O custo de mais um confronto, principalmente para a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), é altíssimo.”

Menon alerta para as pressões inflacionárias que podem vir nas próximas semanas, especialmente no que diz respeito à questão petrolífera e energética. “Muitos países importam gás, principalmente o gás russo, e isso seria trágico para a União Europeia em termos de escalada do preço do barril de petróleo no mercado internacional.”

Aliança sino-russa e a capacidade de resistência do Irã

Questionado sobre a possibilidade de vitória iraniana no conflito, Menon responde: “Dependerá da capacidade de resistência do povo iraniano”. Ele lembra que os Estados Unidos agem “de modo ilegal, de forma arbitrária e violando não só a Carta das Nações Unidas, como uma série de princípios que regem o direito internacional”.

O professor destaca a importância da aliança sino-russa e de fóruns de cooperação Sul-Sul, como o Brics, para a resistência iraniana. “Há uma parceria, principalmente na área de segurança, na área de defesa entre Irã e Rússia, que pode ser determinante no sentido de envolver essa capacidade do Irã em resistir a esses ataques.”

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