Enquanto o governo Lula se prepara para um encontro com Donald Trump repleto de “cascas de banana” em ano eleitoral, o Brasil enfrenta uma possível ameaça à soberania: a possibilidade de organizações criminosas brasileiras serem classificadas como terroristas pelos Estados Unidos. Isso abriria precedente para intervenções militares em solo brasileiro e o avanço de bases estadunidenses em países vizinhos, como o Paraguai, na tríplice fronteira.
Luís Eduardo Fernandes, historiador e professor da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contextualiza a política externa de Trump dentro do que chama de “direção neofascista no sistema imperialista”. “Nesse caso específico da guerra às drogas e a possibilidade de intervenções diretas e indiretas dos Estados Unidos na América Latina, essa possibilidade não é nova, mas é potencializada no governo Trump, que potencializa uma série de legislações e doutrinas jurídicas e políticas extraterritoriais”, pontua no Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato.
O professor alerta para o conceito de “espaço vital” adotado pela administração Trump. “A América Latina, mais do que uma doutrina Monroe, é vista como um espaço vital, um território fundamental para o crescimento e garantia de hegemonia dos Estados Unidos. Isso é mais do que um precedente, já é uma intervenção indireta e direta nas soberanias nacionais, inclusive no Brasil.”
Fernandes destaca que, pela primeira vez, o presidente Lula afirmou que “o Brasil precisa se defender”, após um discurso inicial focado na paz e no combate à fome. “Essa fala está presente nas reuniões com a África do Sul e com a Índia, que é uma potência militar. É uma questão fundamental para debatermos a defesa militar face ao mundo cada vez mais conflituoso e ao imperialismo estadunidense cada vez mais agressivo.”
O professor aponta a necessidade de modernização da defesa brasileira, que passa pela superação da dependência tecnológica dos EUA e de outros países. “Cada vez mais os complexos militares industriais são também complexos tecnológicos datificados. Um dos desafios do Brasil é modernizar sua defesa, reforçando uma tendência de superar os processos de desnacionalização da nossa indústria de defesa.”
Fernandes aborda um ponto sensível: o alinhamento das Forças Armadas brasileiras com os Estados Unidos. “Isso se dá pela própria formação dos militares, pelas formas de treinamento. Esse alinhamento quase completo com os Estados Unidos se remete ao golpe de 1964, que teve como principal faceta o combate e os expurgos no interior das Forças Armadas da ala nacionalista e democrática.”
O professor defende a necessidade de participação social nas questões de defesa. “Praticamente todos os ministérios do governo Lula têm assessoramento com relação à participação social. A defesa é o único setor que não tem. A defesa ainda é vista com pouca penetração e participação social.”
Fernandes alerta para o avanço do cerco estadunidense na região. “Se a gente for olhar o mapa, nós estamos cada vez mais cercados de bases militares dos Estados Unidos.” A recente autorização do Paraguai para instalação de bases estadunidenses em seu território, inclusive na tríplice fronteira, é um exemplo preocupante.
Por outro lado, o professor vê possibilidades de resistência. “Nós temos uma possibilidade de um novo ciclo de resistência a esse neofascismo no continente, que se materializa com o México, com a Colômbia e com o Brasil.” Ele cita o exemplo colombiano, onde o governo de Gustavo Petro conseguiu aliar a pauta da “paz total” com medidas populares como reforma agrária e trabalhista.
“A Colômbia tem um governo que se propõe a realizar mobilizações em torno dessas pautas, com uma governança mais atuante, mais participativa, com todos os limites. É a primeira grande experiência de governo progressista por lá.”
Sobre as eleições brasileiras de 2026, Fernandes alerta para possíveis interferências externas. “Tivemos nesta semana a primeira forma indireta de pautar as nossas eleições: a questão de colocar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, abrindo brecha para ações militares dos Estados Unidos aqui no Brasil.”
O professor contextualiza essa ameaça dentro da estratégia mais ampla de Trump. “A América Latina para Trump é um espaço vital para defesa da hegemonia estadunidense. A defesa é que você tenha um continente totalmente alinhado a ser base material, base política, base biológica para os enfrentamentos que os Estados Unidos têm que fazer, principalmente contra a Rússia e contra a China.”
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