‘Na política não existe vazio de poder’: falta de articulação do Brasil abriu espaço para o Escudo das Américas de Trump

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Enquanto o governo Lula se prepara para um ano eleitoral desafiador, a América Latina assiste a um avanço coordenado da extrema direita, articulado a partir dos Estados Unidos sob o comando do presidente Donald Trump. O chamado “Escudo das Américas” — que reúne lideranças como Javier Milei, na Argentina, e o recém-empossado presidente do Chile, José Antonio Kast — representa não apenas um alinhamento ideológico, mas uma estratégia geopolítica para cercar os governos progressistas da região e fragilizar a soberania de países como Brasil, Colômbia, México e Uruguai.

Pela primeira vez, a justiça argentina concedeu status de refugiado a um dos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 — uma mudança de postura em relação ao governo anterior, que vinha extraditando foragidos. Para a analista internacional Amanda Harumy, a decisão não pode ser vista isoladamente.

“Parece que é fruto de uma decisão política, de uma manobra que os Estados Unidos vêm fazendo na região. Não tem como não relacionar com o Escudo das Américas, um encontro de Trump com lideranças de extrema direita para dar uma linha política na região”, afirma ao Conexão BdF e Rádio Brasil de Fato. “Eles se tornaram mais fortes, estão mais encorajados a trocar farpas com governos não alinhados aos Estados Unidos.”

A analista cita México, Brasil, Colômbia e Uruguai como os principais alvos dessa ofensiva. “Não podemos dizer que é apenas uma decisão da justiça argentina. Isso tem tudo a ver com uma política externa alinhada aos Estados Unidos e coordenada politicamente por eles.”

Harumy faz uma crítica contundente à ausência de uma estratégia brasileira mais robusta para a integração regional. “Na política não existe vazio de poder. Se nós, Brasil, não articulamos a região, não lideramos politicamente a América Latina, alguém vai. E o Trump está fazendo nada mais, nada menos do que algo que nós sempre reivindicamos: a integração da América Latina. Só que, infelizmente, não fomos nós.”

Ela lembra que a oportunidade mais próxima de uma articulação regional foi o Consenso de Brasília, em 2023, que reuniu todos os presidentes da América do Sul, incluindo Nicolás Maduro e líderes de direita que ainda reconheciam o papel do Brasil em aglutinar a região. “Hoje nós temos uma América Latina desintegrada, não articulada. A Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), por exemplo, não conseguiu ter nenhum posicionamento de consenso sobre a invasão da Venezuela.”

O resultado é que os Estados Unidos ganham força ideológica, política, financeira e militar. “Eles estão colocando a América Latina como um bloco político. Infelizmente, não fomos nós que fizemos isso.”

Chile: a derrota de Boric e a ascensão de Kast

A posse de José Antonio Kast na presidência do Chile, sucedendo a Gabriel Boric, é mais um capítulo desse avanço da extrema direita na região. Para Harumy, a derrota do projeto progressista chileno tem raízes em erros estratégicos e na polarização social.

“Boric tinha como principal missão aprovar uma nova Constituinte, fruto de um grande levante popular no Chile — dos movimentos mapuche, indígena, estudantil. Existia um acúmulo político para transformação da Constituição. Por erros que podem ser debatidos, eles não conseguiram aprovar uma nova Constituição. Isso já nos mostrava uma sociedade polarizada, dividida”, destaca.

Com o fracasso, permaneceu a Constituição de Pinochet, herdeira da ditadura militar e do projeto neoliberal. “E o Kast se fortalece nesse processo como nome político. Agora, nessa conjuntura da América Latina, ele representa ideologicamente o nome da extrema direita.”

A analista lembra que a esquerda chegou dividida ao segundo turno, com a candidata comunista Janette Harara, e que hoje “vamos ter que engolir Kast e a extrema direita chilena”.

Kast convidou tanto o presidente Lula quanto o senador Flávio Bolsonaro para sua posse — um gesto que, para Harumy, não é inocente. “Indica esse alinhamento ideológico existente no Kast, mas indica também algo que a gente tem que prestar atenção: a ida dele à reunião com Trump. Ele ainda não era presidente, mas representou ali o Chile, já colocando o país dentro desse bloco ideológico de extrema direita.”

Ela alerta para os riscos em ano eleitoral no Brasil. “Nós não temos dúvida que 2026 vai ser um ano disputado com essa extrema direita bolsonarista. Esse convite é um erro diplomático, mas uma sinalização política que nós precisamos estar muito atentos.”

A relação com a Colômbia e ameaça da designação terrorista

Em meio a esse cenário adverso, a parceria com a Colômbia de Gustavo Petro se torna ainda mais estratégica. Os dois presidentes devem se encontrar na fronteira, com a presença da presidenta interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. A conversa ocorre em um momento em que Trump ameaça classificar organizações criminosas brasileiras como “terroristas” — o mesmo pretexto usado para justificar intervenções em outros países.

Harumy destaca dois acertos na postura de Petro diante das pressões dos EUA. “Um, essa dinâmica de radicalizar e trazer o povo junto, a mobilização para mostrar que não é o Petro que vai trazer as transformações para Colômbia, mas sim os colombianos organizados. Isso está garantindo um grupo político sólido ao Pacto Histórico.”

“Outro é enfrentar ideologicamente os Estados Unidos. Nós precisamos dizer que esses ataques são imperialismo, que os grandes narcotraficantes do mundo estão nos Estados Unidos, como o próprio Petro foi a Nova York e afirmou”, explica.

Sobre a possível classificação de grupos criminosos brasileiros como organizações terroristas pelos EUA, Harumy é direta: “A intenção dos Estados Unidos é poder intervir na América Latina sem autorização do Congresso. Eles sequestraram o presidente Maduro a partir da justificativa de que ele era apenas um narcotraficante e não um presidente de um país. Por isso não precisaram aprovar o bombardeio da Venezuela no Congresso.”

Ela alerta que isso daria uma dinâmica muito mais forte para os EUA intervirem na realidade política do Brasil. “É por isso que a gente precisa defender nossa soberania.”

No entanto, a analista faz um alerta importante: “Em relação ao problema chamado narcotráfico, a gente não pode cometer o erro de negar que ele existe. Pelo contrário, o Brasil deveria ser o promotor de uma plataforma política de combate ao narcotráfico junto com México e outros países verdadeiramente preocupados com a questão criminosa nas fronteiras. Precisamos de um projeto político latino-americano de combate ao tráfico.”

Ela adverte que a extrema direita usará o tema nas eleições de 2026. “Eles vão dizer: ‘Vocês não resolvem o problema de segurança pública, nós precisamos da ajuda dos Estados Unidos para resolver isso’.”

Para Harumy, o cenário exige que o Brasil abandone a pretensa neutralidade e assuma um posicionamento claro. “Hoje nós estamos perante um mundo que quer posicionamentos e o Brasil vai precisar escolher um posicionamento.”

A tarefa urgente é reconstruir a integração regional. “Nós precisamos urgentemente contrapor o projeto político da extrema direita com algo mais estruturado. Seja uma reunião, sejam movimentos diplomáticos. O Brasil precisa dialogar mais com os países que ainda têm alinhamento político — Venezuela, Cuba, Colômbia, México e Uruguai — e tentar construir uma estratégia e um bloco para essa disputa.”

A analista conclui com uma reflexão sobre a ausência de liderança brasileira. “Brasil sempre reivindicou a vocação de liderar a América Latina perante o mundo. Nós nos esforçamos muito em consolidar uma agenda multilateral forte — G20, Brics — mas esquecemos de uma tarefa de casa: organizar a América Latina desde uma perspectiva de soberania e autonomia política. Esse vazio nos levou a uma margem de intervenção dos Estados Unidos muito potente. E nós precisamos reagir.”

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