Espaço Cultural Sankofa abre as portas para valorizar a memória, ancestralidade e cultura afro-brasileira

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Um lugar livre, sem preconceitos de espécie alguma. Ali não há e não entra quem tem alguma espécie de viés negativo em questões de gênero, raça e maneira de pensar a vida. É assim que os sócios e empresários Eduardo Alves, o Nego Edu, 41 anos, e Anderson Soares, 36, pensam para construir a imagem do Espaço Cultural Sankofa na rua João Alfredo, 503, na Cidade Baixa, uma área de Porto Alegre que não permite que se viva em baixo astral, tantas são as opções para relaxar, conversar, conviver, compartilhar.

Edu e Anderson se consideram irmãos, tal a afinidade e a camaradagem entre eles, a vontade de empreender e a determinação em fazer as coisas darem certo. Eles consultaram os vários espaços Sankofas existentes no Brasil, e são muitos, para agora abrir o deles. Nenhuma ligação social e nem econômica existe entre estas casas da diversidade e do convívio. Só o ideal desta palavra originária de Gana*, África Ocidental, da cultura Akan. O pássaro Sankofa é um símbolo representado por uma ave com a cabeça voltada para trás, pés para frente e, às vezes, segurando um ovo no bico. Significa “voltar e pegar”, representando a busca pela sabedoria ancestral e a importância de olhar para o passado para construir um futuro melhor.

No endereço do seu espaço, os dois vão ajeitando as coisas. Um lugar rústico, simples, mas que, aos poucos, vai ganhando ares de mais um ponto especial da Cidade Baixa. Já funciona parcialmente em vários tipos de eventos – feiras, música ao vivo, oficinas, encontros entre amigos. “Estamos sempre buscando parcerias e recursos de leis da cultura para fortalecermos nosso novo sonho”, diz Edu, que já peregrinou por vários trabalhos noturnos no bairro e agora começa a empreender com o amigo Anderson.

O espaço é destinado para pessoas 30+, LGTBQI+, comunidade negra e a gurizada que estiver na paz – Crédito: Rafa Dotti/Brasil de Fato

O local funciona a partir das 20h e vai até o amanhecer, ou um pouco antes, dependendo dos regramentos municipais. Sempre de quartas aos domingos. “Não incomodamos ninguém, visitamos os vizinhos e mostramos a nossa proposta e pedimos que reclamem qualquer barulho direto conosco. Fizemos amizade e queremos paz com os condomínios de moradores da região e com os companheiros de outros espaços. Nossas parcerias são ótimas, faltou cerveja aqui, busca ali no vizinho, todo mundo sai ganhando e criamos vínculos, não de negócios, mas de humanidade, solidariedade e amizade”, reforçam Edu e Anderson.

Diversidade

O espaço é destinado para pessoas 30+, LGTBQI+, comunidade negra e a gurizada que estiver na paz. “Oferecemos segurança e respeito a todos, aqui a liberdade é regra, somos um lugar 100% livre de preconceitos, focado no acolhimento e na diversidade. Aqui já estamos dando voz e vez para quem quer cantar, se divertir, curtir as suas amizades e apresentar a sua arte”, garante Edu. “Quarta Virou Baile” e “Roda de Samba das Mulheres, Samba das Três Graças” são alguns dos eventos que já aconteceram e que podem virar rotina.

Há um palco na área, um espaço mais intimista no segundo andar e uma churrasqueira nos fundos para, eventualmente, alguém se programar e querer fazer um assado. “Tudo é possível, basta conversar”, reforça Edu. Na entrada estão o espaço do bar, mesas para o público e o palco. “Por enquanto, só bebidas, um drinque especial criado pelo Anderson é o xodó da casa e já bastante requisitado pelas/pelos visitantes”, se vangloria. Em breve oferecerá petiscos originais. No total, o Sankofa pode receber até 250 pessoas, garantem os donos.

Uma churrasqueira aos fundos para, eventualmente, alguém programar e querer fazer um assado – Crédito: Rafa Dotti/Brasil de Fato

Da porta para fora, os proprietários também agem e formam parcerias e solidariedade. Por exemplo, garis que passam de madrugada pela rua para recolher o lixo da região recebem água. “Foi difícil, o chefe dos garis queria complicar, achou que queríamos embebedar o pessoal. Nada disso. É só água que oferecemos de bom grado. Ainda mais nas noites calorentas que têm feito em Porto Alegre. No fim deu tudo certo. Outra ‘amizade’ que fizemos foi com catadores de lixo reciclável. Um casal que dorme na rua, aqui perto, recebe nosso carinho e atenção. Todo o lixo reciclável do Sankofa vai para eles”, conta Edu.

Uma pioneira parceria está em andamento, ainda na fase de conversações, é tentar fechar a João Alfredo em uma ou duas quadras, na zona dos bares, em alguns dias especiais, para proporcionar um trânsito de pessoas bem tranquilo e mais animado, sem movimento de carros. “Isso vai exigir conversa, afinal tem muita autoridade envolvida – prefeitura, EPTC, Brigada Militar e assim por diante”.

Como se vê, o Sankofa, que está na fase de open house (abertura da casa em conta contas, como diz Edu) e que, breve, terá programação ativa permanentemente, também pensa em atrair pessoas conhecidas da cidade. Por exemplo, o jogador Amuzu, já bem conhecido da torcida do Grêmio, e os novatos Benjamin Arhin (19 anos) e Denis Marfo (20 anos), do Inter. Em comum, todos são de Gana e andam pela cidade. “Estamos correndo atrás de recursos e fortalecendo nossa política de diversidade, humanidade e solidariedade. Tenho certeza que vamos dar certo”, garantem Edu e Anderson.

*Gana é uma nação situada no Golfo da Guiné, na África Ocidental, conhecida pela variada vida selvagem, por seus fortes antigos e pelas praias isoladas, como Busua. As cidades costeiras de Elmina e Cape Coast têm posubans (santuários nativos), prédios coloniais e castelos transformados em museus que foram palco do comércio de escravos. O país foi fundado em 1957, tem 35 milhões de habitantes e a capital é Acra. Gana foi colonizada pelos ingleses e a língua oficial é o inglês, além de vários outros idiomas nativos.

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