Em Maricá, município situado na região metropolitana do Rio de Janeiro, com a instalação de uma fábrica de tratores de pequeno porte e a criação de um Parque Tecnológico, o investimento em ciência e tecnologia passa a ser uma ferramenta de desenvolvimento regional e soberania alimentar. Nesta entrevista, o presidente da Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar), Celso Pansera, conta, em entrevista ao Brasil de Fatocomo o investimento nessa área pode transformar a produtividade no campo e a qualidade de vida na cidade.
Pansera fala também sobre os programas relacionados à produção agroecológica e geração de renda na cidade, impulsionados durante sua gestão no Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM). Entre os exemplos estão o beneficiamento da jaca pelo Açougue Vegano e a produção de farinhas funcionais, que geram renda extra para as famílias e garantem alimentos saudáveis nas escolas e hospitais.
Sua proposta agora é garantir um programa semelhante ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) na gestão municipal que garanta as compras públicas dos pequenos produtores para ampliar a produção dessas fábricas de alimentos. Ao assumir o papel de principal comprador dessa produção e investir em energia solar para garantir a sustentabilidade da cidade, a gestão pública busca construir um futuro pós-petróleo que respeite o meio ambiente e as necessidades da população.
Brasil de Fato – Em 6 de março foi assinado o contrato da instalação da fábrica chinesa de tratores e equipamentos destinados à agricultura familiar com a Prefeitura de Maricá em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Qual é o impacto da instalação da fábrica aqui?
Celso Pansera – Então, a importância é a de que nós estamos querendo industrializar a cidade. A cidade hoje é muito focada no pré-sal, no trabalho offshore (exploração de petróleo em alto mar) e turismo de um dia. Agora a ideia é industrializar o município e a fábrica vem nesse contexto. Estamos criando o nosso distrito industrial e essa fábrica com certeza é a nossa prioridade em um trabalho casado com o do Parque Tecnológico, que será inaugurado em maio.
Um dos projetos que será instalado já de início será o da fábrica de equipamentos agrícolas, pois já se está estudando adaptações mais profundas da tecnologia chinesa à nossa realidade, às nossas culturas, à nossa terra, regimes de sol e chuva. Será depois desse trabalho que começará o processo de nacionalização dos equipamentos.
Existe alguma articulação dentro do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para que haja uma expansão de crédito na compra de máquinas de menor porte destinadas à agricultura familiar?
Quando a fábrica se instalar aqui, com certeza nós teremos setores voltados para isso, para conversar com o governo, conversar com os financiadores para que o Pronaf crie facilidades. Porque você não vai ter a garantia dos agricultores para comprarem equipamentos como são exigidas hoje em geral da agroindústria.
Então com certeza os bancos vão ter que adaptar um pouquinho o sistema de financiamento deles a essa nova indústria. E a realidade vai se impor. E os bancos terão que, de uma forma ou de outra, resolver essa questão.
Quando eu estive na presidência da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), eu já comecei esse processo nacionalmente. A primeira vez que a Finep entrou para financiar a inovação na agricultura familiar foi durante a minha gestão (2023-2025). Nós lançamos três editais na época e agora foram lançados novos editais.
E aqui é uma sequência desse trabalho. Queremos apostar na agricultura familiar, que concentra 70% das propriedades agrícolas, em que o baixo nível de desenvolvimento tecnológico no Brasil é gritante. E atrapalha o crescimento da produção, a produtividade do solo e a fixação dos jovens na roça.
Queremos inserir o Parque Tecnológico de Maricá nesse contexto, para servir não apenas como um reprodutor, mas ser um produtor de conhecimento na área, é bastante importante.
O senhor pode falar um pouco dos desafios que encontrou na Finep na criação de programas para o fortalecimento da agricultura familiar, uma vez que os programas de financiamento e de inovação no Brasil são geralmente voltados para os grandes produtores?
Na região sul você tem uma realidade um pouco diferente, onde o sistema cooperativo é forte, então há mais mecanização. Mas centro-oeste, norte e nordeste, principalmente, que concentra o maior número de famílias no campo, a mecanização é praticamente zero.
Então isso é uma mudança de cultura dos órgãos de fomento à pesquisa no Brasil, que nunca olharam para isso como um fazer de ciência, um fazer de inovação necessário para que não são só as grandes indústrias possam produzir com qualidade. Até porque é o contrário, o pequeno agricultor produz com maior diversidade e ele distribui melhor a riqueza quando ele produz do que o agronegócio, que concentra tanto a riqueza. Então essa é uma realidade.
A segunda realidade é que de fato o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), o Banco do Brasil, esses bancos públicos que financiam a produção, não estão acostumados a fazer para o pequeno agricultor. São números muito pequenos, dá muito trabalho, tem que receber na agência, explicar como funciona. Então não tem tempo para isso.
E isso é uma mudança que tem que ser feita no Brasil. O BNDES está fazendo um esforço perceptível nisso. A Finep começou a entrar nesse negócio também, que nunca tinha feito. E eu acho que é um caminho sem volta, porque é uma necessidade do país.
Nesse sentido, qual é o papel da agroecologia? Quais os principais projetos nesse âmbito?
Existem alguns projetos, especialmente do Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM), chamado Programa de Alimentação Saudável. A ideia é a partir da oferta de alimentos saudáveis para a rede municipal de ensino, para a rede municipal de saúde e para o restaurante popular, a gente construir uma base de agricultura familiar, de agroecologia sólida, que permita que um grupo de pessoas, de famílias, façam a complementação de renda a partir da produção. E isso foi levantado pelo projeto Horta em Casa, um projeto que eu criei no ICTIM, quando estava lá (2019-2023).
Há também a fábrica de farinhas, que recebe a produção de aipim e feijão guandu, o feijão verde da região. Um quarto dele é proteína e é muito bom, saborosíssimo. E hoje em dia se faz biscoito de guando, panquecas, nhoque. Agora estamos vendo se a Prefeitura contrata para a rede municipal de saúde e a educação as farinhas funcionais para as crianças.
Há ainda o açougue vegano, que industrializa a jaca, também está indo muito bem e está aqui na cidade. E tem a Tomates do Brasil, que é uma produção de tomate orgânico em estufas, que também já está funcionando. Então, tudo isso são projetos que já estão maduros do ponto de vista do desenvolvimento, da tecnologia, que agora nós vamos incentivar as empresas a expandirem o seu tamanho para produzir em uma escala maior.
Todos esses projetos funcionam articulados a pequenas propriedades e famílias que querem fazer complementação de renda a partir da tecnologia. Ou seja, ampliar a produção, beneficiar, enlatar, produzir e expandir o processo de vendas. E, com isso, gerar empregos e garantir solidez para a cadeia de agroecologia que nós temos.
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Esses incentivos são feitos via pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) do governo federal ou vocês têm programas próprios?
Nós estamos criando uma lei própria da cidade. Criamos uma lei própria da cidade para facilitar. Por quê? Porque o município consome muito. Ele tem hospitais, ele tem universidade popular, ele tem as escolas. O principal consumidor de alimentos da cidade é o município. Se o principal consumidor, o principal cliente não for cliente, ele não desenvolve o setor.
Então, o município tem uma tarefa que é ser o cliente sólido para que consiga desenvolver o ecossistema. E aí você, consumindo abóbora, banana, aipim, feijão guandu, peixe, você permite que na ponta as pessoas produzam, sabendo que vai ter depois a saída para a produção. E como você não tem aqui muitas famílias vivendo só agricultura, eu sempre costumo falar que é uma complementação de renda.
Mas a lei ainda não existe. Então é a lei que amplia o poder do Horta em Casa. Que cria facilidades para que o Poder Público Municipal adquira produtos alimentares produzidos na fronteira da cidade, nos limites da cidade. O Horta em Casa foi, na verdade, um mapeamento e já identificamos todo o potencial.
Com uma lei instituída, a pessoa que quer produzir tomate, ou shitake, ou guando, ou aipim, sabe que vai poder produzir. Porque quando tiver a produção feita, tem quem compre. Não vai apodrecer ou ter que distribuir de graça para as pessoas.
Todos os anos algumas toneladas de jaca apodrecem. Um pé de jaca produz 300 a 500 quilos de jaca por ano. Isso dá uma renda para uma família de R$ 1.500 ou R$ 2.000 por ano. Uma árvore, um pé de jaca. Não custa nada. É só você cuidar, cortar na época correta, chamar a empresa e a empresa vai comprar. Que é o açougue vegano. Então é um metabolismo que se retroalimenta quando a gente garante a compra e o escoamento.
Agora, voltando ao Parque Tecnológico como um todo. Você poderia falar de outras parcerias que o Parque tem firmado? E destacar algumas delas?
O parque tecnológico envolve três eixos. Público, que é o município nesse caso. Privado, que são as empresas que estão chegando. E academia, que é quem produz ciência e inovação. Então a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) vai se instalar. Do lado do parque já tem o Instituto Federal Fluminense.
E estamos negociando também com a UFRJ a instalação de cursos de pós-graduação na área de engenharia, além dos cursos de graduação na área de saúde. Porque o foco de saúde vai ser um dos focos grandes dentro do parque.
Dentro dessa perspectiva de uma Maricá pós-petróleo, vocês têm enfatizado o foco no desenvolvimento sustentável, até com instalações de parques de energia solar. Quais são os projetos que envolvem essa sustentabilidade?
Então nós já temos três usinas de energia solar já instaladas, com capacidade para produzir em torno de três megawatts, que estão sendo agora concluídas e ligando na rede. Tem mais a ver com a burocracia da distribuidora aqui da região, que totalmente foi tarefa nossa.
E estamos licitando uma grande usina para 20 megawatts. Com isso a gente vai produzir toda a energia consumida pela prefeitura. Ou seja, vamos zerar o carbono do ponto de vista da produção de energia da prefeitura em 24 meses, até o final do mandato.
Nós tivemos problema de apagão no verão, que tem a ver exatamente com a infraestrutura da rede elétrica ruim e com falta de energia. Tomar todas essas duas frentes junto com a empresa que presta distribuição de energia na área para resolver é uma delas e outra é gerar energia. Até porque a cidade vai expandir muito o consumo com o Parque Tecnológico, com o distrito industrial, com a área do turismo.
Então nós temos que preparar a cidade para isso. Então vamos fazer a nossa parte. Aquilo que nós estamos consumindo com o poder público municipal, nós vamos gerar e colocar na rede de distribuição.

