Nos últimos meses, a trajetória de O Agente Secreto pela temporada de premiações de Hollywood trouxe olhares e um prestígio global inédito para o cinema realizado em Pernambuco. O feito parte da capacidade criativa do diretor Kleber Mendonça Filho, mas também da estrada pavimentada por décadas de maturação de políticas públicas, fruto de muita luta do setor, criando de um ecossistema que envolve possibilidades de produção e exibição que tornam Pernambuco um polo de destaques no panorama nordestino e nacional.
Mas e daqui para frente, o que é necessário para a sobrevivência e a expansão da produção cinematográfica pernambucana? Produtores e especialistas apontam que os caminhos passam por aprimoramentos e atualizações nos mecanismos já consolidados de fomento, abertura para outros mecanismos de captação de recursos e a solidificação do mercado, o estímulo à descentralização da produção e a proatividade na formação de público e na preservação da memória audiovisual.
No cenário das políticas públicas de fomento à cadeia audiovisual, o Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), que desde 2007 conta com uma edição própria para o setor do audiovisual, vem sendo uma ferramenta central. Para Mannu Costa, realizadora cultural e professora do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Pernambuco, o fundo é um destaque nas políticas de fomento desenvolvidas no Nordeste, pioneiro em questões como separação das demais linguagens artísticas e na implementação de indutores e cotas para gênero, raça e distribuição regional.
“A participação da sociedade civil foi um ponto fundamental para a existência da política, desde sua gênese, até sua permanência nos dias atuais. O fomento, que inspirou outras políticas regionais no país, foi em grande parte responsável pelo processo de estruturação da cadeia local”, destaca Mannu Costa sobre o desenvolvimento do fundo.
Contudo, ela aponta que, por mais que ainda se trate de uma ferramenta central na política pública do estado, o Funcultura ainda enfrenta desafios. Os valores praticados hoje estão, na avaliação de Costa, desfasados. O último edital, lançado em janeiro, totaliza R$ 11 milhões em recursos, distribuídos entre 14 categorias de produção, distribuição, formação, pesquisa e preservação. Seu aporte já chegou a R$ 20 milhões, quando contava também com recursos federais do Fundo Setorial do Audiovisual.
A Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) afirma que o valor mínimo previsto para o Funcultura é de R$ 32 milhões, sendo R$ 9,28 milhões para o edital específico do setor audiovisual. A Fundarpe destaca que em 2025 houve um aporte adicional de R$ 7 milhões no valor global, garantindo os R$ 11,3 milhões atuais. Com o incremento, várias linhas passaram por reajustes, como a de longa-metragem, cujo teto dos projetos passou de R$ 700 mil para R$ 1 milhão.

Outro ponto trazido pela professora é o enfraquecimento do processo seletivo para a aprovação de projetos. Ela pontua recuos na chamada pública, qualificação e fluxo de trabalho dos pareceristas, responsáveis pelas análises dos projetos submetidos ao edital. “Antes havia uma especificidade dos pareceristas, pessoas com reconhecida atuação no segmento do audiovisual, além de um processo com fluxos de tempo adequados e espaços para debates e trocas de impressões entre os profissionais”, relembra a professora, avaliando que o processo não traz garantias importantes para uma seleção justa.
Em nota, a Fundarpe diz que a seleção de pareceristas “segue critérios técnicos de formação acadêmica, experiência profissional na área cultural escolhida, atuação prévia em análise de projetos e experiência em gestão de políticas culturais”. A instituição ainda aponta que o julgamento dos pareceristas são acompanhados pela Comissão Deliberativa do Funcultura (colegiado tripartite com representantes da sociedade civil e poder público), a Coordenadoria de Audiovisual da Secretaria de Cultura e equipe técnica da Unidade de Julgamento e Capacitação.
Para além do Funcultura, outros editais de fomento que se agregam no ecossistema do cinema pernambucano: o SIC, da Prefeitura do Recife; editais emergenciais como Lei Aldir Blanc e Lei Paulo Gustavo; e o vindouro edital federal de Arranjos Regionais, lançado oficialmente na última terça-feira (24), pela ministra Margareth Menezes, no Cinema São Luiz. A professora aponta que as gestões também precisam construir outros caminhos para a solidificação do mercado audiovisual.
“Quando falo da insuficiência, refiro-me também à necessidade do Estado atuar em outras frentes, como na captação de negócios para os agentes do setor, fomentar a estruturação das empresas locais, identificar lacunas e áreas de sombra na cadeia local e atuar na promoção dos negócios regionais, posto que há certa maturidade no mercado pernambucano”, diz Mannu.

É um trabalho que vem sendo desenvolvido globalmente pelas chamadas film comissions, com experiências bem implementadas em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Em Pernambuco, a capital conta com a Recife Film Comission, criada em abril de 2025 e vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura do Recife. De acordo com a assessoria, o órgão tem atuado na centralização dos processos de autorização de filmagem na cidade, articulada com outros órgãos municipais; na formação, com workshop; no apoio à distribuição; além de iniciativas transversais de turismo e cultura.
No âmbito estadual, no mesmo dia em que a Recife Film Comission foi anunciada, a Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Adepe) e a Secretaria de Cultura do Estado (Secult-PE) divulgaram a criação de um grupo de trabalho dentro da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Audiovisual, na Adepe, para instituir a Pernambuco Film Comission. A implementação ainda não foi realizada. Em nota, a Adepe afirma estar realizando escutas junto ao setor e em fase de contratação da consultoria técnica para a implementar a comissão, mas sem datas previstas.
Cinema para todos os pernambucanos
Com a solidificação e maturação das políticas públicas, a cadeia produtiva do audiovisual passa a se fortalecer, nos últimos anos, também para além da Região Metropolitana do Recife. Produtores do interior têm a acessado recursos e criado uma rede de profissionais, envolvendo realizadores, técnicos, formadores e exibidores. É uma cena que floresce a partir de trocas e compartilhamento dos desafios que a produção desses territórios enfrenta.
Hoje, a principal articulação desses trabalhadores é realizada por meio da Rede Interiorana de Produtores, Técnicos e Artistas de Pernambuco, a Ripa, articulando mais de 400 profissionais na luta pela descentralização dos recursos e das produções. Djaelton Quirino é produtor cultural e trabalha com audiovisual em Arcoverde, no Sertão do estado, desde 2013. Ele hoje é um dos gestores da Ripa.
Quirino é testemunha da transformação das últimas décadas na cena interiorana, fruto de luta por descentralização de recursos e políticas públicas, possibilitando a formação e atuação de profissionais. “As produções continuam acontecendo e escalando em qualidade técnica e tamanho. Temos longas filmados no interior e com equipes inteiras do interior, o que era impensável há cinco anos atrás”, destaca.

Com o fortalecimento da rede, logo os produtores do interior identificam os principais desafios e problemáticas para a continuidade do desenvolvimento na região. Quirino enxerga uma grande lacuna no processo de formação de profissionais, com uma baixa oferta de cursos profissionalizantes na área. Os que conseguem se capacitar, enfrentam problemas em acessar recursos para viabilizar projetos ou encontrar uma demanda sustentável para seus serviços, além de enfrentarem preconceitos regionais.
“Acontece constantemente de filmarem aqui no interior com equipes inteiras da Região Metropolitana, sobrando para os profissionais da região uma figuração ou uma produção de local, muitas vezes não remuneradas e sem aparecer nos créditos. Às vezes, um técnico se especializa em captação de som em Bodocó, mas convive com um baixo número de produções em sua região ou, quando vem uma de fora, ele não é convidado. É um grande desestímulo”, exemplifica Djaelton.
É diante desse cenário que a Ripa vem se articulando para fiscalizar e cobrar o poder público em relação a democratização e descentralização dos recursos. Celebram algumas conquistas, como o patamar próximo de 50% de projetos aprovados no Funcultura vindos do interior, mas logo apontam as disparidades ao observarem que a soma dos valores desses projetos não chega ao de dois longas aprovados na RMR.
“Quando se fala ‘o cinema pernambucano’ é o cinema feito por Cláudio Assis, por Kleber Mendonça, por Lírio (Ferreira). E claro que é, mas não só. Porque são cinemas pernambucanos feitos majoritariamente na Metropolitana. Como a gente consegue estender esse lençol e entender as produções e as realidades das identidades culturais regionais e locais? Aí sim estaremos falando de Pernambuco”, conclui Djaelton.
Formando públicos e construindo histórias
A continuidade da força do cinema pernambucano (e do brasileiro) também passa pela última ponta do trabalho: a exibição. A formação de público é um caráter essencial da estruturação de uma sustentável cadeia produtiva de cinema. Não se trata só de encher salas de cinema, mas de consolidar uma cultura de público cada vez mais entusiasta das plurais formas de expressão artística que a produção nacional e pernambucana concebe ano após ano.
Essa sensibilização passa por uma devida apropriação da história – ou das histórias – do cinema nacional. Neste sentido, as salas públicas de exibição devem ser ponta de lança no processo de formação de público, intrinsecamente ligado à valorização da memória do cinema brasileiro.
O curador e pesquisador Luis Fernando Moura, com passagens pela programação de cinemas como o São Luiz, Teatro do Parque e festivais como o de Brasília e o Janela Internacional de Cinema do Recife, onde foi coordenador, lançou neste mês o ensaio No Recife, os Poderes Executivos perdem a oportunidade de compreender o que é preservação e difusão de repertório em Cinema e Audiovisual – e de realizar, publicado na revista especializada Camarescura.

No texto, Moura traça um panorama da atuação das salas públicas – São Luiz pelo Governo do Estado, Teatro do Parque pela Prefeitura do Recife, as três salas da Fundação Joaquim Nabuco e o Cinema da UFPE – na luta pela memória audiovisual.
No texto, Moura aponta que as programações destas salas enfrentam lacunas na circulação de filmes de repertório, se dedicando, em diferentes graus, a exibição de filmes ditos “clássicos” ou “históricos” apenas por meio da atuação de cineclubes e festivais, ou em parcerias com instituições de fora, como embaixadas e cinematecas. Um cenário em que as programações perdem a oportunidade de ser mais agentes na própria construção de uma história do cinema brasileiro e pernambucano por meio do nosso olhar local.
“Cada cidade tem uma forma e uma história distinta de formação de público. Talvez seja o caso de questionar como estamos formando público em um momento como esse, que o cinema brasileiro ganha magnitude em várias escalas. Como os circuitos exibidores estão se habilitando para abordar esse calor generalizado e transformar isso em termo de trabalho de base”, afirma Luis Fernando, em entrevista ao Brasil de Fato. Em sua avaliação, há uma grande oportunidade de momento para se fazer cinema brasileiro e sua história ficar cada vez menos restrita a pequenos grupos de cinefilia.
É nesse panorama que o trabalho das salas públicas devem ser linha de frente. Atualmente, funcionam regularmente durante a semana as salas da Fundação Joaquim Nabuco (Derby, Porto e Museu) e o Cinema da UFPE. O Cinema São Luiz conta com programação aos fins de semana enquanto finaliza as obras iniciadas em 2023, com término previsto inicialmente para março de 2026, mas agora com nova previsão para maio ou junho. Já o Cineteatro do Parque não conta com programação regular de cinema, apenas exibições esporádicas, apresentando ainda problemas em seu equipamento de projeção.
“É bom notar que esses cinemas possuem desafios estruturais para além da programação, desafios próprios da máquina pública. Mas talvez o Recife esteja interagindo pouco com todo o ecossistema que muito favorece a descoberta de histórias. Me parece que se criou um certo conforto entre exibidores ou cinemas. Temos pelo Brasil salas que têm uma prática de prospecção ativa, que se interessaram em desenhar suas próprias mostras a partir de um interesse local e comunitário”, afirma Luis Fernando.
O curador aponta que as programações de filmes de repertório a partir da experiência de cineclubes, festivais e parcerias com instituições de fora são legítimas, com o cineclubismo tendo uma importância histórica na consolidação do ecossistema de cinema na cidade. Porém, partem de interesses de pesquisa circunscritos a pequenos grupos, além de enfrentarem sazonalidades, sem a responsabilidade do que chama de uma Política Geral de Difusão, em caráter mais sólido e permanente, sem estar ligado necessariamente ao vai e vem de gestões.
Nessa caminhada de difusão da História, Pernambuco conta também com uma ferramenta importante para solidificar políticas públicas de memória audiovisual na figura dos acervos, que na visão de Luís Fernando podem até ser objeto de interesse de outros circuitos exibidores pelo país. Um dos principais, o do Museu da Imagem e Som de Pernambuco (Mispe), conta com mais de meio século de existência, mais de 6 mil peças e uma série de idas e vindas em sua estrutura, hoje tendo sua reserva alocada na Casa da Cultura.
A Fundarpe, responsável pela gestão do Mispe, realizou um trabalho de digitalização de 855 minutos deste acervo e os planos são de utilizar esse material para compôr mostras especiais “em permanente diálogo com a memória e a preservação audiovisual”. O plano também é da instalação do chamado Centro de Referência do Audiovisual, que deve ser instalado no Cinema São Luiz após as reformas, se tornando o principal espaço de difusão do Mispe.
“De forma integrada, o Cinema São Luiz, o Centro de Referência do Audiovisual e o Mispe passam a operar como um sistema articulado de preservação, difusão e formação no campo do audiovisual. Essa conexão fortalece a cadeia produtiva pernambucana ao ampliar o acesso democrático aos acervos, estimular a circulação de obras, qualificar a formação de público e consolidar espaços permanentes de fruição do audiovisual no estado”, diz a instituição em nota ao Brasil de Fato.
Sobre a difusão de repertório e memória no Cinema São Luiz, a Fundarpe destaca que a programação do cinema “tem ênfase no cinema contemporâneo pernambucano e brasileiro, e também traz clássicos mundiais e filmes internacionais”. A instituição também destaca que conta com exibições regulares de cineclubes, movimentos sociais e mostras especiais sobre meio ambiente e patrimônio cultural imaterial.

