As Cubas que conheci | Brasil de Fato

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Como grande parte das pessoas que nasceram e cresceram nas periferias brasileiras, que aos 13 anos já conhecia o peso do serviço braçal, que desenvolveu o hábito da leitura somente na fase adulta, sempre fui sufocado pelo pensamento do senso comum, aquele forjado nas narrativas dos grandes meios de comunicação que se constituíram ao longo das décadas e se tornaram verdadeiras oligarquias em total violação do art. 220 da nossa Constituição Federal(1) de 1988.

Nesse cenário fértil de (des)informações que sempre foram articuladas para os interesses dos donos do poder no Brasil constitui minhas compreensões e formações de opinião sobre os mais variados temas. Um deles foi o conceito sobre Cuba: e traduzindo em simples palavras: o inferno sobre a terra. Fidel Castro? Um assassino que oprimia seu povo. Che Guevara? Outro assassino que perseguia e matava os mais pobres. Esses entendimentos me acompanharam por anos, desde o início de minha existência, reverberando em minha mente a partir do bombardeio informativo que as periferias sempre foram vítimas das mídias hegemônicas.  Essa era a Cuba que “conhecia”.

Entretanto, os anos se passaram e por várias circunstâncias que não vem ao caso comecei a adquirir o hábito da leitura, e com ele o mar do pensamento que sempre repousou em dias calmos tornou-se revoltoso na medida da compreensão de que muitas opiniões e convicções não passavam de um tigre de papel. Olhando para a produção cinematográfica, era como se estivesse tomando sucessivas pílulas vermelhas para se libertar da “matrix”, metáfora que guarda relação com o pensamento preciso de José Marti: “ser culto, para ser livre”.

Em relação a Cuba comecei a me questionar e buscar incessantemente informações, dados de uma realidade que me foi negada pelo sistema por anos. Essa sede por conhecimento me levou a viajar para a ilha pela primeira vez em 2006 quando tive o primeiro choque: conheci um povo culto, ciente de suas conquistas e dificuldades e principalmente de suas causas, e ainda com um sentimento de perseverança inabalável. Na medida que fui conhecendo o povo em mais de uma oportunidade, minhas opiniões sobre as figuras de Fidel e Che sofreram uma verdadeira ruptura. Tive ainda um segundo choque, agora a partir de 2016 quando médicos cubanos trazidos pela corajosa presidente Dilma Roussef começaram a chegar em nossas periferias e desenvolver um trabalho jamais visto a partir de uma relação médico/paciente pautada nas premissas de competência profissional e relação humanista quase que familiar com seus pacientes.  Uma realidade desconhecida para quem nasceu em cresceu nas vilas. Ou seja, conheci várias Cubas: aquela que mentirosamente me contaram por anos, a segunda que fui abraçado pelo povo em seu próprio país por três oportunidades, e a terceira que conheci em cada vila de Porto Alegre pelo inesquecível trabalho dos médicos cubanos.

Não por acaso os Estados Unidos tentam mais do que nunca derrubar a revolução cubana que ousou desde 1959 construir uma sociedade diferente, na qual o ser humano é o centro das preocupações do país. Ali está a grande ameaça para o imperialismo: que outras pessoas oriundas da classe trabalhadora em algum momento conheçam uma realidade completamente diferente daquela que desde sempre nos tentam convencer.

As escolhas históricas que o povo cubano fez precisam ser respeitadas. A soberania dos povos deve ser um imperativo entre as nações. A força da solidariedade precisa estar presente nesse momento de mais ataques dos Estados Unidos a Cuba. Se a ilha sempre foi solidária com o mundo, agora é o momento de receber de volta toda a ajuda que necessita.

Como brasileiros que fomos atendidos pelos profissionais cubanos temos o dever de estar ao lado de Cuba e demonstrar que a força da solidariedade pode e deve ser revolucionária e inabalável.

“Sonhe e serás livre de espírito! Lute e serás livre na vida!” (Ernesto Che Guevara)

*Fabiano Negreiros é advogado e militante comunitário.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


(1) “Art. 220 (…) § 5º Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.” Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em 24/03/2026.

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