Caminhada do Silêncio 2026 mobiliza João Pessoa em defesa da memória das vítimas da ditadura, nesta quarta-feira (1)

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A terceira edição da Caminhada do Silêncio da Paraíba – Ditadura, Nunca Mais será realizada nesta quarta-feira (1), em João Pessoa, reunindo movimentos sociais, entidades e instituições em um ato público de memória das vítimas da ditadura militar. A concentração está prevista para as 15h, em frente à sede da Ordem dos Advogados do Brasil na Paraíba, no Centro da capital, de onde os participantes seguirão por pontos marcados por episódios de repressão e resistência política.

Organizada pelo Comitê Paraibano Memória, Verdade e Justiça e pelo Memorial da Democracia da Paraíba, a caminhada propõe ocupar o espaço urbano como forma de resgatar histórias muitas vezes invisibilizadas. O percurso inclui locais simbólicos como a Faculdade de Direito e a API (Associação Paraibana de Imprensa), reconhecidos por sua relevância durante o período autoritário.

Percurso resgata histórias da ditadura

De acordo com a Fernanda Rocha, da coordenação do Memorial da Democracia da Paraíba, o trajeto foi definido a partir de registros históricos sobre violações de direitos humanos ocorridas na cidade. A proposta é transformar o Centro de João Pessoa em um espaço de memória coletiva, ainda que de forma temporária.

“A ideia é fazer esse ato em memória das vítimas da ditadura militar, e sempre tem uma mensagem de perpetuação. Essa intervenção na cidade se faz porque não se tem resposta até hoje, e a maioria dos casos não tem respostas. A gente tem um monte de desaparecidos e não se tem resposta até hoje do paradeiro dos remanescentes. Então, é uma caminhada que também esclarece a questão da anistia, um ato pela não anistia dos golpistas e das pessoas que participaram do 8 de janeiro. Este ano tem uma expectativa um pouco maior pela relevância do tema”, destaca Rocha.

A edição deste ano deve encerrar no Cassino da Lagoa, espaço que também registra episódios de repressão no período. No local, estão previstas intervenções culturais e falas públicas.

Silêncio como linguagem política

Um dos elementos centrais do ato é o silêncio, adotado como forma de expressão coletiva. Durante o percurso, não haverá carro de som, apenas o uso de faixas. A proposta é construir um contraste com a dinâmica cotidiana da cidade.

“Esse silêncio é uma homenagem às vítimas e às famílias que não puderam realizar seus rituais de despedida. Então, a caminhada do silêncio tem esse significado também, essa homenagem, mas também é um silêncio diante do barulho da cidade, uma forma de intervenção diante do contraste com o barulho e tantas vozes que se cruzam no espaço público. Então, o silêncio também vem nesse movimento, é um grito reverso.”

Ato cobra respostas e justiça

A caminhada também se apresenta como um espaço de reivindicação política. A ausência de respostas sobre desaparecidos políticos e a responsabilização por violações de direitos humanos seguem como questões em aberto no país. É o que afirma a professora e historiadora Lúcia Guerra, integrante do Comitê Paraibano Memória, Verdade e Justiça. Para ela, o ato busca manter viva a memória das vítimas e reforçar a importância do debate público sobre o período.

“A caminhada do silêncio é um ato de memória e homenagem aos que sofreram perseguição durante a ditadura militar. É realizada em silêncio, em respeito aos mortos e desaparecidos e pela dor de seus familiares. É preciso lembrar as atrocidades de um regime ditatorial para que nunca mais se repitam em nosso país. Essas caminhadas já ocorrem em inúmeras capitais, em diversos estados brasileiros, e fazem parte de uma pedagogia do ‘nunca mais’. É preciso lembrar, é preciso conhecer a nossa história para que nunca mais se repita uma ditadura em nosso país.”

Ela afirma ainda que a iniciativa integra um conjunto de ações educativas voltadas à preservação da memória histórica, o que tem sido chamado por pesquisadores de pedagogia do nunca mais.

Mobilização se conecta a agenda nacional

A Caminhada do Silêncio da Paraíba integra um movimento mais amplo, realizado em diferentes cidades brasileiras. Segundo os organizadores, atos semelhantes ocorrem em estados como Rio Grande do Norte e Pernambuco, além de São Paulo, onde a mobilização tem maior histórico de participação.

No Brasil, o debate sobre memória e justiça foi institucionalizado com a criação da Comissão Nacional da Verdade, por meio da Lei nº 12.528, de 2011. O relatório final do colegiado, divulgado em 2014, documentou violações de direitos humanos cometidas por agentes do Estado durante a ditadura militar, incluindo casos de tortura, mortes e desaparecimentos forçados.

Dados da Comissão Nacional da Verdade indicam que ao menos 434 pessoas foram mortas ou desapareceram no período investigado. Pesquisadores e entidades de direitos humanos apontam que esse número pode ser maior, considerando limitações de acesso a documentos e lacunas nas investigações. Outros dados e iniciativas de memória estão disponíveis no Instituto Vladimir Herzog.

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