China inaugura primeira fábrica do mundo de robôs que fabricam robôs

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A China inaugurou, na segunda-feira (30), sua primeira fábrica onde robôs participam diretamente da produção de outros robôs, em um passo que aponta para a industrialização em larga escala dos humanoides. A unidade, localizada em Foshan, na província de Guangdong, tem capacidade para 10 mil robôs por ano e opera com uma linha automatizada capaz de produzir uma unidade a cada 30 minutos.

O sistema reúne 24 etapas digitais de montagem de precisão e 77 processos de teste e controle de qualidade, garantindo estabilidade e segurança. Sensores e sistemas de visão computacional coordenam as operações, reduzindo erros e aumentando a padronização.

A fábrica foi projetada para atender à demanda crescente por robôs em setores como manufatura, logística e serviços, áreas em que a automação avança rapidamente. Na prática, a instalação conecta pesquisa e aplicação industrial, levando tecnologias antes restritas a laboratórios para o chão de fábrica.

Outro diferencial é a flexibilidade. A mesma linha permite montar diferentes modelos simultaneamente, reduzindo custos e encurtando o tempo de adaptação às mudanças do mercado.

Planejamento estatal e impacto global

A inauguração ocorre semanas após a aprovação do 15º Plano Quinquenal (2026–2030), formalizado em março de 2026 durante as Duas Sessões (Lianghui). O documento define as prioridades econômicas e tecnológicas do país dentro da estratégia do socialismo com características chinesas, com foco em áreas como inteligência artificial, robótica e manufatura avançada.

“O 15º Plano Quinquenal garantirá avanço estável e de longo prazo da modernização chinesa, com foco na transformação econômica guiada pela inovação científica e tecnológica, cultivando novas forças produtivas de qualidade para impulsionar o desenvolvimento”, afirmou o presidente chinês Xi Jinping durante a aprovação.

O plano também se conecta à meta de modernização socialista até 2035, que prevê uma economia mais avançada, sustentável e intensiva em tecnologia. Nesse contexto, a robótica ganha papel estratégico não apenas como setor industrial, mas como base para transformar toda a estrutura produtiva.

A nova fábrica ajuda a explicar o avanço chinês no mercado de robôs humanoides. Em 2025, foram registradas cerca de 13.300 unidades enviadas globalmente, com forte presença de fabricantes chinesas. Empresas como AgiBot, Unitree Robotics e UBTECH ampliam rapidamente sua participação, impulsionadas pela capacidade de produção em escala.

Mais do que inovação, o diferencial está justamente na escala. Ao automatizar a fabricação de robôs, a indústria chinesa reduz custos, acelera o desenvolvimento e amplia sua presença nas cadeias globais de tecnologia.

Internamente, esse avanço também responde a desafios estruturais, como o envelhecimento populacional e a redução gradual da força de trabalho. A automação surge, nesse cenário, como uma ferramenta central para sustentar ganhos de produtividade e manter o ritmo de crescimento econômico.

A fábrica de Foshan resume essa estratégia: transformar inovação em produção em escala e ampliar o peso da China na indústria global de tecnologia, em linha com as metas do 15º Plano Quinquenal e o objetivo de modernização até 2035.

Centro de treinamento e aplicação real de humanoides

No dia 28 de março de 2026, a China expandiu o maior centro de treinamento de robôs humanoides do país, localizado no distrito de Shijingshan, em Pequim, concluindo sua terceira fase durante a Convenção Chinesa de Ficção Científica, evento anual que reúne escritores, pesquisadores e empresas do setor para discutir avanços tecnológicos e aplicações práticas da inovação. Com mais de 10 mil metros quadrados, a unidade funciona como uma verdadeira “escola” para robôs, permitindo que realizem aprendizado baseado em cenários reais antes de serem aplicados na indústria, agricultura, serviços domésticos, hotelaria e saúde.

O projeto busca superar gargalos tecnológicos na fase de teste, especialmente em operação de precisão e sensibilidade tátil, e fornece infraestrutura de computação avançada para capacitação de talentos. Instrutores humanos guiam os robôs repetidamente em tarefas como transportar cargas, organizar objetos ou manipular ferramentas, gerando milhões de entradas de dados por ano que alimentam os sistemas de aprendizado e aprimoram habilidades práticas.

A estrutura simula múltiplos ambientes, domésticos, industriais e logísticos, permitindo que as máquinas lidem com situações inesperadas, reduzindo a lacuna entre laboratório e aplicação prática. Para apoiar o projeto, foi criada uma aliança industrial de inteligência incorporada, reunindo mais de 40 instituições, incluindo universidades, institutos de pesquisa e empresas líderes em computação, garantindo suporte estável e confiável para treinamento e aplicação prática dos humanoides. Além de Pequim, outras províncias, como Henan e Qingdao, também estão desenvolvendo centros semelhantes, consolidando o ecossistema nacional de robótica da China.

Robôs humanoides chegam à indústria automobilística

Na última sexta-feira, o primeiro robô humanoide de inteligência incorporada da Shanghai Automotive Industry Corporation (Saic) começou a operar em uma linha de produção de baterias, marcando uma das primeiras aplicações práticas desse tipo de robô na indústria automotiva chinesa.

Desenvolvido pela Zhiyuan Robotics, o humanoide custa cerca de R$ 320 mil (400 mil yuan) e combina torso móvel, movimentos complexos e câmeras de alta precisão, permitindo alcançar objetos acima ou abaixo e atingindo precisão de 0,1 milímetro na manipulação. Essa combinação permite flexibilidade e adaptação a processos variáveis, algo essencial em linhas de produção modernas.

“Quanto aos requisitos de posicionamento de materiais e à natureza aleatória desses insumos, o robô pode adaptar-se de forma flexível e inteligente às necessidades específicas”, afirmou Zhang Yunfei, diretor de Inteligência de Manufatura da Saic‑GM.

Além da linha de baterias, o robô é multifuncional: ao receber novos braços robóticos e treinamento baseado em dados, pode rapidamente se adaptar a novos processos industriais, acelerando a automação em setores variados.

O setor de robótica humanoide na China vem crescendo rapidamente: até o final de 2025, o país contava com mais de 140 fabricantes de robôs humanoides, com 330 produtos lançados, demonstrando que a indústria evoluiu de demonstrações de laboratório para aplicações reais em larga escala.

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