Documentos do TCU indicam que BRB sabia dos riscos do Banco Master

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Documentos do Tribunal de Contas da União (TCU) e comunicações enviadas à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado indicam que o BRB avançou em sua relação com o Banco Mestre quando já existiam sinais relevantes de risco em torno da instituição privada.

O material revela que a aproximação entre os dois bancos não se deu em ambiente de normalidade. Quando o BRB aprofundou as operações com o Master, já havia crise de liquidez, controvérsia regulatória, questionamentos sobre a qualidade de ativos e resistência dentro da própria estrutura de governança do banco público.

Uma das peças mais sensíveis do acervo é uma representação encaminhada ao TCU sobre a reunião do Conselho de Administração do BRB em 25 de março de 2025. Segundo o documento, naquela data foi aprovada a compra de R$ 270 milhões em créditos do Master, apesar da oposição inicial de conselheiros que alertaram para o fato de o índice de liquidez do próprio BRB estar abaixo do mínimo previsto em sua política de risco.

A mesma peça afirma que mensagens atribuídas ao então diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, foram apresentadas durante a reunião. Segundo o relato, Aquino teria pedido ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que o banco comprasse carteiras do Master mesmo com sinais de irregularidades e fragilidade financeira. O documento afirma ainda que essas mensagens não foram registradas em ata.

Esse ponto exige cautela. Os documentos, isoladamente, não permitem afirmar que toda a cúpula do BRB já conhecia a extensão final das fraudes apontadas depois por Banco Central, Ministério Público e Polícia Federal. Mas mostram algo politicamente e administrativamente relevante: o banco discutia e aprovava operações com o Master em meio a alertas internos e sob um ambiente regulatório claramente adverso.

A documentação enviada pela CVM à CAE reforça esse quadro. Em ofício ao colegiado, a autarquia listou processos administrativos relacionados ao BRB e ao Master abertos a partir de reportagens e fatos já levados ao escrutínio formal. Entre os temas citados estão “irregularidades na venda de ativos do Master para o BRB”, decisão judicial que barrou a compra do Master pelo BRB, desistência do banco público em recorrer de veto do Banco Central e operação bilionária feita à margem desse veto.

Esses processos, por si, não equivalem a uma condenação. Mas derrubam a tese de que a relação entre BRB e Master era apenas uma aposta de mercado submetida a ruído político. O que os papéis mostram é outra coisa: o caso já era tratado como tema de preocupação regulatória e administrativa.

Outro documento central do acervo é o relatório da unidade técnica do TCU que recompõe a atuação do Banco Central no caso Master. O texto afirma que o ponto de inflexão da instituição começou no segundo semestre de 2024, em meio a uma crise reputacional, e que, a partir de novembro daquele ano, o risco de liquidez se acentuou porque o banco passou a não conseguir renovar integralmente suas captações em plataformas de investimento.

A cronologia pesa. A proposta do BRB para adquirir parcela do Master foi formalizada em 28 de março de 2025. Em outras palavras: quando o banco público avançou para a etapa societária mais visível, a crise de liquidez do Master já não era um risco remoto. Estava instalada.

O mesmo relatório técnico registra que, durante a due diligence concluída em 11 de abril de 2025, foram identificadas graves irregularidades que levaram à exclusão adicional de cerca de R$ 19 bilhões em ativos do perímetro da transação. O documento afirma ainda que foram descobertas irregularidades nas carteiras de crédito cedidas pelo Master ao BRB, com cessão de créditos inexistentes ou sem comprovação financeira adequada.

É aqui que a história muda de patamar. O caso deixa de ser apenas uma operação arriscada com um banco enfraquecido e passa a tocar diretamente a hipótese de ativos problemáticos transferidos para uma instituição controlada pelo poder público.

O relatório também registra que o Banco Central identificou, já em 2025, evidências de que transações relevantes praticadas com o BRB estariam “eivadas de fraude”. O mesmo documento informa que o próprio BRB comunicou o desfazimento das operações em 24 de julho de 2025, com substituição dos créditos cedidos por outros ativos do conglomerado Master.

Esse trecho enfraquece a tese de surpresa absoluta. Se houve desfazimento de operações e substituição de ativos, é porque a consistência desses créditos já havia sido colocada em dúvida no curso da relação entre as partes.

Outra peça do acervo, baseada em relato do Banco Central ao Ministério Público Federal, adiciona um dado ainda mais específico. Segundo o documento, ao examinar amostras de operações supostamente originadas por terceiros e vendidas ao BRB por meio do Master, a área técnica não conseguiu estabelecer correspondência entre os contratos apresentados e os fluxos financeiros de uma amostra de clientes. Para o BC, isso corroborava indícios de insubsistência das operações. Na sequência, o mesmo documento registra que o BRB forneceu ao Banco Central uma amostra de 100 contratos para tentar demonstrar a existência dos pagamentos.

Os documentos também ajudam a desmontar a versão de que a aproximação entre BRB e Master foi apenas uma aposta estratégica de expansão. Nos papéis oficiais, o Master aparece descrito como instituição com ativos de baixa liquidez, descasamento estrutural entre ativos e passivos e dificuldades crescentes para se financiar. O Banco Central tentou uma solução privada, avaliou alternativas envolvendo o Fundo Garantidor de Créditos e, ao fim, indeferiu a operação por ausência de viabilidade econômico-financeira.

O que emerge do acervo liberado ao Senado é uma narrativa mais dura para o BRB. O banco não aparece como agente alheio aos sinais de alerta. Aparece como instituição que aprofundou negócios com o Master quando a situação da contraparte já era objeto de preocupação regulatória, resistência interna e crescente desconfiança sobre a qualidade dos ativos.

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