A realidade palestina em meio à guerra e à ocupação israelense foi tema de uma sessão especial de cinema em Porto Alegre. O documentário Notas Sobre um Desterrodo diretor Gustavo Castro, foi exibido no último sábado (28), durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos.
A produção propõe um olhar sensível e político sobre o cotidiano na Palestina, articulando memória, território e resistência, a partir de imagens captadas ao longo de anos e também de arquivos históricos e registros recentes feitos pelas próprias vítimas em Gaza.
Em entrevista ao Brasil de Fato RSCastro explicou que o projeto começou ainda em 2018, a partir do desejo de mostrar a diversidade da sociedade palestina e romper com narrativas simplificadoras. “A ideia do filme surge em 2018, com a ideia de ir para a Palestina, mostrar a diversidade que existe na Palestina e, de uma forma muito empírica, mostrar que a diversidade nunca foi um problema”, disse.
Naquele período, segundo ele, aconteciam as mobilizações da Marcha do Retorno em Gaza, com protestos semanais contra o bloqueio imposto ao território. “Toda semana, os palestinos iam até o muro fazer protestos contra o encarceramento, o cerceamento de Gaza”, explica.
O diretor contou que a equipe tentou acessar Gaza, mas foi impedida. “Todas as pessoas com quem conversamos disseram que seria impossível entrar. Só com autorização do Estado de Israel, via grandes organizações internacionais, com muita antecedência.”
Filme se transforma diante da guerra
Gravado ao longo de sete anos, o documentário passou por diferentes etapas até sua finalização, já em meio à intensificação da violência a partir de 2023. “A última etapa foi depois dos fatos de 7 de outubro. A gente não podia mais terminar o filme como tinha pensado antes”, contou Castro.
A obra passou a incorporar imagens de arquivo cedidas pela Organização das Nações Unidas (ONU), com registros dos primeiros refugiados palestinos entre 1947 e 1958, além de vídeos atuais produzidos em Gaza. “É um filme bem heterogêneo. A gente construiu uma estética da fragmentação, porque a história da Palestina é uma história de tentativa de apagamento.”
Segundo ele, a montagem busca dar sentido a imagens que hoje circulam de forma dispersa. “A gente tenta colocar essas imagens dentro de um fio narrativo. São imagens que chegam até nós todos os dias, muitas vezes descontextualizadas.”
Castro também conecta o presente à história de expulsão do povo palestino. “O genocídio está em curso e caminhando a passos largos desde 2023 em Gaza. A Nakba não é um evento do passado. Ela continua acontecendo. O que a gente vê hoje é a continuidade desse processo”, afirmou.
Para o diretor, o impacto das imagens ultrapassa a dimensão informativa. “Frente ao que acontece hoje na Palestina, você não sentir nada significa que algo dentro de você morreu. E esse algo é a humanidade.”
Ele também destacou o acompanhamento de jornalistas palestinos durante o processo. “A gente foi identificando e acompanhando esses profissionais e viu, ao longo dos meses, muitos sendo assassinados. É a maior matança de jornalistas da história.”

Cinema como ruptura do silenciamento
Durante a roda de conversa após a exibição, Castro destacou o papel do cinema na disputa narrativa sobre a Palestina. “Durante muito tempo, o cinema foi uma barreira para a causa palestina. Isso está mudando agora.”
De acordo com ele, o filme busca deslocar as imagens da guerra das redes sociais para um espaço de reflexão. “A ideia é tirar o genocídio da tela pequena e levar para a tela grande.”
O diretor também falou sobre o impacto subjetivo dessas imagens. “Elas provocam o que alguns chamam de ferida moral, quando você vê algo totalmente contra seus valores e não pode fazer nada. Essa dor pode paralisar, mas também pode mover.” Segundo ele, o filme não é somente sobre Gaza ou Palestina, mas sobre o que se faz “com aquilo que sente diante da barbárie”.
“Isso é um genocídio”, afirma Ualid Rabah
A última entrevista do documentário traz o presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), Ualid Rabah, que apresentou uma análise política e uma série de dados sobre a situação em Gaza. Para ele, o que ocorre não pode ser tratado como um conflito comum. “Nós estamos diante de um processo que precisa ser nomeado corretamente. Isso é um genocídio.”
Rabah também caracterizou o regime israelense como apartheid. “Os palestinos não podem ir e vir. Não podem sair para tratamento médico sem permissão. Não podem retornar às suas terras, mesmo tendo esse direito reconhecido”, disse.
Ele destacou ainda o bloqueio total de Gaza. “Gaza está hermeticamente bloqueada. Não se comunica com o mundo, nem com outros palestinos. Até a pesca é limitada a sete milhas, impedindo acesso a proteína básica.”
Disputa sobre território, memória e civilização
Ao longo do debate, Rabah buscou desconstruir narrativas que desumanizam o território palestino, ressaltando aspectos históricos, ambientais e civilizatórios da região. “A Palestina tem uma precipitação média anual de 513 milímetros, maior que a da Califórnia, que não chega a 400, maior que a de Madri, que não chega a 450, e pouco menor que a de Lisboa, que passa um pouco de 550.”
“A Palestina nunca foi um deserto. Gaza não é um deserto. É um território com sistemas de irrigação, inclusive por gotejamento, há cerca de 5 mil anos.” Segundo ele, esses elementos ajudam a dimensionar o que está em curso no presente. “A gente precisa trazer essas informações para iluminar Gaza hoje como um modelo de genocídio que elimina as origens da civilização humana.”
Rabah também chamou atenção para a destruição de patrimônios religiosos e culturais históricos. “Destruíram mesquitas, inclusive uma das mais antigas ainda existentes no mundo. E também a terceira igreja mais antiga do mundo. Isso não é à toa.”
Para ele, há uma dimensão simbólica nos ataques. “É para destruir a cristandade e a islamidade, para destruir a civilização construída naquela região, para destruir o monoteísmo, essa ideia de um Deus que não tem raça, e matar, hoje, novamente, em nome de Deus.”
Colapso social e demográfico
Durante a roda de conversa, Rabah apresentou uma série de dados para dimensionar a violência em curso. “São quase 11 mil crianças exterminadas por milhão de habitantes em Gaza. Na Segunda Guerra Mundial, foram cerca de 2.813 por milhão”, afirmou. “Estados Unidos e Israel exterminam 3,66 vezes mais crianças palestinas por milhão do que o período hitlerista foi capaz”, acrescentou.
Ele comparou ainda com a guerra entre Rússia e Ucrânia. “São cerca de 2,5 crianças por milhão lá. Em Gaza, são 4,2 mil vezes mais. Isso não é guerra convencional, é guerra de extermínio.”
Sobre a dimensão territorial, apontou que Gaza tem 365 km², cerca de 22% da cidade de São Paulo, e recebeu uma carga explosiva maior do que Dresden, Hamburgo e Londres somadas durante a Segunda Guerra Mundial. De acordo com ele, a destruição já ultrapassa 80% das construções.
Os dados também indicam impactos estruturais na população. “A expectativa de vida caiu de 75 anos para 44 anos entre mulheres e 36 entre homens”, disse. Segundo ele, houve queda brusca na natalidade. “De 29 mil nascimentos para 17 mil em poucos meses, uma redução de 41%.”
De acordo com ele cerca de 60 mil palestinos deixaram de nascer em Gaza nesses cinco semestres. “Há um déficit de 297 mil palestinos entre mortos, desaparecidos e os que não nasceram. Quando você mata mulheres, você mata os ventres. É um processo para colapsar a capacidade reprodutiva da sociedade”, afirmou.
O presidente da Fepal também criticou as justificativas apresentadas pelo governo israelense para a ofensiva militar. “Este é o resultado. Este é o objetivo de Israel. Nunca foi destruir o ‘Hamas’. Nunca foi reaver os ‘reféns’. Se fosse reaver os reféns, eles já teriam sido libertados a partir do dia 24 de novembro de 2023, no primeiro cessar-fogo e no primeiro plano de soltura com entrada de ajuda humanitária. Nunca nos enganemos com essa tagarelice”, completou.

“Primeiro genocídio televisionado”
“Estamos diante do primeiro genocídio televisionado da história, transmitido pelas próprias vítimas. (..) As pessoas viram crianças sendo mortas em tempo real e não puderam fazer nada. Surge um sentimento de impotência”, ressaltou Rabah.
Para ele, isso coloca um desafio coletivo. “A grande questão da nossa era é: o que vamos fazer a partir do próximo genocídio que assistirmos?”
O presidente da Fepal também relacionou o conflito à atuação histórica das potências ocidentais. “Talvez as pessoas comecem a se perguntar o que é o Ocidente. Todas as obscenidades dos últimos 500 anos têm marca ocidental.”
Ele também destacou que a resistência palestina antecede organizações contemporâneas. “Começa com os britânicos, muito antes de Hamas, Fatah ou qualquer outra organização.” Ao final, reforçou o papel da ação política e cultural diante do cenário: “A indignação precisa de instrumentos. A política é um deles, e o cinema também”.

