Biometano pode proteger o Brasil da volatilidade energética

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A instabilidade geopolítica no Oriente Médio voltou a colocar o mercado global de energia em estado de alerta. A escalada militar envolvendo o Irã e seus desdobramentos sobre a segurança do transporte marítimo no Golfo Pérsico reacenderam o temor de interrupções no fluxo energético internacional, especialmente no Estreito de Ormuz, uma das rotas estratégicas mais importantes para o comércio mundial de petróleo e gás natural.

Aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido no planeta atravessa diariamente esse corredor marítimoe o fechamento do Estreito tem consequências diretas no preço do petróleo no mundo, com impactos na inflação e nas cadeias de suprimento de fertilizantes e minerais críticos para a indústria em geral.

Embora o Brasil possua uma matriz energética relativamente diversificada, o país ainda permanece exposto às oscilações internacionais do mercado de gás natural. O gás importado, seja por meio de gasodutos da Bolívia ou por carregamentos de gás natural liquefeito (GNL), tem seu preço fortemente influenciado pelas condições geopolíticas internacionais. Conflitos armados, sanções econômicas e riscos logísticos nas principais rotas marítimas elevam os prêmios de seguro do transporte, aumentam o custo do frete e provocam flutuações bruscas nos contratos de fornecimento.

A interrupção do fluxo energético proveniente do Oriente Médio tem efeitos indiretos também sobre o mercado brasileiro. Em cenários de escassez global, países com maior poder de compra tendem a absorver grande parte da oferta disponível de GNL, pressionando preços e reduzindo a disponibilidade para mercados emergentes. Esse fenômeno tornou-se evidente após a guerra na Ucrânia, quando a Europa passou a disputar volumes de gás no mercado internacional, elevando substancialmente os preços globais.

Nesse contexto, cresce a relevância estratégica de fontes domésticas de gás renovável capazes de reduzir a dependência externa e aumentar a resiliência energética do país. Entre essas alternativas, destaca-se o biometanocombustível renovável obtido a partir da purificação do biogás produzido pela decomposição de resíduos orgânicos provenientes da agroindústria, da produção pecuária, do setor sucroenergético e dos resíduos urbanos.

O Brasil possui condições excepcionais para desenvolver esse setor, chamado de recuperação energética de resíduos, do qual o biometano faz parte. Estudos técnicos indicam que o potencial nacional de produção de biometano pode alcançar aproximadamente 44 bilhões de metros cúbicos por ano, volume equivalente a uma parcela significativa da atual demanda nacional de gás natural. Apesar desse potencial, a produção ainda está em estágio inicial, com cerca de 4,7 bilhões de metros cúbicos anuais de biogás gerados por aproximadamente 1.600 plantas em operação no país.

Nos últimos anos, o país iniciou um processo de construção de um arcabouço regulatório voltado à expansão desse mercado. A criação de metas progressivas de incorporação de biometano no mercado de gás natural e a implementação de sistemas de certificação de origem representam instrumentos fundamentais para estimular investimentos e garantir a rastreabilidade ambiental do combustível renovável. A Dinamarca, utilizando certificados de origem, já detém 41% do gás renovável.

Esses mecanismos regulatórios permitem que produtores e importadores de gás natural cumpram metas de descarbonização por meio da utilização direta de biometano ou da aquisição de certificados ambientais associados à sua produção. A política pública prevê metas iniciais de incorporação que começam em torno de 1% do volume comercializado neste ano e podem alcançar cerca de 10% até 2035.

Além dos benefícios ambientais associados à redução das emissões de gases de efeito estufa, o biometano apresenta vantagens estratégicas do ponto de vista energético. Por possuir composição química equivalente ao gás natural fóssil, ele pode ser injetado diretamente nas redes de distribuição existentes ou utilizado como combustível industrial e veicular sem necessidade de alterações tecnológicas relevantes. Isso permite ampliar rapidamente sua participação na matriz energética nacional.

A expansão do biometano também possui implicações econômicas relevantes. O aproveitamento energético de resíduos agroindustriais e urbanos transforma passivos ambientais em ativos energéticos, gera renda no campo, estimula cadeias industriais e pode mobilizar investimentos de até R$ 320 bilhões nos próximos anos.

Em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas e instabilidade no fornecimento de combustíveis fósseis, o fortalecimento de fontes energéticas domésticas renováveis torna-se um elemento central da segurança energética. Dois exemplos claros são o etanol e o biodiesel, produtos nacionais que amortecem o impacto internacional da volatilidade do preço da gasolina e do dieselrespectivamente.

Desta forma, diante das incertezas associadas aos conflitos no Oriente Médio e aos riscos logísticos em rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, o desenvolvimento do biometano surge como uma oportunidade concreta para que o Brasil transforme seu enorme potencial de recursos renováveis em um instrumento de estabilidade energética, competitividade econômica e liderança na transição para uma economia de baixo carbono.

* Iuri Schmitt é presidente-executivo da Abren (Associação Brasileira de Energia de Resíduos), vice- residente América Latina fazer Desperdício para Energia Pesquisar e Tecnologia Conselho

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