Quando o Rio Grande do Sul foi engolido pelas enchentes de 2024, atingindo 95% dos municípios, destruindo colheitas, comunidades e modos de vida, ficou evidente que a crise climática não é um problema do futuro. Ela já chegou.
De 24 a 27 de março, Brasília recebeu a 3ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário (3ª CNDRSS), retomada após 13 anos de silêncio institucional. O evento reuniu cerca de 3 mil pessoas, sendo mil delegados eleitos em mais de 560 etapas preparatórias que mobilizaram mais de 40 mil pessoas em todo o país. O resultado foi um Documento Final com 75 propostas para orientar políticas públicas voltadas ao campo, às águas e às florestas, entre elas, transição agroecológica para sistemas alimentares sustentáveis, segurança hídrica para produção e consumo, adaptação às mudanças climáticas para a agricultura familiar, regularização fundiária de territórios tradicionais e fortalecimento da educação no campo.
Não é burocracia. É democracia viva respondendo a uma emergência real.
Mas a participação, por si só, não garante transformação. Sem implementação, conferências viram apenas diagnóstico. O desafio agora é transformar essas propostas em política pública concreta, com orçamento, prioridade e continuidade.
A conferência levou o nome de Frei Sérgio Görgen, frade franciscano e liderança histórica do MST, falecido em fevereiro. Sua vida foi uma afirmação de que soberania alimentar e justiça social são inseparáveis. Carregar seu nome é também uma responsabilidade: essas 75 propostas precisam sair do papel.
O campo não apenas sofre a crise climática — ele é central para qualquer resposta real a ela. O que está em disputa não é apenas o modelo agrícola, mas o próprio projeto de país: entre a concentração de terra e renda ou a construção de sistemas alimentares sustentáveis, justos e resilientes.
Não haverá justiça climática sem políticas públicas para o campo. E não haverá políticas públicas transformadoras sem participação social. O que a 3ª CNDRSS nos mostra é que, diante da crise climática, democracia não é acessório. É condição.
*Sophia Maia é socioambientalista, estudante de Bacharelado em Ciência Política, integrante do Instituto Movimenta, Eco Pelo Clima e Ser Ação.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

