Para além do que se xinga: o Brasil precisa fabricar o que se chuta

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Durante as últimas décadas, o imperialismo se acostumou com sua supremacia tecnológica. Inegavelmente, os Estados Unidos e seus parceiros comerciais mais próximos foram responsáveis por um grande desenvolvimento no setor de Tecnologia da Informação (TI). Tal avanço não era apenas uma aspiração pelo progresso da ciência, mas sim um dos pilares da manutenção de seu controle sobre o mundo, tendo a capacidade de tornar países pobres em reféns tecnológicos.

Mascarando a realidade com uma falsa alegação de liberdade — e surfando na onda da ideia da internet como um ambiente completamente livre, que habitou o imaginário coletivo por muito tempo —, o Ocidente atacou aqueles que se fecharam contra o seu avanço no mundo digital. Por muito tempo, foi difícil debater sobre as redes mais controladas de países como China, Rússia e Coreia do Norte sem cair em um debate simplista sobre os motivos pelos quais a internet deveria ser “livre”. Essa dificuldade deveu-se à real hegemonia tecnológica e ao discurso propagado pelo Ocidente; mas, aparentemente, o cenário está mudando.

A ideia de que a internet não deve ser uma “terra sem lei” ganhou força nos últimos anos em diversos países. No Brasil, apesar do forte lobby contrário, a regulamentação das plataformas vem ganhando espaço no ideário popular. Mesmo com certas confusões conceituais, o “ECA Digital” conta com apoio majoritário, assim como outras propostas de regulamentação. Esse tema, inclusive, chamou a atenção do governo de Donald Trump que, além de criticar o Pix em um recente relatório da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, também atacou a tentativa brasileira de regulamentar as big techs.

De certa maneira, vivemos um momento de avanço no debate sobre a soberania tecnológica no Brasil, embora ainda estejamos longe de um cenário positivo frente ao imperialismo. Por mais que tenhamos progredido na discussão sobre a soberania legislativa e sobre a produção intelectual (como no caso do Pix), ainda estamos distantes de um patamar minimamente confortável em relação à produção física de tecnologia.

Há uma velha piada da área utilizada para explicar os componentes de um computador: “Software é aquilo que você xinga; hardware é aquilo que você chuta”.

Nesse momento, estamos avançando no debate sobre “o que podemos xingar”, mas ainda estamos a quilômetros de distância daquilo que “podemos chutar”. Isso representa um entrave sério para a real soberania brasileira. Observemos o exemplo da China: ao se sentirem ameaçados pelo avanço do país oriental em diversas frentes — sobretudo na economia e na produção científica —, os Estados Unidos trataram de sancionar os chineses, impedindo a exportação de seus componentes computacionais mais poderosos. Em teoria, isso prejudicaria drasticamente o desenvolvimento tecnológico chinês nos anos seguintes.

No momento das sanções, a NVIDIA — atualmente a empresa mais valiosa do Ocidente — detinha 95% do mercado na China e foi a principal arma utilizada pelos EUA para tentar bloquear os avanços de seu maior adversário. Se algo semelhante ocorresse no Brasil, seríamos arrastados para um retrocesso de décadas. Basta ver o que ocorreu com a Fiocruz, que teve seu armazenamento em nuvem reduzido em 98% por decisão unilateral da Microsoftgerando atrasos em pesquisas importantes e deteriorando o trabalho da instituição.

Olhar para o hardware, potencializar a formação de profissionais em engenharia da computação, criar serviços nacionais de armazenamento e nuvem, além de gerar alternativas para serviços essenciais (e-mails, mensageiros, redes sociais), são medidas demoradas, porém cruciais para garantir a soberania real contra quaisquer ataques imperialistas.

Ainda engatinhamos nesses assuntos, enquanto a China o trata como prioridade estratégica desde o final dos anos 90.

O resultado?

Após as sanções estadunidenses, em cerca de três anos, a NVIDIA reduziu sua presença na China para 40% do mercado, enquanto os outros 60% passaram a ser abastecidos por empresas chinesas que já estavam preparadas para assumir o protagonismo em um cenário como este.

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