Projeto colonizador britânico na Irlanda é inspiração para política genocida de Israel na Palestina

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Este ano o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, celebrou o Dia de São Patrício, maior celebração da cultura irlandesa, em 17 de março, elogiando a solidariedade irlandesa com a Palestina. Mamdani lembrou uma passagem na qual o santo padroeiro da Irlanda, ao não convencer invasores a desistirem de massacrar a população local, disse “tudo o que posso fazer é chorar com os que choram. Não é um ato trivial, é escolha, uma que muitos não fazem.”

“Nos últimos anos, enquanto testemunhávamos um genocídio se desenrolar diante de nossos olhos, houve um silêncio ensurdecedor por parte de muitos”, disse Mamdani. “Os palestinos são frequentemente deixados para chorar sozinhos”, disse o prefeito, antes de elogiar os irlandeses por permanecerem “firmes ao lado do povo da Palestina”.

De fato, amplamente reconhecidos como os europeus que mais apoiam a causa palestina — pesquisa indica que 71% da população considera que ocorre nos territórios ocupados é apartheid instaurado por Israel —, os irlandeses vão às ruas da capital, Dublin, no próximo dia 18 contra a posição dúbia do governo, frente tanto à guerra contra o Irã como no genocídio palestino.

Dados apontam que pelo menos 1,3 mil aeronaves militares e civis dos EUA contratadas pelas forças armadas estadunidenses voaram a menos de 60 km (37 milhas) do Aeroporto de Shannon, na região Oeste do país, desde janeiro de 2024, incluindo pelo menos 45 voos com origem ou destino para Israel. Há forte pressão popular para impedir esses voos, como parte de uma longa tradição de apoio aos palestinos.

Em 1980, a Irlanda foi o primeiro país a reconhecer a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e a defender a criação de um Estado palestino, o que levou a uma posição semelhante ser adotada pela Comunidade Econômica Europeia (CEE), precursora da União Europeia, meses depois. O Projeto de Lei dos Territórios Ocupados da Irlanda de 2018, que proibiria o comércio de bens e serviços provenientes de assentamentos israelenses ilegais, já passou por oito das dez etapas do processo legislativo irlandês e serviu de catalisador para a criação de legislação similar em outros países.

Em 2021, a Irlanda tornou-se o primeiro país da UE a declarar que ocorreu uma anexação de facto na Cisjordânia ocupada, abrindo caminho para a implementação de contestação jurídica. Além disso, o país assumiu um papel de liderança entre as nações da União Europeia ao acusar Israel de cometer genocídio em Gaza e iniciou medidas legais para intervir no caso apresentado pela África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ).

O país reconheceu oficialmente o Estado da Palestina em 28 de maio de 2024, juntamente com a Noruega e a Espanha, decisão duramente criticada por Israel na época.

Esse apoio todo está enraizado em paralelos com a própria experiência do país com a ocupação britânica, segundo especialistas. A Irlanda viveu sete séculos de domínio britânico, que começou com a invasão anglo-normanda no século 12 e continuou até a independência em 1922. Foi uma história repleta de brutalidade, requintes de crueldade e que pesquisadores apontam, serviu de modelo para a ocupação israelense.

Para entender melhor essa semelhança entre as ocupações britânicas na Irlanda com a israelense na Palestina, o Brasil de Fato ouviu Sara Vivacqua. Advogada, ela foi procuradora no Government Legal Department (GLD) junto ao Ministério do Meio Ambiente do Reino Unido e ficou conhecida por sua atuação na campanha pela libertação de Julian Assange, em Londres.

“A história colonial da Irlanda é uma das mais longas e devastadoras do mundo ocidental: cerca de oito séculos de dominação por um dos mesmos colonizadores que subjuga a Palestina desde 1917, o Reino Unido.
A Palestina é uma continuidade do projeto colonizador britânico”, diz ela.

“A experiência compartilhada de resistir à violência colonial patrocinada pelo Reino Unido é uma trajetória que irlandeses e palestinos dividem como identidade nacional. E a solidariedade irlandesa com a luta palestina pela libertação é bem documentada e profundamente viva.”

Leia a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Por que a Palestina é tão importante para os irlandeses?

Sara Vivacqua: Primeiramente, cabe dizer que a libertação da Palestina da colonização supremacista do Sionismo é uma causa de toda a humanidade, e desperta a solidariedade internacional há décadas. Quando um povo é colonizado e, por consequência, submetido a um processo de limpeza étnica, genocídio, tortura, assassinato e deslocamento em massa nas formas mais primitivas e bárbaras, isso fere toda a humanidade — fere todo o sentido da dignidade humana.

O próprio direito internacional reconhece que crimes contra a humanidade, como crimes de guerra e genocídio, constituem as afrontas mais severas à ordem legal internacional. A resistência do povo palestino tem, portanto, um simbolismo incomensurável que conecta as lutas anticoloniais, anticapitalistas e as lutas de libertação nacionais.

Não devemos desejar o que sofre o povo palestino — assim como o povo sudanês — a nenhum povo. Trata-se de uma afronta perversa ao sentido do amor à humanidade. A Palestina tornou-se parte de um diálogo mais amplo sobre como analisar e confrontar o poder do imperialismo, a expansão capitalista e o colonialismo de assentamento. E ela expõe, com clareza insuportável, a mentira do Ocidente sobre seus próprios valores declarados.

Já a conexão entre a Irlanda e a causa palestina é talvez o fenômeno anticolonial mais vivo e popular na Irlanda contemporânea — e não é difícil entender por quê. A história colonial da Irlanda é uma das mais longas e devastadoras do mundo ocidental: cerca de oito séculos de dominação por um dos mesmos colonizadores que subjuga a Palestina desde 1917: o Reino Unido.

Ao longo desses séculos, inúmeros eventos constroem a memória e a identidade coletiva irlandesa como símbolo do terror colonial. A Irlanda é considerada por muitos historiadores como o balão de ensaio do imperialismo britânico — onde inúmeros métodos foram experimentados sob a forma de uma missão civilizatória e religiosa. Isso incluiu a racialização do colonizado: os irlandeses eram descritos pelos cronistas ingleses como selvagens, primitivos, incapazes de se governar. Um olhar que, em formas deliberadamente veladas, persiste até hoje.

As Plantations britânicas foram implementadas pela primeira vez na Irlanda como confisco sistemático de terras e substituição da população nativa por colonos leais à coroa — um método que o império depois replicaria na América do Norte, na Austrália, na África do Sul e no Zimbábue. Historiadores do colonialismo palestino citam explicitamente as plantations irlandesas como modelo para o projeto sionista de assentamento.

As Penal Laws foram um dos primeiros sistemas jurídicos elaborados especificamente para gerir uma população subjugada dentro de um império. Em 1936, durante o Mandato Britânico na Palestina, a Grã-Bretanha introduziu a Detenção Administrativa — prisão por tempo indefinido sem julgamento ou acusação formal. Israel usa essa prática como política de Estado até hoje.

É possível dizer que, em termos de entidade estatal, Israel é a mais primitiva do mundo contemporâneo, reproduzindo as práticas coloniais mais antigas e nefastas. Diante de um colonialismo tão óbvio, sem as ambivalências deliberadas do neocolonialismo, a causa palestina torna-se ainda mais inaceitável e urgente.

O elo histórico mais revelador é Arthur Balfour. Em 1887, ele foi secretário-chefe para a Irlanda, onde reprimiu o movimento agrário com mão de ferro — e ficou conhecido como Bloody ( sanguinário) Balfour. Décadas depois, foi o mesmo Balfour quem assinou a declaração que abriu caminho para o projeto sionista de assentamento na Palestina, na qual o governo britânico declarou apoio ao estabelecimento de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina.

A Palestina é uma continuidade do projeto colonizador britânico. A experiência compartilhada de resistir à violência colonial patrocinada pelo Reino Unido é uma trajetória que irlandeses e palestinos dividem como identidade nacional. E a solidariedade irlandesa com a luta palestina pela libertação é bem documentada e profundamente viva.

Essa ligação é algo estimulado por governos ou é orgânica?

Essa solidariedade é, sem dúvida, fundamentalmente orgânica. Não é a posição do Estado irlandês que determina a posição das massas — é a percepção do povo irlandês que impulsiona o governo a ir mais longe que a maioria dos europeus em posições políticas e diplomáticas, posicionando-se como referência moral num conglomerado de países ocidentais que são ou foram impérios.

O Estado irlandês, em si, joga um jogo duplo: a retórica anticolonial convive com o neoliberalismo imperialista. Enquanto a Irlanda é politicamente e diplomaticamente não alinhada a Israel, economicamente mantém vínculos substantivos. De acordo com o Counterpunch, a Irlanda seria, per capita, o maior apoiador econômico de Israel no mundo.

Em 2024, importou US$ 3,2 bilhões (R$ 16, 4 bi) em bens e serviços israelenses — acima de US$ 600 dólares por habitante, mais de doze vezes o valor americano per capita. O governo irlandês aprovou, em maio de 2025, depois de inúmeras sabotagens parlamentares, uma versão deliberadamente diluída da proposta de lei do Occupied Territories Bill — proibindo apenas bens, não serviços, que constituem a maior parte da relação econômica com Israel. O papel material da Irlanda no genocídio palestino é, portanto, substancial.

Você pode dar exemplos concretos de cooperação irlandesa com os palestinos?

Diplomática e politicamente, a Irlanda, no entanto, tem uma posição clara. Em 2021, tornou-se o primeiro país da UE a passar uma moção reconhecendo oficialmente que a anexação de fato de terras palestinas por Israel constitui “apartheid de fato”. Em maio de 2024, reconheceu formalmente o Estado da Palestina, em ação coordenada com Noruega e Espanha. Em outubro de 2024, anunciou que se juntaria à África do Sul no processo de genocídio contra Israel na Corte Internacional de Justiça. O movimento popular pela Palestina na Irlanda é expressivo e não está disposto a incorporar os discursos do falso anticolonialismo — como a farsa da solução dos dois Estados, que tem como premissa a manutenção do sionismo: uma doutrina de supremacia racial tão perigosa quanto o nazismo.

Sob esse aspecto, a experiência irlandesa é muito singular. Enquanto a grande maioria dos países europeus se define por sua experiência como impérios, a Irlanda carrega a memória de colonizada — e ainda hoje é um país fragmentado pelo efeito direto do colonialismo de Westminster. O país se dividiu em dois: a República da Irlanda e a Irlanda do Norte, esta última ainda subjugada diretamente a Westminster.

Há pressão do Reino Unido para coibir essas manifestações?

No Reino Unido, a colaboração com Israel é militar, propagandista, de inteligência e de repressão interna, e chega ao ponto de sacrificar, de forma bruta e explícita, as próprias liberdades e direitos fundamentais dentro do Estado britânico. Das exportações de armas que mantiveram o arsenal israelense abastecido, aos esforços conjuntos de inteligência que forneceram informações em tempo real sobre o campo de batalha, às visitas de alto nível e deployments navais que sinalizaram apoio irrestrito à campanha israelense — as forças armadas britânicas e o complexo militar-industrial são profundamente entrelaçados.

A influência do lobby sionista nas últimas décadas chegou ao ponto de sequestrar a política nacional de forma transpartidária. Cerca de 180 dos 650 parlamentares do último parlamento aceitaram financiamento de grupos de lobby pró-Israel ou de indivíduos associados ao longo de suas carreiras políticas — incluindo 130 MPs conservadores, 41 trabalhistas e três liberal-democratas. Trevor Chinn, lobista pró-Israel de longa data, financiou oito membros da bancada ministerial de Keir Starmer, o primeiro-ministro britânico atual do Labour.

Chinn recebeu a Medalha Presidencial de Honra de Israel, e a Labour Friends of Israel foi uma das organizações que o indicou para o prêmio. A Labour Friends of Israel foi recentemente denunciada à Comissão Eleitoral por suspeita de violação da lei eleitoral. O grupo Labour Together, financiado com 849.429 libras (R$ 5,8 bilhões) entre 2017 e 2020, apresentava-se publicamente como grupo de diálogo entre facções — mas secretamente visava usar “qualquer meio necessário para deslegitimar e destruir” (o parlamentar pró-Palestina) Jeremy Corbyn e garantir sua derrota eleitoral.

A política de Westminster foi sequestrada pelo lobby sionista. Desse valor, apenas 70 milhões de libras foram declarados. Em julho de 2025, o governo britânico designou o Palestine Action — grupo de ação direta pró-Palestina — como organização terrorista sob a Lei do Terrorismo de 2000; posteriormente, a proscrição foi considerada inconstitucional pela Justiça, com recurso pendente.

Desde que a proscrição entrou em vigor, mais de dois mil pessoas foram presas por exibir cartazes contendo sete palavras: I oppose genocide, I support Palestine Action (Eu me oponho ao genocídio, apoio a Palestine Action). A escala operacional é concreta e verificável. Em debate parlamentar britânico de março de 2025, foi mencionado que, de dezembro de 2023 a novembro de 2024, o Reino Unido conduziu 645 missões de vigilância e reconhecimento sobre Gaza — quase dois voos por dia — a partir da base aérea de Akrotiri, em Chipre, a quarenta minutos de voo de Tel Aviv.

A cumplicidade estende-se à cadeia de produção das armas que bombardeiam Gaza. O Reino Unido continua a fornecer componentes essenciais para os 45 caças F-35 de Israel — mesmo após a suspensão parcial de licenças em setembro de 2024 — desde que o fornecimento seja feito indiretamente, via Estados Unidos ou outros países. Mais de 15% de cada F-35 é fabricado no Reino Unido. Os ataques aéreos israelenses sobre Gaza simplesmente não seriam possíveis sem componentes britânicos.

(O primeiro-ministro “de esquerda”) Keir Starmer visitou a base de Akrotiri em dezembro de 2024, declarando em frente às câmeras ao pessoal militar britânico que “o mundo inteiro depende de vocês”. A cooperação é também clandestina e de alto nível. Registros governamentais recentemente divulgados revelam que pelo menos cinco visitas secretas de altas patentes militares britânicas a Israel ocorreram em 2024.

Entre eles, o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, almirante Sir Tony Radakin, que se reuniu com seu homólogo israelense em janeiro de 2024 para discutir “operações futuras na região”. Esta cooperação insere-se ainda num quadro multilateral mais amplo: o chamado Regional Security Construct, documentado por jornalistas, que envolve a parceria de inteligência Five Eyes — Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Canadá e Nova Zelândia — e que continuou operacional mesmo após o início da ofensiva israelense sobre Gaza.

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