Entre o Cruz e o Contêiner

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“Deus criou o homem e o homem criou os muros
Cercou as casas e as varandas pelos quatro cantos do mundo
Cercou o tempo, o passado, o presente, o futuro
Cercou espaço, sonhos, mentes e pássaros
Cercou a árvore que nos dá o fruto
A sombra e a penumbra
Cercou as matas, arou a terra
Plantou o trigo e cercou o pão
Foi preciso cercar outro homem”

(509-E, Você Me Faz Falta)

Em março de 2026, o Teatro de Contêiner foi demolido após diversas idas e vindas judiciais. No mesmo mês, o Grêmio Recreativo Cruz da Esperança recebeu uma ordem de despejo imediata, com autorização para uso de força policial e demolição. Dois terrenos ocupados, o mesmo destino decidido pelo Judiciário, especulação imobiliária envolvida e uma mesma proprietária, a Prefeitura de São Paulo.

Em usaro município afirma que foi pedida a reintegração do espaço da Cia. Mungunzá de Teatro, que era ocupado com autorização municipal desde 2017, pois: “Diante da falta de acordo, a Prefeitura cumpriu a decisão judicial para a retomada do patrimônio público, garantindo que o terreno cumpra sua função social primordial: prover moradia digna e infraestrutura urbana para os cidadãos”.

No ano de 2025, três programas vinculados ao Estado e à Prefeitura de São Paulo estavam em andamento no teatro: o Programa Municipal de Fomento ao Teatro, Projeto Cultural para as Infâncias e Juventudes, a ser realizado em escolas públicas, e o Negras Melodias, voltado a artistas pretos e pretas e à valorização da música negra, contrapartida do edital visando Manutenção e Modernização de Espaços Culturais.

O Poder Público, via editais, reconheceu a função social dos projetos apresentados pelo Teatro de Contêiner. Ainda assim, optou por despejá-lo de forma truculenta, interrompendo os projetos e acarretando, por sua culpa, o descumprimento dos contratos pela Mungunzá, que pode trazer consequências que vão da exclusão da participação em futuros editais até a devolução dos valores já recebidos.

Até o último dia, o teatro sofreu com ações policiais forçando a sua saída, hora com a desculpa de demolição de lugares próximos, hora alegando uma “confusão” de determinações a funcionários terceirizados que invadiram o espaço, além da opressão padrão. Tudo isso em meio a negociações sobre a mudança de local, que acabou não ocorrendo.

No fim, apesar das decisões judiciais terem reconhecido a ocupação do espaço por oito anos, a relevância social para o entorno, a vigência dos programas culturais e a dificuldade de deslocamento de uma estrutura daquele porte, o desembargador Renato Delbianco decidiu pelo despejo até dezembro de 2025 porque “os bens estão destinados à construção de habitações de interesse social e de mercado popular, à revitalização da área, além de já terem sido ofertados outros imóveis (…) para que os recorridos se instalem, viabilizando a continuidade de suas atividades”.

O processo do Cruz da Esperança é diferente, mas nem tanto. Clube da várzea fundado em 1958, que revelou Serginho Chulapa e Basílioviu sua sede social virar reduto da cultura negra por conta de várias ações comunitárias, entre elas o Samba do Cruz, hoje sua principal fonte de renda, já que não conta com associados. Porém, com a concessão da área à iniciativa privada para a instalação do Parque Municipal Campo de Marte, a história de quase 70 anos corre o risco de chegar ao fim.

São dois processos em andamento, um proposto pelo Cruz e outro pela Prefeitura. No primeiro, o juiz nem analisou o pedido de adiamento do despejo, impondo uma série de esclarecimentos burocráticos, pequenos caprichos comparados à urgência do assunto.

O processo da Prefeitura andou sem maiores problemas, com a autorização de demolição e despejo imediata, decisão revista depois suspendendo as ações que afetassem a estrutura do clube e dando prazo de 60 dias para desocupação. O argumento é que o contrato com a concessionária Campo de Marte exige a entrega do espaço livre das pessoas e prédios. Se não for entregue assim, multas podem ser aplicadas colocando em risco o dinheiro público, segundo o juiz do caso.

Pelo lado do Cruz, foi informado no processo que não assinou o acordo de desocupação da área, com o qual os outros clubes vizinhos concordaram, porque é um documento com cláusulas obscuras, que não garantem o funcionamento do espaço como é hoje. Além disso, recorreu ao argumento histórico-cultural da área, alegando interesse público e social e pedindo que o Ministério Público se pronunciasse.

O trecho final da resposta assinada pelo promotor Paulo Roberto Ferreira Fortes foi esse: “Analisando-se histórico de “avaliações do local” e fotografias junto ao Google Maps verifica-se que (..) se trata de local corriqueiramente utilizado para a realização de festas (em regra noturnas) com bailes dançantes e venda/consumo de bebida e comida, (…) em regra tocando samba, mas não há (..) reconhecimento de qualquer órgão de proteção do patrimônio como local tombado ou especialmente protegido por aqueles motivos”, assim “não há (…) suficientes elementos que autorizem concluir existir interesse público ou social que atraiam a intervenção do Ministério Público”. Sim, um promotor baseou sua opinião em fotos do Google!

O cenário é que o prefeito Ricardo Nunes reconheceu a função social dos locais, seja por editais ou acordos de uso, mas se livra das responsabilidades usando o Judiciário que, ao mesmo tempo que ignora os contratos do Teatro de Contêiner, protege os interesses das empresas envolvidas no Campo de Marte. Apesar de não ser novidade essa defesa do mercado imobiliário, dois patrimônios culturais imensuráveis podem desaparecer.

Este Judiciário é formado por pessoas que não vivem a cidade como ela é. Nunca precisaram escrever um projeto para edital, nunca suaram a camisa atrás do balcão do bar, nunca dependeram de um samba para pagar as contas. Não tem desembargador vendo peças de teatro na rua dos Gusmões e promotor tomando cerveja em clube de várzea.  A cidade que eles enxergam de seus gabinetes é outra e, por isso, não conseguem ver que a cultura é sustento, é memória, é território.

É urgente que exista mediação antes das demandas chegarem a uma prefeitura que destrói a cidade e a um Judiciário que só atende aos interesses empresariais. O que nós vivemos não cabe em foto de Google, nem em cláusula de contrato. Enquanto houver um bar, um palco, uma calçada ocupada, a cidade ainda será nossa. O Contêiner foi demolido e o Samba do Cruz está ameaçado, mas a Mungunzá ainda existe e o Grêmio Cruz da Esperança ainda está de pé.

Subam seus muros, a gente escala.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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