Primeiro-ministro espanhol denuncia violações do direito internacional por Israel e EUA em visita à China

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“A legalidade internacional está sendo violada fundamentalmente por um país, que é o governo de Israel”, disse o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, nesta terça-feira (14) em coletiva de imprensa em Pequim.

Sánchez falou com a imprensa após reunião com o presidente chinês Xi Jinping no Grande Salão do Povo. O premiê qualificou como ilegal a guerra iniciada pelo governo dos Estados Unidos e por Israel contra o Irã. Esta foi a quarta visita do chefe de governo espanhol à China em quatro anos.

Atualmente, “a legislação internacional está sendo atropelada” e os países que se posicionam contra as violações “são submetidos a ameaças”, disse o chefe de governo espanhol. Na Espanha, o chefe de Estado é o rei Felipe VI.

Nessa fala, Sánchez se referia a seu próprio governo. Tanto Israel quanto os EUA lançaram ameaças à Espanha após ações e posicionamentos do país contra a agressão ao Irã, Líbano e Gaza. Em 3 de março, o próprio presidente estadunidense, Donald Trump, afirmou que “a Espanha tem sido terrível” e ameaçou cortar todo o comércio com o país, após Madri se recusar a ceder as bases militares conjuntas de Rota e Morón para operações contra o Irã. O senador republicano Lindsey Graham exigiu a retirada das tropas estadunidenses das duas bases.

No caso de Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou, em 10 de abril, a exclusão da Espanha de um centro estratégico militar liderado pelos EUA em Israel, acusando Madri de “hipocrisia e hostilidade” por ter “escolhido repetidamente se posicionar contra”. “Não pretendo permitir que nenhum país trave uma guerra diplomática contra nós sem pagar um preço imediato”, publicou em seu perfil oficial no X.

No mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, declarou que o governo espanhol demonstra “obsessiva parcialidade anti-Israel”, de acordo com reportagem do Imprensa Judaica Europeia. Em suas redes sociais, no último dia 12, Sa’ar chamou a reabertura da embaixada espanhola em Teerã de “vergonha eterna”.

Parceria chinesa

Pedro Sánchez considera a China um ator insubstituível para uma saída diplomática ao conflito. “É muito difícil encontrar outros interlocutores que possam desatar essa situação provocada no Irã e no Estreito de Ormuz além da China”, afirmou

“Qualquer esforço que todas as nações possam fazer, particularmente aquelas que dialogam e que não participam ativamente nesta guerra ilegal, acredito que não é apenas bem-vindo, mas também muito necessário”, disse Sánchez.

Em sintonia com a China, disse que a Espanha quer “uma ordem em que não impere a lei da selva, a lei do mais forte”, e denunciou que a ordem internacional do século 20 está sendo corroída por atores de grande porte.

Durante o encontro no Grande Salão do Povo, Xi disse que Espanha e China devem estreitar a cooperação e “rejeitar o retrocesso do mundo à lei da selva”.

A postura de Sánchez sobre a agressão militar dos EUA e Israel aos países vizinhos tem chamado atenção entre os jovens nas redes sociais chinesas, em que o político espanhol acumula elogios não muito comuns para um líder europeu.

A plataforma digital do jornal estadual Dazhong Diário (大众新闻-大众日报) publicou um vídeo sobre a condenação de Sánchez aos ataques israelenses no Líbano que acumulou centenas de comentários elogiando a postura do mandatário, vindos de usuários de províncias como Guangdong, Sichuan, Yunnan e Pequim.

“A Espanha é atualmente um dos raros países ocidentais com lucidez, racionalidade e consciência”, escreveu um usuário de Guangxi. “Na Europa, só sobrou a Espanha com senso de justiça”, afirmou outro, de Guangdong. O comentário mais curtido foi direto: “A Espanha tem coragem de dizer a verdade”, com 387 interações.

Encontro com Xi

Além do encontro com Xi Jinping, Pedro Sánchez seguiu a tradição dos presidentes e chefes de Estados em visita à China, que é de se encontrar com o presidente da Assembleia Nacional Popular, Zhao Leji, e com o premiê, Li Qiang.

Os dois governos formalizaram um mecanismo de Diálogo Estratégico, o mais alto nível de interlocução política entre a Espanha e a China em 53 anos. Graças a ele, ambos os países se reunirão anualmente para abordar comércio, investimento, ciência e questões de paz e estabilidade global.

Presidente chinês Xi Jinping durante reunião com chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, no Grande Salão do Povo. 14 de abril de 2026
Presidente chinês Xi Jinping durante reunião com chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, no Grande Salão do Povo | Crédito: Mauro Ramos / Brasil de Fato

Xi Jinping destacou a estabilidade da relação entre os dois países, mesmo diante de um cenário internacional “tão instável quanto turbulento”.

Sem mencionar EUA ou Israel, Xi afirmou que “a forma como um país lida com o direito e a ordem internacional reflete sua visão de mundo, sua compreensão de ordem, seus valores e sua responsabilidade”.

Ao mesmo tempo, continuou, “tanto a China quanto a Espanha têm princípios e defendem a justiça”. Xi disse que os dois países devem “defender juntos o verdadeiro multilateralismo e o sistema internacional centrado na ONU”.

Cúpula com Lula e encontros progressistas

Ao voltar à Espanha, Sánchez receberá o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, para a primeira Cúpula Espanha-Brasil, em Barcelona, no dia 17 de abril. Lula também vai participar da “Mobilização Progressista Global” nos dias 17 e 18 de abril, ao lado de outros líderes como o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, o da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. No sábado, acontecerá ainda o quarto Encontro em Defesa da Democracia, iniciativa lançada há dois anos em conjunto com Lula, o ex-presidente chileno Gabriel Boric e outros governos progressistas.

Ao ser questionado sobre os objetivos desses encontros, Sánchez disse que os partidos e governos progressistas precisam se unir para transmitir à cidadania que pertencem “a algo que vai além da política doméstica”, com uma visão “positiva, humanista, de avanço e de compromisso diante dos desafios que a humanidade tem pela frente”.

Sánchez contrapôs essa agenda à da extrema direita, “aqueles que fazem do reacionarismo, do ódio, da fragmentação e da polarização sua forma de entender e praticar a política, seja a nível nacional ou internacional”.

Assim como Sánchez, Lula também tem criticado publicamente a agressão dos EUA e de Israel contra o Irã. “Os Estados Unidos se meteram a fazer uma guerra desnecessária no Irã, alegando que, no Irã, tinha arma nuclear ou que estavam tentando fazer arma nuclear. É mentira”, declarou recentemente à TV Cidadedo Ceará, o presidente brasileiro.

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