Bets acentuam dívidas e geram crise silenciosa no Brasil

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O avanço das apostas online no Brasil deixou de ser apenas um fenômeno de consumo para se tornar um problema estrutural da economia. Elas estão pressionando o orçamento das famílias e gerando um nível de endividamento que pode impactar no desenvolvimento da nação.

Foi nesse contexto que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elevou o tom no último dia 8 de abril ao afirmar, em entrevista ao ICL Notícias: “Se depender de mim, a gente fecha as bets”.

No campo político, disputas são reorganizadas em torno da regulação do setor. Com bilhões drenados mensalmente para plataformas digitais e sinais claros de deterioração financeira entre os mais vulneráveis, cresce a avaliação de que o país enfrenta uma nova frente de crise social silenciosa.

A declaração de Lula, a mais enfática até agora do chefe do Executivo, aquece o debate sobre o futuro das apostas online no país. A fala não é isolada. Ela ecoa a preocupação com um fenômeno que, segundo estudos recentes, já é o principal motor do endividamento das famílias brasileiras e que superam até os tradicionais juros abusivos do crédito rotativo.

Descontrole financeiro X bets

Levantamento da FIA Business School, escola de negócios vinculada à Universidade de São Paulo (USP), e do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (Ibevar), divulgado no fim de 2025, mostrou que o vício em apostas online já figura como a causa número um para o descontrole financeiro dos lares brasileiros.

O retrato se agravou em fevereiro deste ano, quando o Procon São Paulo revelou que 39,7% dos apostadores se endividaram depois de começar a usar as plataformas. O perfil predominante desse novo endividado é masculino (61,8%), jovem (82,5% têm até 44 anos) e de baixa renda (38,6% ganham até dois salários mínimos).

O impacto no orçamento familiar é brutal: cerca de 30% dos jogadores gastam mais de R$ 1 mil por mês com bets, dinheiro que deixa de ir para alimentação, educação e lazer.

O resultado dessa sangria aparece nos números oficiais de inadimplência. Em fevereiro de 2026, o Brasil atingiu a impressionante marca de 81,7 milhões de CPFs negativados, segundo dados do Serasa.

Com o comprometimento da renda das famílias atingindo 29% em média, economistas alertam para efeitos em cascata na economia. O consumo tende a se contrair, especialmente em bens não essenciais, o que pode pressionar para baixo a arrecadação de impostos indiretos (ICMS, IPI, PIS/Cofins).

Além disso, o governo já foi obrigado a lançar programas caros de renegociação de dívidas – como o Desenrola – e o próprio crescimento do PIB corre o risco de ficar comprometido se a inadimplência não for controlada.

Lucro alto e imposto baixo

Diante desse cenário, o governo Lula tenta, há mais de um ano, aumentar a carga tributária sobre as bets. Em 2025, as apostas online movimentaram R$ 30 bilhões em receita bruta (GGR) — o valor que as casas embolsam após pagar os prêmios aos apostadores. Desse montante, o governo arrecadou R$ 4 bilhões em tributos.

A briga para elevar a taxação, no entanto, tem sido um campo minado. Em outubro de 2025, a Medida Provisória 1303 – que previa alíquotas mais agressivas, de até 18% sobre a receita bruta – foi barrada no Congresso, numa derrota do governo liderada pela oposição bolsonarista.

A MP caducou. Uma meia vitória veio depois, com a Lei Complementar 224/2025, que elevou a tributação de 12% para 15% a partir de 2026, com previsão de aumentos graduais.

O problema, avaliam especialistas, é que mesmo a nova alíquota ainda é baixa se comparada ao padrão internacional. Enquanto o Brasil passará a cobrar 15%, Nova York, nos Estados Unidos, taxa em até 51% sobre o lucro das apostas. A França aplica 33%, o México 30%, Portugal até 25% e a Holanda elevou sua alíquota para 34,2% em 2025, com nova alta prevista para 2026.

“O Brasil virou paraíso fiscal das bets, e a conta está sendo paga pelas famílias mais pobres”, resume um técnico do Ministério da Fazenda que preferiu não se identificar.

A máquina de propaganda e a suspeita de desinformação

Parte da dificuldade do governo em avançar na regulação, segundo analistas, explica-se pelo poder de fogo do setor. As bets viraram os maiores anunciantes do país. Só em publicidade na TV aberta, paga, rádio e streaming, investiram mais de R$ 1,4 bilhão em 2025.

No futebol, a presença é avassaladora: 18 dos 20 times da Série A têm uma casa de apostas estampada na camisa, gerando mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios máster. Clubes como Flamengo (Betano) e Corinthians (Esportes da Sorte) fecharam contratos milionários.

No Rio Grande do Sul, apesar das bets não figurarem atualmente e momentaneamente nas camisas de jogo da dupla GreNal, elas não estão alheias as competições.

Entre os maiores anunciantes do futebol brasileiro, as bets aparecem regularmente nas placas de LED ao redor dos gramados, financiando os mais variados campeonatos e transmissões.

O dinheiro, porém, não está apenas nos estádios e na TV aberta. Relatórios do Itaú Unibanco estimam que os gastos totais com marketing do setor chegam a impressionantes R$ 8,8 bilhões por ano. E há suspeitas de que parte desses recursos esteja sendo desviada para um front mais obscuro: a desinformação política.

Desde o início de 2026, circularam denúncias de que casas de apostas – especialmente as que operam de forma irregular ou com laços políticos com a oposição – estariam patrocinando páginas de fofoca e perfis nas redes sociais para disseminar ataques ao governo Lula.

Quando ainda ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chegou a mencionar publicamente que, após a decisão do governo de regular e taxar o setor, as empresas passaram a financiar “campanhas de mentiras”, como a falsa taxação do Pix, para desgastar a administração federal. A suspeita é que essas ações busquem não apenas proteger os lucros do setor, mas também influenciar as eleições presidenciais de 2026.

A declaração de Lula de que “fecha as bets se depender dele” encontra, porém, limites práticos. O próprio presidente reconheceu que a decisão final depende do Congresso Nacional.

Enquanto isso, o governo adota medidas paliativas, como o bloqueio de sites não autorizados, a proibição do uso de cartão de crédito para apostas e o banimento do uso de recursos do Bolsa Família nas plataformas.

Para o eleitorado feminino, que vê com enorme preocupação o comprometimento da renda familiar, a manifestação do presidente é música aos ouvidos. Resta saber se a poderosa máquina publicitária e política das bets será capaz, mais uma vez, de barrar o avanço de medidas mais duras no parlamento.

Por ora, o que se vê é um jogo de alto risco: de um lado, um governo que quer frear a jogatina; do outro, uma indústria bilionária que não vai entregar as fichas sem brigar.

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