Desde as primeiras horas da madrugada, milhares de pessoas começaram a se aproximar do emblemático cruzamento habanero de 12 e 23. Trabalhadores de diferentes coletivos, estudantes, famílias e grupos de amigos foram ocupando, horas antes do amanhecer desta quinta-feira, dia 16, as ruas ao redor daquele ponto, situado no coração do Vedado, em comemoração ao 65º aniversário da declaração do caráter socialista da Revolução Cubana.
“O que os imperialistas não podem nos perdoar é que estejamos aqui; o que eles não podem nos perdoar é a dignidade, a firmeza, a coragem, a solidez ideológica, o espírito de sacrifício e o espírito revolucionário do povo de Cuba”, afirmou Fidel naquele 16 de abril de 1961, em um palco improvisado. “É isso que eles não podem nos perdoar: que estejamos aqui, diante de seus olhos, e que tenhamos feito uma Revolução socialista bem debaixo do nariz dos Estados Unidos!”.
Longe de ser apenas uma comemoração de uma data histórica, o ato foi uma verdadeira manifestação contra a crescente hostilidade com que os Estados Unidos vêm ameaçando — mais uma vez — Cuba. Desde o fim de janeiro, a Casa Branca intensificou sua política onipresente de guerra econômica contra a ilha, ameaçando sancionar qualquer país que “venda ou forneça petróleo” a Cuba. Desde então, em diversas ocasiões, o próprio Trump afirmou — com seu discurso habitual — que os Estados Unidos poderiam realizar uma ação militar contra o país caribenho.
“Estamos aqui porque nos cabe, mais uma vez, defender nossa soberania, nossa integridade e nossos princípios”, diz ao Brasil de Fato um estudante universitário do curso de turismo. Acompanhado por um grupo de amigos, o jovem carrega nas mãos uma enorme fotografia de Fidel.
“Nós não temos medo e, assim como em outros momentos muitos jovens pegaram em armas para defender nosso país, hoje também estamos dispostos a defender nossa pátria se os Estados Unidos ousarem”, acrescenta uma jovem do grupo.
Os últimos meses têm sido especialmente difíceis para o povo cubano. A queda em combate dos 32 heróis cubanos durante os bombardeios a Caracas e o sequestro do presidente Nicolás Maduro no início do ano marcaram um ponto de inflexão no país. O sufocamento energético ao qual o país vem sendo submetido agravou a grave crise econômica que atinge sobretudo os setores mais humildes.
Após diversas apresentações artísticas, o discurso principal do ato ficou a cargo do presidente Miguel Díaz-Canel.
Apresentado como o “companheiro presidente”, Díaz-Canel subiu ao palco vestido com uniforme militar. Suas primeiras palavras lembraram que a proclamação do caráter socialista da Revolução por Fidel Castro ocorreu após um ataque de mercenários treinados pelos Estados Unidos, na véspera da tentativa de invasão que o país sofreria em Playa Girón.
“Em 16 de abril de 1961, o Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz declarou que éramos o que seguimos sendo: uma Revolução Socialista diante do império”, afirmou, sob aplausos da multidão.

Recordando aqueles acontecimentos, mas sobretudo falando do presente do país, Díaz-Canel destacou que aqueles mercenários que tentaram invadir a ilha estavam convencidos de que “nada poderia contra a proteção que o império lhes garantia”. No entanto, acrescentou que “esperavam medo e encontraram coragem; apostaram na traição e foram enfrentados por um povo unido; acreditaram em suas mentiras e foram confrontados pela verdade, com os fuzis prontos e entoando as notas do hino”.
É difícil exagerar a importância histórica da vitória de Cuba em Playa Girón. Nunca antes o imperialismo estadunidense havia sido derrotado militarmente na América Latina e no Caribe. Toda a epopeia cubana seria marcada por esse acontecimento fundador do caráter socialista da Revolução: uma pequena ilha, sem outro recurso além de suas armas morais, tornou-se exemplo de que era possível — e ainda é — vencer a maior potência econômica e militar do mundo.
“Essa revolução dos humildes e para os humildes chegaria tão longe que um menino engraxate no capitalismo se transformaria no primeiro cosmonauta da América Latina”, afirmou Díaz-Canel, em referência ao cosmonauta cubano Arnaldo Tamayo Méndez — o primeiro afrodescendente a ir ao espaço. “Que jovens da África e de todo o Terceiro Mundo se tornariam profissionais em escolas cubanas e que compartilharíamos o sangue e o destino com os esquecidos e desprezados de sempre”.
Assim como em seu discurso após o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, Díaz-Canel fala com uma energia e ênfase pouco habituais em suas intervenções públicas. Nota-se a emoção em sua voz, que por momentos se quebra, quase ficando sem som. Todo o ambiente é de forte emoção.

Durante longos minutos, Díaz-Canel destacou “cada bomba silenciosa” que, durante a década de 1990 — no chamado Período Especial —, caiu sobre Cuba. Enumerou como, com o colapso do campo socialista, em um momento particularmente difícil para o país, os Estados Unidos intensificaram o bloqueio contra a ilha, apostando que o povo cubano não resistiria àquele período, reconhecendo que aqueles golpes “deixaram uma ferida muito dolorosa no povo cubano”.
Fazendo paralelos com outros momentos em que Cuba enfrentou diferentes agressões, o presidente Díaz-Canel encerrou seu discurso afirmando que o país atravessa um momento “extremamente desafiador”.
“O momento é extremamente desafiador e nos convoca novamente, como naquele 16 de abril de 1961, a estarmos prontos para enfrentar sérias ameaças, entre elas a agressão militar. Não a desejamos, mas é nosso dever nos prepararmos para evitá-la e, se necessário, vencê-la”.
Acrescentou que “acreditamos no diálogo e no poder extraordinário da paz para sustentar a vida no planeta”, afirmando que não há justificativas para um conflito.
“Enquanto houver um homem ou uma mulher dispostos a dar a vida pela revolução, estaremos vencendo. O caráter socialista da nossa revolução não é uma frase do passado, é o escudo do presente e a garantia do futuro. Cuba não se rende. Aqui ninguém se rende; aqui, como diz a canção, vamos fazer fogo”, finalizou.

