Nesta quinta-feira (16), o plenário da Câmara dos Deputados homenageou o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária. A sessão solene trouxe a memória dos trabalhadores rurais assassinados no massacre do Eldorado dos Carajás, no Pará, que completa 30 anos neste 17 de abril. Além de parlamentares e representantes do governo federal, marcaram presença diversos assentados e assentadas da reforma agrária, militantes e dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A iniciativa foi dos deputados federais João Daniel (PT-SE) e Lindbergh Farias (PT-RJ).
Daniel relembrou a memória e a história daqueles que tombaram na luta pelo direito à terra. “O povo precisa ter história, precisa ter memória e nós precisamos levar sempre a voz daqueles que não tiveram a oportunidade de estar aqui, que são milhares de homens e mulheres que deram a vida na história da luta pela reforma agrária no Brasil”, disse.
Uma marcha com dezenas de integrantes do MST caminhou do Ministério da Saúde até o Congresso Nacional para participar da sessão. No início da homenagem, foi apresentado um vídeo com depoimentos de assentados da reforma agrária, e durante toda a sessão houve momentos de mística e palavras de ordem.
Ao Brasil de Fato DFMarco Baratto, da direção do MST no Distrito Federal e Entorno, declarou que os mártires de Eldorado dos Carajás serão sempre lembrados como um exemplo de resistência. “Pela luta, pela resistência, e para a gente recolocar, não só a memória desses companheiros, mas recolocar a centralidade da luta pela terra, da justiça social, da soberania popular e da justeza dessa causa”.

Representante da Via Campesina Brasil, Julciane Inês Anzidalgo, afirmou que a solenidade reafirma o compromisso com a justiça, com a vida e com a luta dos povos do campo, das florestas e das águas. “Eldorado também é semente, semente de resistência, de organização e de esperança. Porque mesmo diante da dor, o povo não se calou, ao contrário, levantou, se organizou e seguiu em marcha”, destacou a militante do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC).
“A memória deles e delas vive em cada jovem que decide permanecer no campo, em cada mulher que se levanta por seus direitos e em cada comunidade que resiste”, completou.
Militante do MST e pré-candidata a deputada federal Ruth Venceremos (PT-DF), em entrevista ao Brasil de Fato DFdestacou a importância de reafirmar justiça às vítimas do massacre e reivindicar a reforma agrária no Brasil. “É fundamental que o Movimento Sem Terra continue organizado, organizando o povo, produzindo alimento para que a gente de fato avance com a Reforma Agrária Popular nesse país”.
A homenagem na Câmara integra o Abril Vermelho, mês em que o MST realiza a Jornada Nacional de Lutas em Defesa da Reforma Agrária, com ações por todo o país. A edição deste ano traz como lema Reforma Agrária contra a fome e a escravidão: por terra, democracia e meio ambiente!.

Abril Vermelho
Instituído em 2002, a partir da Lei 10.469, o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária é celebrado em 17 de abril.
Ceres Hadich, do escritório nacional do MST em Brasília, celebrou o uso do espaço da Câmara para reivindicar o avanço da reforma agrária no país. “A reforma agrária é o caminho para a paz no campo, que é o caminho para o Brasil mais justo, produzindo alimento saudável, cuidando do meio ambiente e das pessoas”.
A parlamentar Erika Kokay (PT-DF) também expressou seu apoio ao MST. “Aqui se constrói um projeto de desenvolvimento nacional, onde nós possamos ter a agroecologia, onde nós possamos estar fazendo com que a comida chegue na mesa do povo brasileiro”.
No início do ano, o presidente Lula (PT) e o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, anunciaram uma série de medidas para a reforma agrária, envolvendo um total de 113,7 mil hectares de terras, o que deve beneficiar 5.268 famílias em diferentes estados do país, número que representa apenas 3,8% das 140 mil famílias acampadas.
Idalice Nunes, da direção nacional do MST, ressalta a questão estrutural da reforma agrária e manifesta que apesar dos avanços, a mudança real só acontecerá com a reforma agrária. Além disso, a representante ressaltou a importância de eleger mais homens e mulheres que defendem a pauta da terra.
“Reafirmamos que a cada Abril Vermelho faremos ocupações, marchas e doação de alimentos, pois boa parte do que a sociedade consome hoje é fruto da luta iniciada em 1996”.

Massacre do Eldorado dos Carajás
O dia 17 de abril de 1996 ficou marcado pelo assassinato de 21 trabalhadores rurais, em Eldorado dos Carajás, no Pará, por pistoleiros a serviço de latifundiários e madeireiros locais.
Na época, mais de 1.500 trabalhadoras e trabalhadores rurais sem-terra montaram um acampamento após serem expulsos de suas próprias terras. Eles decidiram ir à capital do estado para apresentar suas demandas. Mas, chegando a Eldorado do Carajás, foram surpreendidos por policiais militares que mataram 21 trabalhadores e deixaram 69 feridos.
O deputado federal Airton Faleiro (PT-PA) vivenciou o momento e lamentou o triste episódio. “Nada foi tão forte como chegar lá e ver 19 corpos em cima de um caminhão chegando da curva do S para Marabá. Fui ajudar a procurar os corpos lá e hoje estamos aqui 30 anos depois”.
O acontecimento repercutiu dentro e fora do país, tornando-se um símbolo da luta contra a violência no campo, a concentração fundiária e a impunidade nos conflitos agrários.
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