O apito de cachorro, a loucura e as falsas virtudes

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Esta semana, as grandes agências de comunicação apontaram evidências da derrota norte americana no Irã. E foram além. Até o O jornal New York Times passou a reconhecer que Trump não está regulando bem da cabeça, e que pode ser apeado do governo com base na 25ª emenda (uma saída constitucional para retirada de malucos, daquele cargo onde os idiotas obedientes são bem vindos). Como que para confirmar isso, Trump disse que mandaria bombas sobre navios que pagassem pedágio para passar pelo estreito de Ormuz, abrindo guerra contra todos os países do mundo. Ok, voltou atrás. Mas para não deixar barato, se apresentou vestido de salvador celeste. e atacou o Papa.

Na mesma semana o fugitivo da justiça, ex-poderoso cúmplice de Bolsonaro, naquela mais recente tentativa de golpe de estado, Alexandre Ramagem, foi preso e depois teve sua prisão relaxada, nos EUA.

Para completar, o Climatempo anuncia que está se armando um super o meninocom calor  de rachar, chuvas torrenciais, secas, incêndios, enchentes, doenças, queda na oferta de alimentos, inflação e carestia.

Como se fosse pouco, pesquisas de opinião dizem que vem caindo a compreensão do povo, a respeito dos sucessos do governo Lula e da importância de sua reeleição (e de mudança radical, com qualificativa do perfil de senadores e deputados que controlam o congresso), para contenção, entre nós, de ideologias fascistas que ameaçam o mundo inteiro.

Felizmente ao menos em Porto Alegre estão acontecendo eventos que ajudam a entender o que está por trás da realidade que nos assusta. E pretendo aproveitar este espaço para comentar alguns deles, que podem nos ajudar a desmontar parte das armadilhas que nos cercam. Quero chamar atenção para os méritos de atividades programadas pelo Sul21 e Brasil de Fatobem como do filme Virtuosoque fez enorme sucesso durante este último Fantasia.

Uma introdução: a conexão entre aqueles horrores anunciados nos primeiros parágrafos e os temas de que estou ameaçando tratar a seguir dizem respeito à construção planejada de parâmetros que nos são inconscientes, e que uma vez estabelecidos operam como filtros internos, orientando nossa percepção da realidade. Se trata, objetivamente, da construção programada da ignorância. Diz respeito à formatação de mecanismos de controle social que induzem a população à apatia (em relação a problemas reais e seus responsáveis). Mas não fazem apenas isso. Eles transmutam inseguranças naturais em reações de medo, promovendo sentimentos de raiva e ódio cego, que passam a ser direcionados a alvos imaginários escolhidos a dedo pelos donos do poder. Aí estão os iranianos, os comunistas, os ambientalistas, os sanitaristas, os jornalistas críticos, os “diferentes” e todos aqueles “outros”, rotulados como inimigos da vez.

Entre as implicações óbvias do uso generalizado de estratégias midiáticas construtoras daquelas distorções, temos o sucesso de lideranças promotoras de alterações legislativas favoráveis à degradação da civilidade e dos ecossistemas. Isso, que se percebe facilmente naqueles espaços rurais onde o avanço do agronegócio ecocida acelera o aquecimento global e altera paisagens inviabilizando comunidades inteiras pela destruição de suas bases ambientais, tem seu paralelo nos ecossistemas urbanos. Nas cidades a destruição de normas protetivas passa pela “flexibilização” dos Planos de Diretores de Desenvolvimento Urbano, que a grosso modo poderiam ser comparados com nossa Constituição Federal Cidadã, que os vendilhões da pátria vêm tentando destruir pelas beiradas, com a edição de leis tão vergonhosas como o Pacote do Veneno, o Pacote da Devastação, o Marco Temporal e, o famigerado e ainda não totalmente enterrado Pacote da Impunidade Criminal, que só não está valendo por conta de reações populares que impediram sua aprovação.

O fato é que o acesso a informações honestas tende a qualificar interpretações e a estimular ações reivindicatórias por parte da sociedade organizada. A expectativa é de que uma vez compreendidos os fatos e esclarecidas as responsabilidades dos agentes públicos coniventes com iniquidades, será estimulada uma crescente participação popular em processos de elaboração/monitoramento de políticas públicas. Espera-se, também, uma gradativa ampliação no nível de exigência dos eleitores, com impacto positivo sobre o perfil dos representantes da sociedade, em todos os níveis dos poderes executivo e legislativo.

Sem isso, as conexões entre o avanço da extrema direita metamorfoseada de empresários do agro, de soldados do messias, de defensores da pátria-família-e-liberdade e as flexibilizações legislativas (e as privatizações de bens públicos) que eles tanto se empenham em promover, tenderão a se multiplicar, agravando especialmente as vulnerabilidades daquelas populações estabelecidas em áreas de sacrifício.

Pois bem, esclarecimentos importantes a respeito de ameaças ao ecossistema urbano da região metropolitana de nosso estado, com foco na capital gaúcha, estão sendo discutidos em seminários promovidos pelos jornais Sul21 e Brasil de Fato, com o apoio do Instituto dos Arquitetos do Brasil-RS (IAB-RS) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

No dia 30 de março durante o ciclo de debates “Que Futuro Queremos?” a pergunta básica foi esta: “O Novo Plano Diretor Respeita o Direito à Cidade?”,

As respostas foram esclarecedoras. Em uma cidade onde as regras em vigor (Plano diretor de 2010) estabelecem altura máxima de 45 metros para construções urbanas, e onde algumas regiões (centro e 4º distrito) já obtiveram flexibilizações em planos específicos que autorizam prédios de até 90 metros, a base do prefeito Melo traz um Plano Diretor Urbano Sustentável que viabilizará prédios com 130 metros de altura. Trata-se de legalização da degradação do ecossistema urbano, com implicações sobre todos os serviços públicos. Ocorrerá sobrevalorização de espaços em áreas que já estão incluídas no universo da cidade moderna, demandando recursos que faltam para o atendimento de regiões carentes, que deveriam ser prioritárias. Participantes do seminário também apontaram descaso a questões essenciais estreitamente relacionadas às tragédias ambientais. Questionamentos sobre arborização, escoamento pluvial, prevenção de enchentes, recuperação de áreas insalubres e, principalmente, acusações de desrespeito a normas legais que exigem consultas públicas e participação popular. Estes e outros elementos se colocam naquele contexto de ocultação da realidade favorecida pelo patrolamento exercido por uma maioria legislativa despreocupada em relação à opinião popular e pouco prudente em relação às implicações de suas posturas. O documento Donos da Cidade é suficientemente esclarecedor a respeito de quem se beneficia da degradação do ecossistema urbano em Porto Alegre, apontando relações entre aqueles interesses e o que aqui se veicula nas mídias de comunicação de massa

No dia 4 de maio, durante o ciclo de debates “Que Futuro Queremos?” a discussão será sobre o que aprendemos, o que mudou nesta cidade, após as enchentes de 2024 e, principalmente, para onde estamos indo. O evento incluirá um painel sobre “As mudanças climáticas e a soberania alimentar”, onde movimentos populares e entidades representativas da agricultura familiar de base agroecológica descreverão seus avanços, suas limitações e perspectivas, considerando o escopo legal existente e os apoios necessários à garantia de oferta de alimentos limpos, para as populações urbanas. No fechamento dos seminários daquele dia, a pergunta básica será esta: “Como a ciência está enfrentando as mudanças climáticas?”.  Com certeza todos que participarem terão muito a contribuir com este esforço de autoaperfeiçoamento coletivo para a construção da cidade politizada que já tivemos e que queremos voltar a ter em Porto Alegre.

Não se trata de um caminho fácil, até porque, como já comentado, existem máquinas deformadoras da autonomia, criando modelos e padrões a serem evitados ou seguidos, amados ou odiados, e sempre em favor dos manipuladores daquelas máquinas. E este é o tema subjacente ao filme Virtuosas, que não vou comentar para não dar mais do que o mínimo necessário para motivar bons expectadores. Tema relacionado ao apito do cachorro, aquele sinal tão discreto como dominador, que alerta, atrai, domina e cativa todas as pessoas que estão sendo preparadas para se incorporar ou resistir à alcateia.

Ótima fotografia, ótimas atrizes. Obra de arte, realismo antifascista com tons de humor e de horror. Um filme feminista, instigante, sensível, inteligente, feito por mulheres empenhadas na construção daquela consciência que precisamos, para enfrentar o medo e reconstruir o mundo.

Uma música? O tema do filme.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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