O espetáculo pernambucano “O Irôko, a Pedra e o Sol” retorna aos palcos do Teatro Hermilo Borba Filho, no centro do Recife, com uma nova temporada que alia arte, crítica social e políticas de inclusão. As apresentações acontecem nesta sexta-feira e sábado (17 e 18), às 19 horas, e no domingo (19), às 17 horas.
Criado em 2022, o espetáculo mistura canto, dança, música e memória em uma narrativa afroancestral com forte identidade pernambucana. A direção é de Samuel Santos, e a obra é assinada coletivamente pelo grupo O Poste Soluções Luminosas, dentro do projeto “Luz negra: o negro em estado de representação”, viabilizado pelo Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas, da Fundação Nacional de Artes, vinculada ao Ministério da Cultura.
A dramaturgia parte da história de dois adolescentes, Severino e Sebastião, que vivem um romance em uma comunidade quilombola do sertão pernambucano. Ao serem descobertos, enfrentam o preconceito e a violência de uma sociedade marcada pela desinformação e pela repressão, especialmente após um deles contrair HIV. A narrativa dialoga com um caso real ocorrido no Ceará nos anos 1990, quando uma jovem soropositiva foi isolada pela própria família e comunidade em meio ao desconhecimento sobre a doença.
A iniciativa busca, além de atrair espectadores habituais, alcançar quem nunca teve contato com o teatro, estimulando o interesse pela arte como ferramenta de educação e transformação social. Além da política de gratuidade, o espetáculo também incorpora recursos de acessibilidade, como tradução em Libras para pessoas com deficiência auditiva, e destina 10% da renda da bilheteria a uma instituição que acolhe jovens travestis, trans e soropositivos em situação de vulnerabilidade. Retirada do ingresso antecipadamente no link.
Com ingressos a R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira) para o público geral, a montagem tem classificação indicativa de 16 anos e duração de duas horas.
Como parte de uma ação afirmativa, a produção garante gratuidade para pessoas travestis, trans e soropositivas, mediante retirada antecipada de ingressos online, reforçando o compromisso do projeto com o acesso democrático à cultura e com a ampliação de públicos no teatro. Em cena, são abordados temas como LGBTfobia, racismo religioso, violência contra a mulher, sorofobia, evangelização em territórios quilombolas, além de amor, fé e homoafetividade negra.
A trilha sonora é executada ao vivo, reunindo 15 músicas autorais que dialogam com tradições de matriz africana como Umbanda, Candomblé, Jurema Sagrada e Xambá. As composições têm letras de Samuel Santos e arranjos assinados por Beto Xambá e Thulio Xambá, com participação de músicos ligados ao grupo Bongar. Nesta temporada, o percussionista Ninho Brow integra o espetáculo como convidado.
O elenco é formado por 12 artistas afropernambucanos que atuam, cantam e dançam coletivamente, reforçando o protagonismo negro e periférico nas artes cênicas. A montagem também se destaca pelo figurino, concebido como gesto político que dialoga com ancestralidade, combinando referências africanas com elementos simbólicos de opressão e apagamento cultural.
Reconhecido como um dos espetáculos mais aclamados de Pernambuco em 2023, “O Irôko, a Pedra e o Sol” já passou por diversos teatros e festivais no estado e conquistou o Prêmio Sesc Nacional de Artes Cênicas em 2022. Nesta nova circulação, a temporada teve início no terreiro Ilê Àse Òrìsànlá Tàlábí, em Paulista, reafirmando o vínculo da obra com territórios de matriz afro-brasileira.
A proposta do espetáculo, segundo o diretor, é provocar reflexão sobre as violências históricas e contemporâneas que atravessam corpos e territórios, ao mesmo tempo em que celebra a resistência e a potência das culturas afro-indígenas.

