Olá, com popularidade em baixa, uma crise internacional dos combustíveis e um adversário de extrema direita, Lula depende do voto dos trabalhadores.
.Vote com moderação. A candidatura de Flávio Bolsonaro segue de vento em popa. Na última pesquisa Quaest, ele já aparece com pequena vantagem sobre Lulaainda que dentro da margem de erro. O que se explica por diferentes fatores. Enquanto Lula segue perdendo apoio entre católicos, mulheres e eleitores entre 35 e 59 anos, Flávio cresceu entre os homensjovens (16 a 34 anos) e entre os que recebem de 2 a 5 salários mínimos. Mas o mérito não é tanto de Flávio, já que a principal motivação do eleitor que vota na oposição é o antipetismo. Lula segue firme entre os eleitores que recebem menos de 2 salários mínimos e aqueles com mais de 60 anos. Para o Planalto, parte da explicação seria da falha de comunicação, que não teria ressaltado ao longo dos últimos quatro anos o nível de destruição econômica e social que Lula herdou em 2023. O quadro atual é acompanhado por mudanças no sistema partidário: o PL ganhou 44 mil filiadose vai se tornando o principal partido de massas do paísenquanto o PT perdeu mais de 4 mil. Não é pouca coisa. E o fenômeno também passa pelas redes, com o perfil de Flávio Bolsonaro ganhando 38% de novos seguidores em 6 meses. Claro, o jogo não está ganho e o sucesso de Flávio depende da capacidade de projetar-se como um perfil mais moderado que seu pai, ganhando os votos de centro mas sem perder a simpatia do bolsonarista raiz. Aqui é que a coisa complica. Segundo o cientista político Fernando AbrucioFlávio tem a vantagem de ter um perfil mais tradicional que Jair Bolsonaro. Mas ainda precisa provar que não veio para devastar as políticas públicas, não tratará adversários como inimigos, não isolará o Brasil no cenário internacional e abandonou de vez os anseios golpistas. Alguém acredita? Para o eleitor desconfiado, restaria votar em algum dos candidatos que tentam surfar a onda de rejeição ao petista e ao bolsonarista e que podem incluir (surpresa!) o eterno presidenciável Ciro Gomesde volta às raízes abraçado em Aécio Neves no PSDB. É que, até agora, a única alternativa que pode ser levada a sério é Ronaldo Caiado. Nesse caso, ironicamente, todo mundo comemora: para os aliados de Flávio, Caiado contribuirá para levar a disputa para o segundo turnoe para os lulistas, ele ajudará a dividir os votos do bolsonarismo e enfraquecer Flávio.
.Agora é luta de classes! Para o eleitor, a questão chave é saber se, ao passar a régua e fechar a conta, o governo foi bom ou foi ruim. Portanto, Lula não poderá esperar a campanha eleitoral e o problema é que, no Brasil, não se faz um omelete de política popular sem quebrar os ovos da classe dominante. No caso da proposta de extinção da escala 6X1 isso é evidente. Por um lado, as centrais sindicais e movimentos populares ensaiaram ir às ruasmas ainda com baixa capacidade de mobilização. Já a estratégia do empresariado e da oposição é criar confusão dentro do Congresso. Essa vai desde a obstrução aberta de qualquer proposta por parte dos bolsonaristas na CCJ da Câmara, até a tentativa de focar na redução da jornada de 44 para 40 horas sem mexer na escala, passando ainda pela sugestão de adiar a discussão para depois das eleiçõesem um ambiente que seria menos politizado, leia-se, mais vantajoso para o patronato. O que mostra que a luta será dura daqui pra frente. De sua parte, o Planalto tenta acelerar o processo com o envio de um Projeto de Lei de autoria do Executivo que entra em regime de urgência no Congresso, tendo um prazo de 45 dias para ser votado antes de trancar a pauta. Porém, isso também cria uma dualidade com a PEC já existente sobre o mesmo tema que passa a ser explorada pelo centrão. Embora o fim da escala 6×1 seja a prioridade número um do Planalto, todo mundo sabe que não haverá bala de prata nessas eleições e outros temas também são importantes. A LDO vem aí e, em breve, terá que ser votada no Congresso e um dos pontos em disputa deve ser o valor do salário mínimo para o ano que vem. Já no tema dos combustíveis, a disputa é tanto para conter a especulação interna de distribuidoras e postos, quanto para comunicar quem são os verdadeiros responsáveis pelo aumento de preçoso que inclui a disputa entre o Planalto e os governadores sobre o peso dos tributos federais e estaduais. A reestatização de distribuidoras de combustíveis e gás começa a ser aventada pela base do governo no Congresso, mas ainda de forma muito tímida, e o futuro da proposta dependerá do andar da crise externa e interna. E para completar o conjunto da obra, a campanha de Lula deve incluir a tarifa zero no transporte público no leque de bandeiras eleitorais.
.Tiroteio na Praça dos Três Poderes. Considerando os episódios tumultuados e tóxicos que marcaram a relação entre o Planalto e o Congresso no último ano, esta semana foi um mar de tranquilidade. Tanto Hugo MottaQuanto David Alcolumbre foram decisivos, entrando em campo pessoalmente para garantir a aprovação do candidato petista ao TCU Odair Cunha. Antes disso, Motta já havia atendido o governo e retirado da pauta a votação da regulação do trabalho por aplicativojá que não há consenso entre as propostas do Executivo e do Legislativo. E, no Senado, Jorge Messias deve ter uma sabatina muito mais tranquila do que a rejeição que se desenhava no fim do ano. O armistício entre Lula e os presidentes das casas não significa necessariamente uma paz duradoura. Na Câmara, amigos, amigos, direitos à parte, como mostra as dificuldades para avançar no fim da escala 6×1. E no final do mês virá a prova dos nove com a votação dos vetos de Lula ao PL da Anistia. Nesta semana, as dores de cabeça do Planalto vieram de onde não se esperava. Até então, o relator da CPI do Crime Organizado Alessandro Vieira (MDB-SE) estava contabilizado na quota governista e vinha conduzindo a CPI sem os mesmos arroubos eleitorais da falecida CPI do INSS. Mas, na reta final, Vieira decidiu ignorar Daniel Vorcaro e asseclas no caso do Banco Master, alegando que faltavam provas, e centrar toda a munição em Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Curiosamente, Kassio Nunes, que também tem suas relações com a turma do Master, foi poupado. O relatório fraco e insustentável foi derrubado, mas só depois que o governo entrou em campotrocando integrantes, numa operação de emergência. O episódio todo cheira a armadilha política. Na semana passada, Lula adotou um discurso que mantinha o apoio, mas distanciava o Planalto do STF no caso Master. O relatório de Vieira obrigou o governo a vir à galope em defesa da Corte e, na sequência, Flávio Bolsonaro entrou repetindo o discurso do pai sobre as suspeitas de manipulação do processo eleitoral pelo STF, batendo em Moraes para bater no governo e associar um ao outro. O tiroteio seguiu com Gilmar Mendes ameaçando acionar a PGR contra os senadores ou de regular a criação de novas CPIs. Mas, tudo isso é apenas mais um episódio na guerra entre dois poderes que não admitem freios, muito menos vindos um do outro. Na prática, de imediato, o fato serviu para coesionar novamente um STF dividido em temas como o Banco Master, a agenda ética de Fachin e as eleições-tampão no Rio.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.Massacre de Eldorado do Carajás: sobrevivente tem bala no olho há 30 anos. José Carlos Agarito Moreira foi assentado e viveu na roça por 20 anos, mas deixou a terra após o agravamento das sequelas. No Repórter Brasil.
.Ditadura fez dossiê sobre ‘familiocracia’ dos Caiado no Governo de Goiás. Até os militares desconfiavam dos Caiado, que enchiam de parentes o governo de Goiás. Na Folha.
.Endividamento das famílias e frustração da juventude impactam popularidade de Lula. No Intercept, Juliane Furno explica as razões da má avaliação do governo entre os eleitores.
.Vídeos criados com IA incitam violência contra mulheres por motivação política. Vestidas com camisetas do PT, mulheres aparecem sendo agredidas em vídeos que circulam nas redes. Leia na Lupa.
.“Se a gente não se revoltar, nada vai mudar”. A Piauí conta a história do vídeo publicado no TikTok em 2023 que colocou em pauta o fim da escala 6×1.
.Nunca Mais: A operação secreta que salvou a maior denúncia contra a ditadura. Livro do jornalista Camilo Vannuchi resgata a luta pela memória e verdade sobre a tortura durante a ditadura. no GGN.
Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

