Dengue pode aumentar em 17 vezes o risco de síndrome rara, diz Fiocruz

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Estudo inédito da Fiocruz apontou risco 17 vezes maior de desenvolvimento da Síndrome de Guillain-Barré (SGB) em pessoas que contraíram o vírus da dengue. Nas primeiras semanas da infecção, o risco de desenvolvimento chega a ser 30 vezes maior.

O estudo foi recém-publicado na revista científica New England Journal of Medicine e desenvolvido por pesquisadores da Fiocruz Bahia. O método de pesquisa combinou a análise de três bancos de dados diferentes do Sistema Único de Saúde (SUS): internações hospitalares, notificações de casos de dengue e registros de óbitos.

A análise identificou que 89 das mais de 5 mil hospitalizações por SGB entre 2023 e 2024 ocorreram logo após o paciente apresentar quadro de dengue. Até então, nenhum estudo tinha sido capaz de confirmar uma correlação entre as duas doenças.

GBS é uma condição neurológica rara na qual o próprio sistema imunológico ataca os nervos que conectam o cérebro à medula espinhal. Como consequência, os pacientes podem apresentar fraqueza muscular severa, que geralmente começa nas pernas e pode subir para os braços, o rosto e, em casos graves, dificultar a respiração.

Para Viviane Boaventura, uma das autoras do estudo e pesquisadora da Fiocruz Bahia, a confirmação da relação entre as doenças é positiva: “O estudo permite que o que antes era tratado como casos isolados ou hipóteses passe a ser reconhecido como evidência concreta”. Boaventura avalia que os ganhos clínicos são diretos, facilitando o diagnóstico precoce e tratamento mais eficaz.

Epidemia de dengue e vacinação

Em 2024, o Brasil enfrentou a pior epidemia de dengue de sua história e chegou a registrar 4.013.746 casos prováveis de dengue, 3.809 mortes, além de 232 óbitos em investigação.

Como uma das principais medidas adotadas, o Ministério da Saúde (MS) incorporou o teste rápido para o diagnóstico da dengue na tabela de procedimentos custeados pelo SUS. A medida visa acelerar o diagnóstico, uma vez que é possível identificar a contaminação viral já nos primeiros dias, após o surgimento dos primeiros sintomas: febre alta, dor no corpo e mal-estar.

Outra importante ação do MS foi a aprovação da vacina contra a dengue, desenvolvida pelo Instituto Butantan. O imunizante demonstrou eficácia de 80,5% contra dengue grave, e apresentou proteção duradoura contra formas graves da doença por pelo menos cinco anos, conforme publicado em estudo clínico da revista científica Nature Medicine.

Boaventura destaca que a imunização e a consequente redução no número de infecções impactam os casos típicos, mas também todo o espectro de complicações graves – incluindo SGB. “Prevenir um caso de dengue significa, potencialmente, evitar uma internação neurológica, semanas de ventilação mecânica e sequelas permanentes”, comenta a pesquisadora.

O Ministério da Saúde adquiriu 3,9 milhões de doses da vacina e, desde fevereiro, profissionais da saúde que atuam na atenção primária do SUS estão sendo vacinados. O esquema vacinal é composto por duas doses e o calendário prevê a imunização da população ao longo de 2026, de acordo com a faixa etária e priorizando grupos de risco.

Em declaração à CNN Brasilo Dr. Roberto Kalil considerou a vacinação com o imunizante do Butantan um ato “histórico”. “Eu tive a honra de participar desse dia histórico, momento histórico. É uma vacina única no mundo. Isso é um orgulho para nós, brasileiros, graças ao Instituto Butantan”, declara.

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