Atropelamento fatal de militante do MST no Recife completa um ano; acusado ainda não foi julgado

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Fazia dois anos desde que o trabalhador rural Gideone Sinfrônio de Menezes Filho, conhecido por “Sapato”, havia deixado a rotina do trabalho com maquinários pesados em uma usina de cana da Mata Norte de Pernambuco para trabalhar a terra e participar da luta pela reforma agrária junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Mudando-se para a comunidade assentada de Barreirinha, em Goiana, o ex-mecânico se encontrava em uma das fases mais entusiasmadas e com propósito em 67 anos de vida, recorda a família.

A nova trilha escolhida por Gideone foi interrompida em abril de 2025, quando o agricultor foi atropelado durante uma marcha do MST na no Recife (PE), durante o Abril Vermelho, tradicional jornada de lutas do movimento. O condutor do veículo passou com duas rodas por cima de seu abdômen, ferindo-o gravemente. O sem-terra foi encaminhado desacordado e com uma fratura exposta para uma UPA.  Pouco mais de um mês depois, Gideone faleceu, deixando três filhos.

O motorista do veículo, identificado como Thiago Felismino de Almeida, teve sua prisão preventiva decretada em 22 de abril de 2025. Ele segue preso e o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) apresentou uma denúncia pelo crime de homicídio doloso. O processo corre na 4ª Vara do Tribunal do Júri  do Recife. Nas últimas semanas, foram realizadas audiências de instrução com testemunhas de defesa e acusação para que se decida se o caso segue para júri popular.

O acusado também foi ouvido durante as oitivas e afirmou não ter se arrependido do fato, sustentando a tese de que se tratou de um acidente após ter sido supostamente hostilizado durante a marcha, não tendo avistado Gideone em sua frente. A acusação aponta que as provas anexadas nos autos são robustas na comprovação do dolo do atropelamento, sobretudo as imagens de câmeras de segurança do entorno da avenida General San Martin, onde o condutor atropelou o idoso.

“Temos provas fortes nos autos de que ele fez de modo doloso e viu Gideone na frente dele, de que ele acelerou o carro para cima da marcha. As imagens do local mostram que Gideone chegou a ficar pendurado no capô e, mesmo assim, ele seguiu com o veículo”, afirma Manuela Abath, advogada criminalista, integrante do setor de Direitos Humanos do MST e que tem atuado na assistência de acusação do caso.

A acusação espera Thiago Almeida vá ao Tribunal do Júri Popular. “A gente sabe que podemos ter pré-julgamentos sempre que o MST está envolvido nos processos. Mas confiamos muito que o povo seja capaz de avaliar que ele foi extremamente covarde ao atropelar um homem idoso em uma marcha pacífica”, conclui Abath.

A defesa de Thiago, representada pelos advogados André Braga Franco e Lozymayer Renato do Franco, Cabral & Silva, “rejeita categoricamente” a versão de que houve intenção de homicídio por parte do motorista. “A principal premissa utilizada pela acusação — a suposta manobra de marcha à ré sobre a vítima — não se sustenta. As provas produzidas, inclusive com imagens do ocorrido e retratações de testemunhas de acusação, demonstram que essa versão não corresponde aos fatos”, diz a defesa em nota ao Brasil de Fato.

Os advogados ainda entendem que a prisão de Thiago é “injusta e juridicamente insustentável” diante das provas apresentadas nos autos, considerando sua reclusão como uma medida desproporcional. Eles esperam que seja feita uma “correção no curso do processo”, reavaliando a manutenção de sua prisão e a imputação penal do condutor.

Nova luta interrompida

Gideone trabalhou durante a maior parte de sua vida na Usina Maravilha, em Goiana, na Mata Norte do estado, atuando como mecânico de máquinas pesadas. Segundo o seu filho mais velho, Geyson Cley, sua rotina era ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa, sempre nutrindo um desejo de ter um pedaço de terra para cultivar e seguir sua vida.

Foi o que aconteceu em 2023, quando, após se aposentar, deixou o ofício de mecânico e se juntou à luta do assentamento no Engenho Barreirinhas, também em Goiana, ocupado naquele mesmo ano. Segundo o MST, a área foi desapropriada em 2013 pelo Governo do Estado, mas a Usina Santa Tereza ainda mantinha o controle das terras. Cerca de 300 famílias se instalaram na localidade.

Desde então, sua rotina passou a ser de cuidados com a terra, plantando, cultivando e se juntando aos mutirões de trabalho do assentamento. Geyson via nascer em seu pai um novo propósito e felicidade no bojo da luta pela reforma agrária. “Tinha dois anos já que ele tinha se juntado com o MST e vinha sendo uma fase ótima na vida dele. No dia da marcha, ele estava feliz da vida, gritando, dançando, até acontecer o que aconteceu”, relembra Geyson.

Além de Geyson, de 41 anos, Gideone deixou outros dois filhos: Geydson Iggo, de 39 anos, e Ana Paula, de 30 anos. O sem-terra é lembrado como uma pessoa extrovertida e alegre pelos familiares e amigos, tendo o plantio e a pescaria na praia como suas atividades favoritas no dia a dia. Agora, a família espera que o caso tenha a melhor conclusão possível. “Do jeito que esse cara fez com ele, poderia ter feito com crianças ou outros idosos. É uma loucura. Esperamos que a justiça seja feita”, conclui Geyson.

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