Massacre de Eldorado do Carajás, 30 anos: a marcha que não terminou

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Há 30 anos, a Curva do S, em Eldorado do Carajás (PA), foi palco de um massacre que marcou para sempre a luta dos trabalhadores rurais no Brasil. Em 17 de abril de 1996, policiais militares mataram 19 trabalhadores rurais durante uma marcha em defesa da reforma agrária. Outras duas pessoas morreram nos dias seguintes, elevando para 21 o total de vítimas do Massacre de Eldorado do Carajás.

Trinta anos depois, a memória das vítimas segue viva por meio de homenagens, protestos e resistência em defesa da garantia de terra para camponeses. Naquele momento, a reforma agrária entrou em pauta e a revolta deu lugar à luta.

“É com o Massacre de Eldorado dos Carajás que a reforma agrária entra na pauta, quando camponeses do mundo inteiro se mobilizam em solidariedade aos massacrados”, afirma Gilvânia Ferreira, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “O episódio veio marcado pelo pensamento de que a terra não pode ser dividida, de que ela não é uma bandeira só dos trabalhadores do campo e precisa, sim, ser reorganizada, repensada, colocada no cenário nacional”.

Enterro dos trabalhadores rurais assassinados no Massacre de Eldorado do Carajás. Foto: João Roberto Ripper | Crédito: João Roberto Ripper

A pressão por justiça e reforma agrária consolidou os anos 1990 como o período em que mais famílias foram assentadas na história do país. A partir daí, as demandas avançaram para além da terra: os camponeses passaram a reivindicar melhores condições para a produção de alimentos.

“Foi a partir dessa pressão nacional dos movimentos sociais do campo, mas também das organizações da classe trabalhadora da cidade, que a reforma agrária veio com essa força, com essa expressão da necessidade da construção de uma aliança entre o campo e a cidade para dizer que é possível, sim, a terra estar na mão dos trabalhadores, e que essa terra que produz vai alimentar aqueles e aquelas que vivem na cidade”, diz Gilvânia. “É nessa pauta que o MST se coloca, de produzir alimentos saudáveis e matar a fome do povo brasileiro”.

O dia 17 de abril ficou marcado como o Dia Internacional da Luta Camponesa. O mês de abril se tornou o Abril Vermelho, marcado por reivindicações e ocupações em todo o país.

Monumento das Castanheiras Mortas foi erguido na Curva do S, em 1999. Foto: Arquivo do MST

Entre os camponeses, os nomes das vítimas e as lembranças do massacre se tornam farol rumo à reforma agrária.

“Nós temos várias escolas que homenageiam toda essa luta dos trabalhadores, e em particular de um grande militante, que foi Oziel Alves Pereira”, conta Gilvânia. “Brigadas de trabalho de base, organização de grupos de jovens, assentamentos, acampamentos, associações e cooperativas, escolas, ruas. O nome Oziel Alves Pereira é esse símbolo da resistência, da luta, do pertencimento a uma classe em defesa da reforma agrária, da democratização do acesso à terra”, diz.

Gilvânia explica que Oziel Alves se destaca, especialmente, por ter sido a vítima mais jovem do Massacre de Eldorado do Carajás. Aos 17 anos, antes de se ser assassinado, gritou por reforma agrária na frente da polícia.

“Oziel traz para a gente a força da juventude e a esperança de um povo de que é possível vivermos no campo sem violência. Quando ele grita: “Viva o MST, Viva a Reforma Agrária” em um momento extremamente violento, ele traz para a gente a esperança de que a resistência e o nosso grito possam ser ecoados em todos os lugares do nosso país e de que a reforma agrária seja uma realidade na vida dos camponeses e camponesas no nosso Brasil, no nosso Maranhão, na nossa querida Amazônia”.

Formado no Acampamento Pedagógico Oziel Alves, Pablo Neri é um dos dirigentes do MST. Foto: Arquivo

Após o massacre, a região Amazônica intensificou a formação de jovens e a inserção nas tarefas de mobilização e luta por reforma agrária. Pablo Neri, hoje dirigente nacional do MST, é um dos jovens que compõem essa fase.

“Me forjei militante e abracei a causa da Reforma Agrária lá na Curva do S, na construção do acampamento pedagógico da juventude Sem Terra, um espaço que há 20 anos traz à tona a memória do Massacre de Eldorado do Carajás e que homenageia um dos massacrados, Oziel Alves Pereira, um jovem de 17 anos que foi torturado na frente dos seus companheiros como forma de exemplo, para que a luta dos trabalhadores fosse impedida”, conta.

Acampamento Pedagógico Oziel Alves é marcado pela formação política de jovens. Foto: Marcelo Cruz | Crédito: Marcelo Cruz

Entre os espaços se destaca o Acampamento Pedagógico Oziel Alves, erguido todos os anos, desde 2006, como um espaço de formação voltado para a juventude do campo com objetivo de ressignificar o local, repor a memória dos mártires e fortalecer a luta por reforma agrária.

“O Movimento Sem Terra transformou o S de sangue em S de sonho e edificou na memória do Eldorado do Carajás um triunfo sobre a morte, a partir do momento em que nasceram novas ocupações, novos processos de luta e que falaram em bom tom aos nossos inimigos, ao latifúndio, que a violência jamais calará a voz da vida. Por isso Oziel renasce todos os anos na Curva do S, através da juventude empunhando bandeiras, fazendo homenagens e se forjando militantes da luta pela reforma agrária”, afirma Neri.

“O Brasil assistiu o massacre perplexo e o MST transformou essa dor no triunfo sobre a violência, no triunfo sobre o medo, no triunfo sobre a chacina, construindo escolas, fazendo novos territórios, ampliando a sua produção, incentivando que mais jovens, assim como eu, se engajem na luta, porque o chão regado a sangue é semente, onde a flor brota mais forte”.

Em marcha de cinco dias, camponeses cobram reforma agrária. Foto: Marcelo Cruz

Marcha Interrompida

Trinta anos depois, o MST ainda cobra justiça. Os 155 policiais militares envolvidos no massacre foram absolvidos e os comandantes da operação, coronel Mário Colares Pantoja e Major José Maria, foram julgados apenas 16 anos após o massacre, e apesar de condenados, não cumpriram a pena, como aponta Pablo Neri.

“Nesse momento em que a gente lembra dos 30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, nós lembramos da impunidade, nós lembramos que nenhum dos envolvidos e dos mandantes foi condenado ou respondeu de forma efetiva as condenações recebidas. Nós também lembramos dos sobreviventes que hoje ainda carregam as balas alojadas nos seus corpos. Também lembramos das viúvas, das crianças que ficaram órfãs sem seus pais, vítimas dessa chacina, desse assassinato”, diz.

Neste ano de 2026, que marca os 30 anos do Massacre e 20 anos do Acampamento Pedagógico, o MST retomou a Marcha Interrompida naquele 17 de abril de 1996, com cerca de 3 mil participantes nas estradas entre Curionópolis e Eldorado do Carajás (PA).

Ao longo de cinco dias de marcha, de 13 a 17 de abril, camponeses entoam o lema: “A voz pela vida calará a ambição” e cobram a efetivação da reforma agrária no Brasil.

“Além de lembrar nossos mortos trinta anos do Massacre de Eldorado do Carajás, nós temos o dever e a responsabilidade de lutar por terra para trabalhar. A maioria dos companheiros e companheiras que estão aqui nessa marcha, sob sol e chuva, estão em condições difíceis de vida, mas não têm medo ou vergonha de lutar por seus direitos e melhores condições de vida”, declarou o vereador do município de Parauapebas, no Pará, Tito do MST.

Será realizada ainda a reconstrução do monumento em memória aos 21 trabalhadores assassinados, além do lançamento da Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (Jura) e um ato político que culminará com a chegada da marcha ao Acampamento Pedagógico, neste 17 de abril.

E tem mais:

Comida de Verdade com deliciosos ingredientes direto de assentamentos da reforma agrária.

Arte na China: uma cidade que traz um rico patrimônio cultural e histórico com artes milenares, como o teatro de sombras e as figuras de argila.

E entrevista com o ator Caio Blat, que está em cartaz com a peça “Subversão Kafka”, montagem que une clássicos da literatura a questões urgentes da atualidade, como inteligência artificial e regulamentação de direitos autorais.

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Na TVT: sábado às 13h; com reprise domingo às 6h30 e terça-feira às 20h no canal 44.1 – sinal digital HD aberto na Grande São Paulo e canal 512 NET HD-ABC.

Na TV Brasil (EBC), sexta-feira às 6h30.

Na TVE Bahia: sábado às 12h30, com reprise quinta-feira às 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital.

Na TVCom Maceió: sábado às 10h30, com reprise domingo às 10h, no canal 12 da NET.

Na TV Floripa: sábado às 13h30, reprises ao longo da programação, no canal 12 da NET.

Na TVU Recife: sábados às 12h30, com reprise terça-feira às 21h, no canal 40 UHF digital.

Na UnBTV: sextas-feiras às 10h30 e 16h30, em Brasília no Canal 15 da NET.

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