Perdoar o imperdoável? Entre amar e condenar — o dilema de O Drama

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Há um momento raro, e intelectualmente produtivo, em que o cinema nos surpreende não apenas esteticamente, mas metodologicamente. Entrei na sala esperando um filme romântico, com algum exercício de tensão íntima, e saí com a sensação de ter assistido a um experimento ético que dialoga diretamente com o núcleo duro da minha pesquisa sobre ataques às escolas. Não como ilustração, mas como condensação.

Alerta de spoiler: o que segue implica em revelar o eixo central da trama, mas talvez essa revelação seja menos um prejuízo do que uma condição para tentar pensar o que o filme de fato faz.

O ponto de inflexão do filme norte-americano Ó Dramade Kristoffer Borgli, não está na construção do suspense, mas naquilo que ele rompe. Emma, interpretada por Zendaya, e Charlie, personagem de Robert Pattinson, às vésperas do casamento, atravessam um colapso abrupto após uma confissão feita durante um jantar entre amigos. O que deveria ser um ritual de estabilidade — a mesa, o vinho, a conversa — transforma-se em uma cena de desintegração. Emma planejou um ataque à sua escola.

E então surge a pergunta que estrutura o filme — e que ecoa para além dele: “que tipo de pessoa faz uma coisa dessas?”

1. Psicopatologizar: o conforto da exceção

A primeira resposta possível, e talvez a mais imediata, é transformar o acontecimento em patologia. “Ela é uma psicopata.” A frase não apenas nomeia, ela organiza. Ao inscrever o ato no campo da doença, uma operação clássica e determinista é produzida, a exceção é isolada, o desvio deve ser contido, a ordem será restaurada.

Como bem demonstrou Michel Foucault, a modernidade não apenas identifica a loucura, mas a produz como categoria funcional, algo que deve ser separado para que o restante do corpo social permaneça inteligível. O diagnóstico, nesse sentido, não é apenas clínico, é político. Ele define quem pertence e quem deve ser excluído do regime de normalidade.

Ao reduzir o ato à patologia, elimina-se a necessidade de compreendê-lo em sua complexidade. E, sobretudo, desloca-se a questão para um território onde a responsabilidade se torna difusa, afinal, o paciente não responde da mesma forma que o sujeito dito “normal”.

2. Culturalizar: o risco somos nós

A segunda via interpretativa mobiliza o eixo: “poderia ser qualquer um”, assim apresentado na trama. Aqui, o foco não está mais no indivíduo, mas nas condições que tornam o ato possível. O filme apresenta espaços online em que Emma esteve inserida e nos quais circulavam: glamorização das estéticas de violência, fóruns digitais que incitavam discursos de ódio, modos de narrar, imaginar e reproduzir a violência extrema.

A inteligibilidade de uma ação depende dos quadros que a tornam reconhecível. Um ato não emerge no vazio, ele se inscreve em matrizes de sentido que o tornam, de alguma forma, pensável. Isso não significa justificá-lo, mas recusar a ideia de que ele é absolutamente incompreensível.

O risco, portanto, desloca-se. Ele está menos na figura estabilizadora da psicopatologia e mais nas condições difusas que tornam o gesto concebível. Não se trata de afirmar que todos farão, mas de reconhecer que os repertórios estão disponíveis, que as gramáticas circulam, que as cenas já foram escritas antes mesmo de serem encenadas. O inquietante é precisamente isso: o risco não está distante, encapsulado em um sujeito anômalo, ele se instala ao nosso lado, nos atravessa, nos habita enquanto possibilidade. E é por isso que a frase retorna com ainda mais força, não como exagero, mas como diagnóstico incômodo: poderia ser qualquer um.

3. Entre exceção e estrutura: quando o contexto ganha corpo

O problema, no entanto, não se resolve ao escolher entre uma explicação e outra. O que o filme faz, e aqui reside sua força, é mostrar que essas dimensões não operam separadamente, mas se entrelaçam de forma incômoda.

Emma não emerge do nada. Sua trajetória é atravessada por condições concretas: rejeição escolar, um contexto cultural marcado pela naturalização da violência, a familiaridade com armas — mediada, não por acaso, pela figura paterna, um policial — e a inserção em circuitos digitais onde o ódio e a espetacularização da violência não apenas circulam, mas são reiteradamente validados. Não se trata, portanto, de uma abstração cultural difusa, mas de um ambiente específico, historicamente localizado, onde certos gestos deixam de ser impensáveis.

E, ainda assim, nada disso é suficiente para explicar o ato.

É nesse ponto que o filme recusa tanto o determinismo cultural quanto o conforto da exceção psicopatológica. O que ele nos coloca diante não é uma cadeia causal, mas uma zona de tensão: há elementos que permitem compreender, mas não há nada que autorize reconciliar. Emma não é ilegível e é justamente isso que ela desestabiliza. Se fosse um enigma absoluto, poderíamos descartá-la. Mas não é. Há algo nela que se deixa reconhecer — e é isso que inquieta.

Talvez, então, a pergunta precise ser deslocada. Não mais “por que ela fez isso?”, mas: em que condições esse gesto se torna possível — e para quem ele se torna pensável?

4. Perdoar o imperdoável?

Perdoar Emma não significaria apenas aceitar um erro ou superar uma falha. Significaria incorporar à relação algo que altera estruturalmente o modo como o outro pode ser visto. Não se trata de seguir adiante, mas de redefinir os limites do que pode, ou não, ser suportado em nome do amor.

E é aqui que o filme desloca silenciosamente sua questão central, talvez o problema não seja se devemos perdoar, mas se tudo pode ser perdoado sem que o próprio sentido do vínculo se desfaça.

O amor, frequentemente idealizado como espaço de acolhimento irrestrito, revela-se, então, atravessado por fronteiras. Há algo que ele não consegue absorver sem se deformar. Há verdades que não aprofundam o laço — elas o corroem.

Charlie não está apenas diante de uma decisão. Ele está diante de um limite.

5. O risco somos nós — mas não de qualquer maneira

Mas, afinal, perdoar ou não?

A resposta não está no filme e talvez não devesse estar. O que ele oferece é algo mais desconfortável, a percepção de que o risco não se esgota na figura do “outro anormal”, mas também não se distribui de forma homogênea, como se todos estivéssemos igualmente próximos do abismo.

O risco está nas condições que se acumulam, nos repertórios que circulam, nas formas de reconhecimento que se tornam disponíveis. Está na banalização de certas linguagens, na estetização da violência, na naturalização de dispositivos que aproximam sujeitos comuns de imaginários extremos.

Mas reconhecer isso não equivale a dizer que “qualquer um faria”. Equivale, antes, a admitir algo mais perturbador: o extraordinário não está fora do mundo social, ele é produzido em suas margens, em suas dobras, em seus excessos.

É por isso que a pergunta inicial retorna, não como dilema individual, mas como interrogação coletiva: perdoar o imperdoável? Talvez não saibamos. Mas o filme nos obriga a reconhecer que, antes mesmo de responder, já estamos implicados.

E é justamente aí que reside sua potência como obra cultural — não em oferecer consolo, mas em retirar de nós a tranquilidade de pensar que o problema está sempre em outro lugar.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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