Com as eleições chegando, vários debates políticos estão passando pelo tema das inteligências artificiais. É bem provável que o assunto habite os planos de governo de diversos candidatos, na iminente necessidade de regulamentação. O TSE já tomou decisões sobre o uso de inteligências artificiais durante o período eleitoral, indicando permissões e vetos em diversos cenários, inclusive nos três dias anteriores às eleições.
Diversas questões contornam esse tema e, de primeira, é impossível não focar nos riscos à democracia que essa tecnologia pode trazer. O mais proeminente é a criação do que chamamos de deepfake, ou seja, a criação de cenários falsos com pessoas reais. Seja por áudio ou vídeo, é possível imitar uma pessoa dizendo qualquer coisa, e precisaremos ter um cuidado extra com esse tipo de uso na propagação de notícias falsas.
Além disso, há também considerações sociais que surgem a partir da tecnologia, como a possibilidade de a realidade ficar cada vez mais falseável, mesmo em cenários reais. Um exemplo disso: em caso de vazamento de áudio ou vídeo de um candidato, ele pode se livrar do problema dizendo que aquilo é uma IA, mesmo que não seja, confundindo o conceito de realidade para a população. Durante os últimos meses, vimos isso ocorrendo diversas vezes no cenário dos ataques dos EUA e de Israel ao Irã, Líbano, Palestina e outros tantos povos e mesmo em acontecimentos internos nos EUA, como as execuções filmadas efetuadas pelo ICE.
No meio de tudo isso, o que é real e o que não é se transforma em um debate acirrado e preocupante.
Porém, o uso de inteligências artificiais também é um terreno de oportunidades para campanhas populares, caso seja feito de maneira assertiva.
E não digo isso mirando em verificadores de inteligência artificial para detectar eventuais usos fraudulentos citados anteriormente. Esses verificadores não funcionam de maneira eficiente e pouco efeito fazem para desmentir uma mentira.
Podemos citar outros usos possíveis, como o de acessibilidade e inclusão, para adaptar materiais de campanha para pessoas com deficiência visual ou auditiva, seja legendando conteúdos em vídeo e áudio automaticamente ou mesmo traduzindo-os para a Língua Brasileira de Sinais.
Ainda podemos citar algo que foi permitido pelo TSE, desde que com a devida identificação: a utilização de bots de conversa para tirar dúvidas de eleitores sobre locais de votação, linhas políticas de um candidato e para atuar no apoio e engajamento das bases de apoio.
Saindo da comunicação, há um uso ainda mais importante ao se pensar a estratégia política, com a utilização de inteligências artificiais não generativas para auxiliar na análise da realidade concreta de micro ou macrorregiões, indicando caminhos para a construção de políticas públicas a serem defendidas por candidatos, assim como na análise eleitoral de um potencial território. Além do uso mais básico de acelerar diversas tarefas burocráticas de uma campanha.
Esses são alguns exemplos de tantos outros usos positivos que podemos fazer das inteligências artificiais, mas infelizmente a análise inicial é que as candidaturas populares, em geral, ainda estão perdidas nesse caminho. É possível observar o uso delas em diferentes aspectos de uma campanha, mas ainda um uso bastante frágil, utilizando modelos genéricos sem treinamento ou tratamento específico de conhecimentos.
Na ampla maioria dos casos, isso vem do uso de IAs por profissionais não especializados em seu uso.
As disputas políticas e eleitorais atualmente se fazem em um tripé entre estratégia/tática, comunicação e Tecnologia da Informação, e esse tripé deve ser refletido na estruturação de equipes de campanha para que o potencial de IAs e de outras tecnologias possam ser empregados nessas disputas.
Estamos em um campo de batalha acirrado e não devemos abdicar de nenhuma arma à nossa disposição.
*Rafa da Guia é cientista de Dados especialista em modelos de Inteligência Artificial, com mais de 18 anos de experiência. Atualmente é Consultor de Tecnologia no jornal Brasil de Fato, com passagens pela Gol Linhas Aéreas e Minsait. Graduado em Desenvolvimento e Marketing (U. Illinois), com especializações em Ciência de Dados (John Hopkins e Fiap).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

