‘Quem não olha para os pobres não quer olhar o rosto de Cristo. Este é o Evangelho!’

Publicada em

Durante três dias de passagem pelo Rio Grande do Sul – marcados por encontros com comunidades, celebrações e diálogos com movimentos – o ministro geral da Ordem dos Frades Menores (OFM) e 121º sucessor de São Francisco de Assis, Frei Massimo Fusarelli, reforçou a presença da ordem junto aos pobres, aos pequenos, aos desabrigados, aos marginalizados, aos atingidos pelas mudanças climáticas e aos que são vítimas da violência e da guerra, como expressão concreta de uma Igreja que sai ao encontro do povo.

Em sintonia com o legado de São Francisco de Assis e com o testemunho recente de lideranças como o saudoso Papa Francisco e também o atual Papa Leão 14, a visita foi atravessada por reflexões sobre esperança, justiça social e compromisso com os pequenos em um mundo marcado por crises e conflitos.

Confira a entrevista concedida ao jornalista Marcos Antonio Corbari, do Brasil de Fato RScom colaboração de Saraí Brixner e Isnar Borges.

Brasil de Fato: Vivemos um ciclo de jubileus franciscanos, especialmente os 800 anos da Páscoa de São Francisco. Qual é o significado desse jubileu para o nosso tempo?

Frei Massimo Fusarelli: É uma memória, uma lembrança, mas também algo que nos toca hoje. Lembramos os últimos anos da vida de São Francisco – os últimos três ou quatro anos – que são marcados por diferentes centenários, mas que, na verdade, formam um único caminho.

Queremos entender como essa fase final da vida de Francisco foi, por um lado, muito difícil e dolorosa e, por outro, profundamente luminosa. O encontro com a morte, que Francisco chama de “irmã”, revela uma grande abertura. Vivemos tempos obscuros, difíceis, mas que pedem, que invocam esperança. E esse centenário de São Francisco queremos que abra uma janela de esperança para nós.

Existem muitos lugares e muitos meios para alimentar essa esperança, mas, antes de tudo, eu preciso cultivá-la dentro de mim mesmo, caso contrário não poderei oferecê-la aos outros

O senhor tem falado sobre a esperança que precisa se traduzir em ação. Como fazer isso acontecer na prática, no mundo real?

Nós, franciscanos, buscamos viver isso em muitas partes do mundo, em primeiro lugar permanecendo junto das pessoas vítimas da violência, da guerra e da pobreza. Poderia dar muitos exemplos: estamos presentes em 120 países, como na Terra Santa, na Ucrânia, no Congo, no Sudão. E os frades permanecem próximos. Não fugir das situações difíceis é o primeiro sinal de esperança.

Depois, há a esperança construída por muitos caminhos: o apoio às pessoas, aos jovens, às crianças, o trabalho educativo nas escolas. Existem muitos lugares e muitos meios para alimentar essa esperança, mas, antes de tudo, eu preciso cultivá-la dentro de mim mesmo, caso contrário não poderei oferecê-la aos outros.

Cronograma de atividades foi intenso para o ministro geral, com agendas em Porto Alegre e Santa Cruz do Sul | Crédito: Corbari

Sua visita iniciou na América Latina logo após a Páscoa e ainda terá continuidade a partir daqui. Olhando para a América Latina, o que mais tem lhe chamado atenção nessa realidade?

De um lado, a realidade de um povo acolhedor, aberto, que carrega muitos valores. De outro, também as situações de desigualdade social, dificuldades e violência que atravessam muitos países da América Latina. Eu diria que aqui há, ao mesmo tempo, uma forte esperança e uma grande capacidade de reagir às dificuldades da vida, mas também muitas sombras.

A América Latina nos ajuda a viver nessa tensão: a não imaginar um futuro totalmente perfeito – que nunca existirá –, mas a saber viver nas dificuldades com positividade e esperança. Creio que a questão ecológica, a justiça social e as múltiplas formas de pobreza são hoje os maiores desafios.

Hoje muitos países erguem muros para rejeitar migrantes. São Francisco derrubou muros e construiu pontes. Esse continua sendo o estilo franciscano

O mundo está ferido, a humanidade, sobremaneira os mais pequenos são os que sentem. Qual é o papel da tradição franciscana diante de tantas violações?

São Francisco viveu em um tempo em que a violência e a guerra eram realidades cotidianas. Ele mesmo participou da guerra, foi prisioneiro, desejava lutar, mas o encontro com Jesus transformou a sua vida. Onde via adversários e inimigos, passou a reconhecer irmãos. Dos leprosos, de quem fugia, passou a cuidar.

A palavra de Francisco para o nosso tempo é não se resignar diante da guerra, da violência e dos conflitos, mas acreditar que o encontro da fé, o encontro com Jesus, pode nos transformar e nos ajudar a atravessar fronteiras. Hoje muitos países erguem muros para rejeitar migrantes. Francisco, ao contrário, derrubou muros e construiu pontes. Esse continua sendo o estilo franciscano.

Fusarelli tem conversado com o cardeal Pizzabala, seu confrade que está atuando em meio às agressões de Israel contra Irã, Líbano e Palestina | Crédito: Corbari

Aqui no Rio Grande do Sul, durante as enchentes, os frades estiveram junto ao povo, participando de diversas ações, caminhando junto com os atingidos e muitas vezes embarrando a barra do hábito na lama. Como o senhor se sente diante desse testemunho?

Eu me sinto muito bem, porque nosso lugar é estar com as pessoas e entre as pessoas – não para resolver todos os problemas, mas para estar presente como irmãos. Penso nos frades na Terra Santa, no Líbano, na Síria, na Ucrânia, no Congo, em Mianmar, lugares que visitei recentemente.

O nosso hábito sempre se suja com essa lama. Eu mesmo vivi, na Itália, a experiência de passar um ano em uma região atingida por um terremoto, com muitas mortes. Estar com as pessoas, não fugir, é um grande sinal – e profundamente franciscano.

Não devemos ter medo, porque a nossa força é a força humilde de Jesus, que não teve poder – e justamente por isso venceu todo poder

Como o senhor acompanha a situação do conflito no Oriente Médio, na Terra Santa? Tem conversado com o cardeal Pizzaballa?

Eu deveria ter ido a Jerusalém há um mês, mas a guerra – inclusive com o Irã – impediu a viagem, pois não há voos. No entanto, permaneço em contato com os frades, com o custódio e com o cardeal Pierbattista Pizzaballa, nosso confrade. Ele nos convida a reconhecer que Deus está presente também entre as ruínas de Gaza, no vazio de Jerusalém, no sofrimento de todos aqueles povos. Deus está presente onde há vazio e dor. Pizzaballa nos oferece essa mensagem forte: permanecer fiéis àquela terra, não fugir.

Para encerrar, qual é o desafio que São Francisco nos deixa hoje?

O desafio é exatamente este. Francisco não encontrou primeiro o crucifixo de São Damião e depois os leprosos. Foi ao abrir os olhos para os leprosos, ao servi-los e ter misericórdia deles, que seus olhos se abriram para Cristo de um modo novo. Quando nos aproximamos dos pobres, quando partilhamos suas vidas, descobrimos que somos pobres com os pobres – e o nosso olhar de fé sobre Jesus Cristo também se transforma e se amplia. Isso é essencial.

Não se trata apenas de justiça social, mas do coração do Evangelho. Quem não olha para os pobres não quer olhar o rosto de Cristo. Sei que essa mensagem não agrada a muitos, inclusive dentro da Igreja, mas este é o Evangelho. Francisco nos recorda isso. E também o Papa, nestes dias, tem nos oferecido uma forte mensagem de paz, sem medo dos poderosos deste mundo. Não devemos ter medo, porque a nossa força é a força humilde de Jesus, que não teve poder – e justamente por isso venceu todo poder.

Source link