Exposição de bordados transforma memória das enchentes de 2024 em denúncia sobre crise climática

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Dois anos após as enchentes que marcaram o mês de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, uma exposição no Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em parceria com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), propõe transformar memória em reflexão pública. A mostra “Arpilleras: memória e resistência na crise climática” será aberta neste sábado (25), no saguão da reitoria da universidade, reunindo bordados produzidos por mulheres atingidas por barragens e eventos climáticos extremos em diferentes regiões do país.

Com entrada gratuita e visitação até junho, a iniciativa surge no contexto ainda de enfrentamento dos desdobramentos sociais, econômicos e ambientais das enchentes históricas. Dados de órgãos públicos e institutos de pesquisa apontam que milhões de pessoas foram afetadas direta ou indiretamente pelas cheias de 2024, com impactos prolongados sobre moradia, trabalho e acesso a serviços básicos.

A exposição integra uma série de ações que buscam manter viva a memória do desastre, ao mesmo tempo em que tensiona o debate sobre prevenção, responsabilidade e políticas públicas diante da intensificação de eventos climáticos extremos.

Bordados retratam memórias de perdas, resistências e reconstrução após eventos climáticos extremos – Crédito: MAB divulgação

Bordados que narram experiências invisibilizadas

As obras apresentadas utilizam a técnica das arpilleras, um tipo de bordado feito com juta e retalhos de tecido. Surgidas no Chile durante a ditadura militar, essas peças historicamente funcionam como instrumento de denúncia e expressão política, especialmente entre mulheres.

Na mostra, os trabalhos expõem narrativas construídas a partir da vivência de mulheres de periferias urbanas, áreas rurais e comunidades ribeirinhas. Por meio das costuras, são retratadas perdas materiais, deslocamentos forçados, impactos emocionais e estratégias de sobrevivência diante de enchentes, secas e outros eventos extremos.

Segundo o MAB, que organiza a exposição em parceria com o museu, as arpilleras funcionam como ferramenta de visibilidade para grupos historicamente marginalizados nos debates sobre desenvolvimento e infraestrutura. O movimento afirma que o processo coletivo de produção dos bordados também contribui para a reconstrução de vínculos comunitários após situações de desastre.

Além das peças têxteis, a exposição inclui registros fotográficos que documentam tanto os impactos das enchentes quanto ações de solidariedade organizadas em diferentes territórios, ampliando o olhar sobre os efeitos da crise climática.

Arpilleras transformam vivências de mulheres atingidas em denúncia e expressão coletiva – Crédito: MAB divulgação

Entre a denúncia e a construção de políticas

A realização da mostra ocorre em um cenário de crescente debate sobre justiça climática no Brasil. Especialistas da área ambiental apontam que eventos extremos têm se tornado mais frequentes e intensos, afetando de forma desigual populações em situação de vulnerabilidade.

Nesse contexto, iniciativas como a exposição dialogam com a necessidade de incluir as vozes das comunidades atingidas na formulação de políticas públicas. Para o MAB, a visibilidade dessas experiências é fundamental para pressionar por reparação de danos e mudanças estruturais na gestão de riscos.

Por outro lado, representantes de setores ligados à infraestrutura e energia frequentemente defendem a importância de grandes obras, como barragens, para o desenvolvimento econômico e a segurança energética do país, argumentando que esses empreendimentos também exigem aprimoramento constante em termos de regulação e mitigação de impactos.

A tensão entre desenvolvimento e proteção socioambiental aparece de forma indireta nas obras expostas, ao evidenciar as consequências concretas dessas disputas na vida cotidiana das populações atingidas.

Linhas e tecidos dão forma às histórias de quem vive na linha de frente da crise climática – Crédito: MAB divulgação

Espaço de escuta e formação coletiva

Além da visitação, a programação prevê oficinas e debates abertos ao público ao longo do período expositivo. As atividades buscam promover espaços de troca entre artistas, pesquisadoras, estudantes e pessoas atingidas, ampliando o alcance da discussão para além do campo artístico.

As oficinas de arpilleras, previstas para maio, retomam a proposta de utilizar o bordado como prática coletiva de elaboração de experiências e construção de memória. Segundo o MAB, essas atividades têm sido desenvolvidas desde 2013 em diferentes regiões do país, adaptando-se a contextos variados de conflito socioambiental.

A escolha de um espaço universitário para sediar a mostra também aponta para uma tentativa de aproximar produção acadêmica e saberes populares, contribuindo para uma leitura mais ampla da crise climática e seus impactos.

Entre fios e retalhos, mulheres costuram memória, denúncia e luta por justiça climática – Crédito: MAB divulgação

Memória, território e futuro

Ao reunir histórias de diferentes estados brasileiros, a exposição estabelece conexões entre realidades diversas, indicando que os efeitos das mudanças climáticas e de grandes empreendimentos não se restringem a um território específico.

A proposta de transformar bordados em narrativa pública reforça a centralidade da memória na construção de respostas coletivas a desastres. Ao mesmo tempo, evidencia a permanência de desafios relacionados à reconstrução das áreas atingidas e à garantia de direitos para as populações afetadas.

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