Há mais de sete décadas, as telenovelas brasileiras, principalmente aquelas produzidas pela Rede Globouma das maiores empresas de comunicação do mundo, se consolidam como as narrativas que expressam e pautam a cultura brasileira, conquistando um espaço incontestável não apenas no nosso dia a dia, mas na formulação do nosso imaginário coletivo.
A pesquisadora Maria Immacolata Vassallo de Lopes, da Universidade de São Paulo (USP), define a telenovela brasileira como uma “narrativa sobre a nação”; a Agência Nacional do Cinema (Ancine) já a classificou como o “cartão-postal” do audiovisual brasileiro.
Mas, diante da importância e do reconhecimento global desse formato, tão caro à América Latina e aos brasileiros, cabe uma pergunta: onde estão os negros nessa representação de uma nação? Se pararmos para pensar nos marcos históricos do formato, o que vem de imediato à cabeça são narrativas que reforçam o papel ativo da população branca.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira é formada por uma maioria negra, com 55,5% de pretos e pardos. Mas, nessas sete décadas, pouco vimos essa população ganhando destaque em tramas que buscassem de fato apresentar a complexidade de suas histórias. Quando muito, a visão estereotipada e limitante dominava.
Foi o pesquisador e documentarista Joel Zito Araújo, em sua obra fundamental “A negação do Brasil”, que primeiro nos apresentou a dimensão exata do negro nas telenovelas brasileiras, mostrando que grande parte das obras limitava esses personagens a posições de subalternidade, algo que se tornou comum no audiovisual brasileiro em geral, como também apontou João Carlos Rodrigues em sua obra “O negro brasileiro e o cinema”.
“A Nobreza do amor”, novela escrita pela premiada roteirista Duca Rachid, em parceria com Júlio Fischer e Elísio Lopes Júnior — este, um roteirista negro, um dos primeiros a assinar a autoria principal de uma telenovela no Brasil —, apresenta uma nova possibilidade de pensar a população brasileira.
A presença de Elísio Lopes Júnior abre caminhos para pensarmos a partir da lógica de quem está por trás das obras e quais são os interesses na construção de um universo tão rico como as telenovelas. Estudos recentes divulgados pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), como o relatório “Televisão em Cores? Raça e gênero de autores e diretores das novelas da Rede Globo (1977 – 2023) Parte II”, revelam que quanto maior o prestígio e o poder de decisão do cargo, mais raros tornam-se os roteiristas negros.
Quando Elísio Lopes Júnior assume a coautoria de “A nobreza do amor”, ele tem o poder, junto aos outros autores, de deslocar o posicionamento do negro na telenovela brasileira. Trabalho que o trio já vem fazendo desde “Amor Perfeito”, novela de 2023 que, junto com “Vai na Fé”, apresenta o maior quantitativo de profissionais negros envolvidos na produção, à frente e atrás das telas.
Há uma passagem em “A negação do Brasil” que chama atenção para uma especificidade: é no horário das 18h que historicamente se concentra a maior quantidade de personagens negros, pois é nessa faixa horária que são exibidas as produções de época, com grande apelo para tramas situadas no período escravocrata — ou seja, o espaço reservado para atrizes e atores negros era, majoritariamente, o da representação da escravização. Em 2012, uma novela conseguiu romper esse histórico ao apresentar personagens negros como protagonistas, vivendo em 1912, num Rio de Janeiro pós-abolição. “Lado a Lado” apresentava de forma inédita a complexidade da população negra, oferecendo uma nova possibilidade de reconstrução histórica. Ainda que representando um período onde a Lei Áurea já havia sido assinada, a ambientação focava justamente no processo de construção dessa liberdade tardia, na formação do Morro da Providência e nas estratégias de sobrevivência e ascensão das famílias negras.
Quatorze anos depois, o horário das 18h volta a ter uma novela de representação histórica protagonizada por negros, apresentando uma nova proposta de construção desse caminho de liberdade no Brasil pós-abolição. Mas esse cenário só acontece devido às mudanças de posicionamento da emissora, aliadas a cobranças impostas pela sociedade. Em anos recentes, obras como “Vai na Fé” e “Garota do Momento” tensionaram as formas de representação, provando que o público tem interesse em perspectivas complexas dos personagens negros. Em “A nobreza do amor”, vemos diferenciais ainda mais profundos. Um deles é a consolidação do projeto criativo desse trio de autores, que três anos antes, em “Amor Perfeito”, já havia rompido barreiras ao nos mostrar, com naturalidade, uma elite negra nos anos 1940, ocupando espaços de poder como a medicina e o direito. O outro grande diferencial, que eleva o debate atual, é o desenvolvimento em paralelo da relação com o continente africano.
Esse desenvolvimento ganha contornos visuais e narrativos inéditos ao nos apresentar o reino fictício de Batanga. Ao apresentar um continente africano que tem seus problemas políticos — inclusive sendo esse o motor narrativo da novela —, podemos compreender melhor, a partir da fabulação, como nossas raízes são mais profundas e vão além da história do sequestro imposto pelo regime da escravidão. É preciso lembrar que a telenovela ainda é uma narrativa que atinge uma grande quantidade de brasileiros, sendo um espaço formativo e que gera debates sociais. Ter atores como Lázaro Ramos (Duque Jendal) e Erika Januza (Rainha Niara) referenciando em suas vestimentas e construção de personagens a soberania africana, somados à jornada de descoberta da Princesa Alika (Duda Santos) em terras brasileiras, é uma resposta direta àquela subalternidade histórica denunciada por Joel Zito Araújo.
Neste primeiro mês de exibição, a repercussão de “A nobreza do amor” deixa claro que o público negro brasileiro estava não apenas sedento, mas também preparado para se ver retratado com dignidade. O engajamento com a trama prova que a presença de profissionais negros, como Elísio e vários outros em diferentes níveis de atuação, altera a forma como iremos ser representados, lição que podemos aprender a partir das dos filmes pertencentes ao cinema negro, que vêm apresentando possibilidades diversas de traduzir para o audiovisual a vivência negra em suas diferentes perspectivas.
Na televisão, principalmente na telenovela, essas representações ainda são mais escassas, mesmo que tenham aumentado nos últimos anos, principalmente com a inserção de profissionais negros das mais diversas áreas. Com a introdução de uma realeza africana que se encontra com o sertão nordestino e o desenvolvimento em paralelo desses dois espaços sociais, podemos perceber, a partir desse primeiro mês de exibição, que “A nobreza do amor” já se consolida como uma novela histórica, nos dando a possibilidade de, agora por meio do maior produto audiovisual do Brasil, criar personagens negros dignos e revelar brechas de nossa história para um grande público.
*Victor de Rosa faz parte do movimento Quilombo do Audiovisual Negro
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

