No 18 de abril, a big tech Palantir publicou em sua conta no X um resumo em 22 pontos do livro “República Tecnológica”, lançado por um dos sócios da empresa, Alex Karp. Um dos tópicos defende que a questão não é se armas de inteligência artificial serão construídas, é quem as construirá e com qual propósito. Outro trecho aponta que uma era de dissuasão, a era atômica, está terminando e uma nova era de dissuasão, baseada em IA, está prestes a começar.
A Palantir tem contrato com agências governamentais dos Estados Unidos, como a polícia federal do país (FBI), a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) e o Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE), e um dos seus sistemas de inteligência artificial está sendo usado na guerra do Irã. A empresa também tem como cliente as forças de defesa de Israel.
Ao BdF Entrevista, Lucas Zawachi, apresentador do canal Tecnologia e Classe, o Teclas, e programador de software, conta que a empresa, que surgiu em 2003, na realidade, inicialmente, trabalharia como Big Data. Com a quantidade de dados disponíveis, os criadores da Palantir entenderam que poderiam ir além. Um dos exemplos é o Gotham, ferramenta da empresa que permite o monitoramento de pessoas e análise de logística militar.
Ele destaca que o período, bastante fértil para o surgimento das big techs, está muito vinculado à cultura californiana do final dos anos 1990, com referências descoladas, a lógica do faça você mesmo (faça você mesmo) e, claro, muito dinheiro envolvido. “Muito dinheiro de governo, contratos também de Exército já desde aquela época. E isso tornou essa cultura da computação e da tecnologia que eles exportaram para o mundo inteiro. Então é exatamente o que tu disse, é o mercado mais descolado. Todo mundo quer estar na tecnologia, todos os CEOs são sempre as pessoas a se admirar, que aparecem na TV. E depois do Trump 2, a gente viu essa mudança deles mais explicitamente dizendo: ‘nós estamos envolvidos com a questão da guerra, a questão militar’. Não só a Palantir, mas a gente tem a Meta, o Google, por exemplo, que tem a sua divisão de robótica. A gente tem a OpenAI, que fez o contrato com o Exército dos Estados Unidos para ter seus produtos usados na guerra.”
Lucas Zawachi também explica o conceito de tecnofascismo, descrito como a união da ideologia fascista com ferramentas tecnológicas para subverter processos democráticos e codificar regras sociais através de softwares, em vez de leis votadas. O especialista destaca que os líderes da Palantir veem a democracia como um obstáculo aos seus objetivos de defesa da nação e manutenção de valores morais considerados superiores. “A democracia dos Estados Unidos é um grande teatro. Na realidade, a democracia em todos os países capitalistas é um teatro.”
É esse movimento que representa uma mudança nas big techs, que abandonam a imagem anterior para buscar uma fusão com o complexo industrial-militar e garantir contratos governamentais em um momento de crise econômica. “É uma economia que está entrando em crise e aquela maneira que se imaginava que eles funcionavam, que era na venda de produtos, no acesso, por exemplo, inclusive eles falam no manifesto de e-mail grátis, iPhone barato para essas pessoas, toma lugar essa questão de usar o medo de um inimigo externo, o medo da guerra, como uma justificativa para o próprio povo para dizer por que a gente precisa investir nesses produtos que são basicamente repressão, são aplicações militares da tecnologia”, avalia.
Zawachi também comenta o cenário definido como uma espécie de nova Guerra Fria entre EUA e China, que disputam o domínio da IA e o acesso a recursos estratégicos como terras raras e energia. Mas, segundo ele, existe uma diferença de conceito para essa corrida.
“Os Estados Unidos têm feito inteligência artificial baseada nesses grandes projetos privados, essas empresas que estão construindo grandes data centers, criam seus modelos que a gente diz proprietários, porque eles têm os segredos de negócio disso”, explica.
“O que a gente vê na China é a aposta em soluções que são mais leves, abertas e elas podem ser feitas de uma maneira mais distribuída. Isso não quer dizer que eles não têm grandes investimentos, grandes construções de data centers, fazendas de energia para esse tipo de coisa, e com certeza militarmente eles estão desenvolvendo muito isso. Mas o que a gente vê, sinceramente, da China é isso: os modelos abertos, que funcionam muito bem, que inclusive é uma coisa que nós aqui, que temos acesso a esse tipo de coisa, gostamos muito, porque acabam sendo às vezes uma coisa muito mais legal e interessante, assim, academicamente, do que tudo que está saindo de pesquisa dos Estados Unidos”, analisa.
Para ouvir e assistir
Ó Entrevista com BdF vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo.

