‘A gente é um corpo político’, diz atriz indígena que atua em filme distópico sobre a Amazônia

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“Vitória Régia — A resposta somos nós” é um curta-metragem ficcional, produzido em parceria com associações do movimento indígena como Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) e da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), que apresenta uma distopia que mostra o que aconteceria se a Amazônia fosse entregue aos Estados Unidos.

Para Ywyzar Tentehar, atriz indígena que interpreta Naiá na produção, essa é uma ficção que tem alguma relação com a realidade. “Para os povos indígenas não é algo tão distante, assim,  é algo mais possível, porque essas queimadas que aparecem no filme é algo que acontece em muitos territórios.”

O filme, que tem no elenco Alice Braga, Caio Horowics, Ayra Kopém, Marina Person, Marat Descartes e Hodari, foi exibido na 22ª edição do Acampamento Terra Livre, maior mobilização indígena do Brasil realizado em Brasília neste mês de abril.

Ywyzar assistiu ao curta finalizado nesta ocasião. Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, ela contou como ele foi recebido pelos diferentes povos indígenas que participaram da exibição. “Foi muito emocionante estar ali assistindo, pela primeira vez, do lado dos meus parentes. Senti a tensão de quem vive isso na pele, de quem vive essa luta todos os dias, todos os anos, essas ameaças dos territórios, essa resistência que está correndo nas nossas veias desde de sempre.”

A atriz, que já atuou em novelas e outros produção de grande alcance, falou também da necessidade da sociedade de normalizar a diversidade dentro dos povos indígenas do Brasil. “Não tem como colocar a gente dentro de uma caixinha e achar que a gente tem que seguir um roteiro e tem que ser daquela forma. A gente, por si só, já é um corpo político. A gente já nasce com um posicionamento e uma responsabilidade muito grande desde sempre. Isso não vai mudar.”

O curta-metragem pode ser assistido gratuitamente pelo site oficial da produção https://vitoriaregia.org/filme/ 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: Me parece que o curta fala de um futuro que nem é tão futuro, que é uma possível realidade. Imagino que esse é o grande mote do filme, mostrar um Brasil que não é o de hoje, mas pode ser daqui a pouco. 

Ywyzar Tentehar: Sim, mesmo que seja uma ficção, é uma ficção incômoda, principalmente para muita gente que ainda não se vê nesse lugar, é um pouco do que a gente vive atualmente. Para os povos indígenas não é algo tão distante, assim,  é algo mais possível, porque essas queimadas que aparecem no filme são algo que acontece em muitos territórios. A gente vê esse desmatamento, essa ganância por território,os nossos territórios sendo sendo invadidos e entregue para mãos que não pertencem a nós.Tudo isso acaba sendo muito próximo.

A gente passou esse filme em alguns lugares, no acampamento da Terra Livre, aqui na Aldeia Maracanã (no Rio de Janeiro), em São Paulo e tive muito retorno de pessoas, muito emocionadas em ver essa luta e muitos indígenas vindo até mim, falando que é nossa luta, é o que a gente passa hoje.

Esses povos que estão ali na linha de frente, não são povos que estão só na ficção. Isso é o que de fato acontece, nossos corpos sendo violentados, ao estarem defendendo nossos territórios, acaba emocionando muita gente que se vê muito nesse lugar atualmente, não só na ficção.

Inclusive, essa história dos Estados Unidos tomar conta da Amazônia, o Trump já fez isso, soltou um mapa na rede social dele, mostrando uma Amazon of America ou qualquer coisa do tipo, colocando a Amazônia como um território dos Estados Unidos.

Uma das principais preocupações que o filme traz é a Amazônia virar um território de exploração do petróleo, que, de fato, já está acontecendo. É um filme ficcional, mas até a página 2, porque tem muita coisa ali que já está acontecendo.

A nossa ideia também foi essa, ampliar cada vez mais a nossa forma de comunicação. A gente tem muitos documentários que falam um pouco sobre isso. Sobre a luta dos povos originários, alertar outras pessoas de fora, mas a gente começou a entender que a gente precisa ocupar todos e qualquer espaço. Então, essa produção também foi para começar a ampliar, trazer de forma ficcional, para tentar alcançar outras pessoas, mais público, diferentes públicos, ampliar essa forma de comunicação.

Conta pra gente como foi a parte de pré-produção do filme e também como foram os bastidores da realização dele.

Eu encontrei a Tuca que estava produzindo. Ela me encontrou em um desfile indígena que teve aqui no Rio de Janeiro, ela ficou muito interessada em mim. Quando eu recebi a proposta, eu não sabia exatamente do que se tratava ainda. Eles ainda não tinham falado sobre o que era o filme, mas me  pediram um teste. No teste, já tinha um pouco da fala da personagem, um monólogo e só de ler o monólogo já me interessou bastante, eu já percebi que se tratava de algo relacionado a nós e que era algo potente.

E depois que eu já estava no projeto, o Cisma (diretor) entrou em contato comigo, o Pedro (inoue, direção criativa)  também entrou em contato comigo para explicar um pouco sobre o filme.

E ao saber que também tinha um apoio da Coiab, eu fiquei super interessada de saber que era um projeto sério. Todo mundo entrou mesmo na parceria, eu entrei na parceria sem a gente estar ganhando nada com isso, mas sabendo que tinha um propósito e uma responsabilidade também. 

Eu acho que todos nós, povos indígenas, já nascemos com responsabilidade muito grande, cada vez mais essa responsabilidade está vindo para jovens indígenas. 

Conheci a Alice Braga (atriz) e vi que ela estava super dentro do projeto, muito interessada, muito empenhada em se entregar, em fazer parte, em escutar e ter uma troca muito genuína, o tempo todo querendo escutar todo mundo, querendo entender sobre tudo.

Eu vi ali pessoas muito empenhadas em entregar algo muito bom e falar sobre aquilo com muito respeito  e muita responsabilidade, uma responsabilidade coletiva. Então teve essa responsabilidade coletiva de todo mundo que estava ali dentro do projeto.

Com os outros atores não indígenas, eu não tive muito contato porque só fui gravar minhas cenas em São Paulo, tive mais contato com os povos Guarani, com a Iara, a Alice e com os diretores.

Foi muito prazeroso também saber que tinha tantos parceiros, responsáveis e dispostos a fazer aquilo acontecer.

Tem perspectiva de que tenha uma parte dois ou que vire uma série ou um longa? Como que estão essas pretensões? 

Sim, eu não sei se eu poderia estar falando isso, mas isso foi conversado antes de começarmos a gravar. E a gente já tinha essa intenção. O Cisma já vinha comentando com a gente que a intenção era já deixar com esse gostinho de quero mais. Ele já vinha pensando em possíveis roteiros, lugares para onde esse filme poderia ir.

Mas, é isso, não é algo definido ainda, não tem algo programado. É uma possibilidade, a gente deixa em aberto. A ideia foi deixar mesmo como se fosse quase um teaser longo, sobre o que a gente gostaria de falar, sobre outras coisas que a gente gostaria de abordar, porque é algo que poderia ser abordado de várias formas.

Tem muita história ainda que poderia ser abordada, até mesmo dessa resistência. O Cisma fala muito sobre ter abordado mais sobre essa resistência, como surgiu, abordar todo o assunto sobre essa liderança também. Então, a gente veio com essa pretensão de deixar o público de fato com o gostinho.

Tinha até um outro final, que deixava mais ainda com esse gostinho, mas aí era um final mais pesado e eu acho que, nesse primeiro momento, a gente não queria, deixar com esse impacto tão forte, poderia ir para um outro lugar também e não era nossa intenção. Mas todo mundo que assistiu ficou com esse gosto de quero mais.

E conta também como foi a exibição do filme no Acampamento Terra Livre. Esse não foi o teu primeiro ATL? Quantos que você já participou? 

Minha família sempre vai, minha mãe é ativista também, ela sempre vai. O meu primeiro foi em 2021, depois 2023, alguns anos eu não consegui por causa do trabalho. Sempre que eu dava para eu ir, que eu tinha tempo, eu estava lá presente, foi muito importante e emocionante também, porque eu não assisti o filme todo antes,  eles não me mandaram, eles mandaram só um um esboço do que poderia ser, mas sem edição nenhuma ainda.

Então eu assisti no ATL com todo mundo e o pessoal falou: “A gente não vai enviar para ninguém, você vai ter que assistir com todo mundo”. 

Um filme para os nossos, onde a gente pode se identificar. Eu acho que o prazer do meu trabalho é isso, é poder fazer produções onde eu possa me identificar, onde os meus possam se identificar na luta também. E sentir que de alguma forma está sendo criado para nós, para falar de fato sobre nós. E se escutar e se enxergar ali naquele espaço. Então foi muito emocionante estar ali assistindo a pela primeira vez do lado dos meus parentes e senti a tensão de quem vive isso na pele, de quem vive essa luta todos os dias, todos os anos, essas ameaças dos territórios, essa resistência que está correndo nas nossas veias desde de sempre. 

A nossa pretensão inicial era exibir na COP 30. Mas aí o filme não ficou pronto a tempo e tinha outras coisas também que fizeram com que fosse adiada essa exibição e de alguma forma foi bom, porque a gente poder trazer no ATL, foi muito importante. Foi muito importante ver os parentes se identificando, gostando e tendo essa troca com a gente.

E é importante também a gente estar no movimento  e fazer algo para o movimento, com apoio da Apib, da Coiab e ver que está todo mundo empenhado em fazer isso acontecer. 

Sonia Guajajara, é do Maranhão, assim como você. A produção foi apresentada para ela ou para algum representante do governo, conseguiram ter esse tipo de diálogo direto? 

Ela viu recentemente. A gente ter conseguido com que ela visse já foi muito importante. Ela postou nas redes sociais sobre o filme, não só ela como outras lideranças também, outros representantes da casa indígena. É muito importante.

A gente é do Maranhão. Somos do mesmo povo, mas os nossos territórios são um pouco distantes. O território dela fica em outro município. Se eu não me engano, a nossa terra indígena pega sete municípios, então é um território muito grande e algumas aldeias são um pouco mais distantes.

Nossas aldeias são divididas em pequenas aldeias. Tem aldeias que chegam a ter 100, 200 pessoas, mas tem aldeias que chegam a ter menos. Os momentos que a gente mais se encontra, sãonos  nossos rituais, das nossas festas tradicionais, que acabam reunindo pessoas de outros territórios. 

Mas como hoje eu moro no Rio de Janeiro, quando eu vou para o meu território, eu sempre fico muito com a minha família, e acabo não indo tanto aos rituais.

Que bom que ela compartilhou, que ela viu, porque sem dúvida alguma esse documentário, ou melhor, esse filme, esse curta é também uma mensagem para o governo, né? Dá para entender que é sobre uma ameaça que pode acontecer, mas também sobre algo que está em curso, que está acontecendo, é preciso realmente uma reflexão, inclusive com as pessoas que estão apoiando a causa indígena, também precisam olhar com mais atenção sobre algumas ações.

Para encerrar a entrevista, eu queria só falar sobre a tua performance como atriz em outras produções. Eu queria te ouvir sobre a importância de a gente ter atrizes, atores indígenas que têm papéis que não necessariamente trazem essa questão da identidade de serem indígenas para dentro da cena. É importante que também tenha esse tipo de normalização? 

Claro, super importante. Eu acho que é válido desmistificar toda a ideia sobre nós. Não tem como colocar a gente dentro de uma caixinha e achar que a gente tem que seguir um um roteiro e tem que ser daquela forma. A gente, por si só, já é um corpo político. A gente já nasce com um posicionamento e uma responsabilidade muito grande desde sempre. Isso não vai mudar.

Mas também somos pessoas reais, que usam uma roupa, que trabalham. Tem médicos, nutricionistas. A gente está em todos os espaços, ocupando vários espaços de várias formas. A gente também pode pintar o cabelo de loiro, pode usar um salto ou usar uma roupa mais tradicional. Somos povos múltiplos.

A TV precisa normalizar nossa existência de diferentes formas. Por exemplo, hoje eu estou com o rosto pintado. E sempre quando eu estou com o rosto pintado de jenipapo e saio na rua, há uma estranheza das pessoas em me ver na rua com o corpo pintado.

E é muito incômodo, porque a gente está aqui desde sempre e ainda assim não é normalizado a nossa existência na rua. 

E mesmo sem estar com pitura há questões como: mas como assim você está agindo dessa forma? Mas como você está  vivendo dessa forma? Mas como você é indígena e quer trazer tal discussão? 

Então, as pessoas precisam normalizar e abrir suas cabeças e ver que a gente existe de forma normal, que a gente é natural e que a gente também pode ser, existir e a nossa existência não precisa estar dentro de uma caixinha.

Conversa Bem Viver

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