Privatizar Petrobras e Banco do Brasil? Especialista explica problemas da proposta de Zema

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A proposta do pré-candidato à Presidência da República Romeu Zema (Novo) de privatizar a Petrobras e o Banco do Brasil gerou polêmicas no centro do debate eleitoral. Em vídeo publicado nas redes sociais, no último domingo (26), Zema afirmou que, caso eleito, pretende adotar um “plano implacável” baseado em privatizações, cortes de gastos e enxugamento da máquina pública.

Entre as medidas defendidas, o ex-governador de Minas Gerais afirma que pretende vender empresas públicas estratégicas, como a Petrobras e o Banco do Brasil, para reduzir a dívida pública, diminuir juros e combater a corrupção. A fala gerou reações de parlamentares da oposição e também reacendeu discussões entre economistas sobre os impactos reais da privatização de empresas estatais.

No vídeo, Zema argumenta que o governo federal gasta mais do que arrecada, recorre a empréstimos para equilibrar as contas e, consequentemente, amplia a dívida pública. Para ele, vender ativos estatais seria uma forma de arrecadar recursos imediatos e reduzir o endividamento do país. Mas especialistas alertam que a discussão vai além da simples entrada de dinheiro nos cofres públicos.

Privatização reduz dívida pública?

Segundo o economista Pedro Faria, a venda de estatais pode gerar alívio fiscal momentâneo, mas não resolve os fatores estruturais que explicam o crescimento da dívida pública.

Ele explica que uma privatização produz receita extraordinária para o governo em um determinado momento, permitindo reduzir temporariamente o endividamento. Porém, esse efeito não altera as causas principais do problema fiscal.

“O governo pode vender ativos e arrecadar recursos imediatos, mas isso não muda o que provoca o crescimento da dívida ao longo do tempo”, afirma.

Na avaliação do economista, o déficit nominal do país,  indicador que considera tanto o resultado entre arrecadação e gastos quanto o pagamento de juros da dívida, é fortemente impactado pela taxa de juros elevada. Em outras palavras, o peso da dívida pública não seria explicado apenas pelos gastos governamentais, mas também pelo custo de financiar essa dívida.

Faria argumenta que, historicamente, períodos de queda do endividamento estiveram associados a crescimento econômico mais forte e juros menores. Já momentos marcados por políticas de austeridade, venda de ativos e baixo crescimento econômico não produziram redução estrutural da dívida.

Petrobras é empresa lucrativa e estratégica

A proposta de privatizar a Petrobras provoca ainda mais preocupação diante dos resultados recentes da companhia. Em 2025, a Petrobras registrou lucro líquido de R$ 110,1 bilhõescrescimento de 200% em relação ao ano anterior. Mesmo diante da queda do preço internacional do petróleo, a estatal apresentou expansão operacional e ampliou a produção de óleo e gás.

Além do lucro, a empresa movimenta cifras importantes para o setor público. No último ano, foram pagos R$ 277,6 bilhões em tributos, participações especiais e royalties à União, estados e municípios.

Para Pedro Faria, a Petrobras exerce um papel econômico que vai além da geração de lucro. Segundo ele, a companhia funciona como um agente de equilíbrio dentro de mercados altamente concentrados. Em setores como petróleo, gás e refino, a presença de uma estatal de grande porte ajudaria a limitar práticas de concentração excessiva e pressionaria empresas privadas a operarem com maior eficiência.

“O mercado de petróleo não funciona em regime de concorrência perfeita. É um setor dominado por grandes grupos e pela coordenação internacional de países produtores. Ter uma empresa estatal forte reduz a vulnerabilidade do país diante dessas oscilações”, explica.

Na avaliação do economista, sem a Petrobrás, o Brasil poderia se tornar mais dependente de decisões tomadas por grandes petroleiras privadas e por países produtores. Outro ponto citado é o papel da estatal em inovação tecnológica.

A Petrobras é apontada como uma das empresas que mais investem em pesquisa e desenvolvimento no país, além de liderar tecnologias de exploração em águas ultraprofundas, segmento associado ao pré-sal. Faria argumenta que a descoberta do pré-sal dificilmente teria ocorrido sem a atuação do Estado, já que o investimento envolvia alto risco e retorno de longo prazo.

“A iniciativa privada tende a evitar projetos muito longos e arriscados. O pré-sal exigiu visão estratégica e investimento persistente”, afirma.

Estatal é sinônimo de ineficiência?

Um dos argumentos frequentemente usados ​​por defensores da privatização é a ideia de que empresas estatais seriam menos eficientes do que companhias privadas. Pedro Faria contesta essa visão e afirma que eficiência depende menos do controle estatal ou privado, e mais da forma como a empresa é administrada.

Ele cita a própria Petrobras como exemplo de empresa pública competitiva internacionalmente, com domínio tecnológico reconhecido em exploração de petróleo em águas profundas.

Segundo o economista, existem tanto estatais eficientes quanto empresas privadas ineficientes, especialmente em setores concentrados por poucos grupos econômicos.

A crítica feita por ele é que determinados oligopólios privados podem gerar preços elevados e baixa concorrência, o que, do ponto de vista social, também representaria ineficiência.

Faria também menciona modelos internacionais, como empresas estatais presentes em países como a China e a Noruega, que atuam com forte participação pública em setores estratégicos.

O papel do Banco do Brasil

A privatização do Banco do Brasil também aparece como uma proposta central no discurso de Zema. Historicamente, o banco tem atuação forte no agronegócio e no crédito rural, além de desempenhar funções associadas ao financiamento público e políticas de crédito.

Para o economista, os bancos públicos poderiam exercer um papel mais ativo na redução dos juros cobrados ao consumidor, funcionando como instrumento de pressão competitiva sobre o sistema financeiro, ampliando a concorrência e reduzindo custos para clientes.

Ele afirma que essa estratégia chegou a ser tentada no passado, no governo de Dilma Rousseff (PT), quando houve incentivo para redução das taxas cobradas pelos bancos públicos como forma de ampliar participação de mercado. Segundo Faria, porém, o setor financeiro teve maior capacidade de pressionar politicamente e limitar esse tipo de atuação.

Reações políticas

As declarações de Zema provocaram críticas entre parlamentares da oposição. A deputada estadual Bella Gonçalves (PT) afirmou que o ex-governador aposta em uma agenda centrada exclusivamente na privatização e questionou sua gestão fiscal em Minas Gerais. Ela criticou o aumento da dívida estadual e rebateu o discurso de austeridade apresentado pelo político.

Já a deputada Ana Paula Siqueira (PT) afirmou que a proposta não enfrenta problemas sociais considerados prioritários, como combate à fome, acesso à moradia, educação e saúde. Ela também contestou a narrativa de enxugamento da máquina pública, citando reajustes salariais concedidos durante o governo estadual.

“Aqui em MG, Zema não conseguiu fazer o que ele estava falando, cortar os grandes salários, tirar as vantagens do setor público. Em Minas Gerais, o que ele fez foi justamente o contrário. Ele aumentou o salário dele, dos secretários dele, em mais de 300%. Não cortou mordomia nenhuma, além de aplicar isenções bilionárias de impostos aos seus amigos, sem o mínimo de transparência”, criticou Siqueira, por meio das redes sociais.

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