A primeira vez em que se reuniram na Praça de Maio foi em 30 de abril de 1977. Eram apenas 14 mães, que mal se conheciam, sem outro plano além de permanecer ali até serem recebidas na Casa de Governo.
Naquela praça, palco de tantos dramas históricos do país, essas mulheres, quase em absoluta solidão, começaram a transformar a dor e o medo impostos em uma ação coletiva que, com o tempo, se tornaria um exemplo internacional, cujo legado continua até hoje: as Mães da Praça de Maio.
Era um sábado. O dia havia amanhecido como qualquer outro. As capas dos principais jornais do país falavam da vitória da Argentina em um torneio de tênis e elogiavam o general Videla — principal integrante da Junta Militar que havia tomado o poder um ano antes —, que concluía uma viagem pela província de Córdoba. Nenhum meio de comunicação dava destaque ao drama que o país vivia, muito menos à dor daquelas mães que reivindicavam seus filhos e netos desaparecidos.
Naquela época, a Argentina atravessava os anos mais sombrios de sua história. Apenas um ano antes, em 24 de março de 1976, um golpe de Estado cívico-militar havia tomado o poder, dando início a um plano sistemático de terrorismo de Estado que incluiu sequestros, assassinatos, torturas, desaparecimentos forçados e o roubo de bebês.
Por meio do terror, o autodenominado “Processo de Reorganização Nacional” buscou disciplinar a sociedade, desarticular a organização de trabalhadores, camponeses e estudantes e instaurar um modelo econômico favorável aos grandes grupos econômicos concentrados.
Trinta mil pessoas foram desaparecidas, e cerca de 500 bebês — muitos deles nascidos em cativeiro — foram apropriados pela ditadura.
Em meio a esse inferno, as Mães da Praça de Maio começaram a construir, com sua caminhada, um caminho de luta pela Memória, Verdade e Justiça que hoje, cinquenta anos após o golpe, tornou-se uma das bandeiras mais importantes do movimento popular argentino.
Os primeiros passos
Ninguém parecia disposto a ajudá-las. As semanas passavam sem uma única notícia, enquanto os dias se esgotavam entre delegacias, hospitais e igrejas, na busca por alguma resposta, por um sinal que indicasse onde estavam ou para onde haviam sido levados. Mas a única resposta que recebiam era sempre a mesma: “Não sabemos de nada”.
Elas exigiam o aparecimento de seus filhos e netos, levados sem qualquer explicação e de quem ninguém dizia onde estavam. Foi nesse peregrinar que começaram a se encontrar. “Você também está procurando alguém?”
Praticamente nenhuma delas tinha experiência política anterior. Sem formação universitária ou carreira profissional, a maioria havia dedicado a vida ao cuidado da família. Quando seus filhos e netos foram sequestrados, foram elas que se recusaram a ficar esperando em casa.
A ideia de ir à Praça de Maio foi de Azucena Villaflor, que buscava seu filho, Néstor de Vincenti, sequestrado junto com sua namorada, Raquel Mangin — ambos militantes operários dos Montoneros. Desde o desaparecimento deles, dia após dia, Azucena percorreu, sem sucesso, todas as instâncias possíveis em busca de algum funcionário que a ouvisse. A resposta era sempre a mesma: “Não sabemos de nada”.
Azucena Villaflor começou a se reunir com outras mães na Igreja Stella Maris, ligada à Marinha. Ela chegou ali com a esperança de que o vigário castrense Adolfo Tortolo pudesse ajudá-las na busca. No entanto, após várias reuniões com o padre militar Emilio Graselli, secretário do vigário, aquelas mães perceberam que não só não receberiam ajuda, como também estavam sendo usadas como fonte de extração de informações sobre suas buscas.
“Individualmente não vamos conseguir nada. Por que não vamos todas à Praça de Maio? Quando vir que somos muitas, Videla terá que nos receber”, propôs Azucena, cansada da falta de respostas. Ela insistia que, se fossem muitas, poderiam entrar juntas na Casa de Governo e, assim, serem ouvidas.
Foi assim que, em 30 de abril, foram pela primeira vez à Praça de Maio, onde fica a Casa de Governo. Esse primeiro encontro foi em um sábado; por isso, não havia ninguém na Casa de Governo. Então propuseram voltar na semana seguinte. A princípio, a ideia era ir às sextas-feiras, mas uma mãe sugeriu mudar o dia porque “sexta-feira é dia de bruxas”. Por fim, decidiram pelas quintas-feiras.
A primeira ronda
Começaram sendo poucas. Sentavam-se nos bancos; algumas levavam tricô para disfarçar e justificar sua permanência na praça. Não sabiam de onde vinha cada uma nem conheciam seus sobrenomes: chamavam-se por apelidos. “Você vem pelo mesmo que eu?”, perguntavam em voz baixa ao ver outra mãe sentada ou caminhando pela praça.
“O nível de ingenuidade que tínhamos… Fazíamos essas bobagens, mas nossas expressões eram tais que, quando andávamos pela rua, todo mundo já sabia que nossos filhos estavam desaparecidos”, lembraria Hebe de Bonafini em um documentário sobre a história das Mães da Praça de Maio.
A partir de então, aquelas mulheres decidiram que, toda quinta-feira, às 15h30, dariam voltas na Praça de Maio até que o Estado lhes desse respostas sobre os desaparecidos. Escolheram esse horário porque a praça ficava próxima a bancos, e era o momento em que os funcionários saíam do trabalho, para que pudessem vê-las e tomar consciência de sua reivindicação.
Como a ditadura havia proibido o direito de reunião, a polícia começou a exigir que não permanecessem agrupadas. “Senhoras, há estado de sítio, circulem”, era a ordem. Quase de forma instintiva, aquelas mulheres começaram a caminhar em círculos ao redor da praça. Caminhavam de duas em duas, de mãos dadas, desafiando a repressão policial. Sem saber, ali começava uma tradição que continua até hoje: a ronda das Mães da Praça de Maio.
Essas rondas foram se espalhando de boca em boca, enquanto os porta-vozes e jornalistas da ditadura passaram a chamá-las de “As loucas da Praça de Maio”.
O nome dos desaparecidos como estandarte
Pouco a pouco, essas mães começaram a se agrupar para compartilhar informações e dar força umas às outras. Foi assim que, ao perceberem a coincidência entre suas histórias, passaram a entender que a ditadura cívico-militar havia implementado um mecanismo sistemático de desaparecimento de pessoas.
Alguns meses depois, em outubro de 1977, decidiram levar sua reivindicação à imensa Peregrinação à Virgem de Luján. Por sua ligação com a Igreja, tratava-se de uma das poucas concentrações massivas que a ditadura não havia proibido.
Como nem todas se conheciam, decidiram que, para se reconhecerem durante a peregrinação, usariam um lenço branco na cabeça — antigos panos de tecido que haviam sido fraldas de seus filhos e que muitas ainda guardavam. Marcharam no domingo, 9 de outubro de 1977, com esses panos brancos na cabeça, levantando fotos de seus filhos enquanto as pessoas as observavam com desconfiança. A partir de então, passaram a usar sempre o lenço, com o nome de seus familiares bordado, como um símbolo que as distinguiria para sempre.
“Depois de um tempo começou-se a dizer, entre as pessoas que iam a Luján, ‘aquelas mulheres com lenços brancos que gritavam por seus filhos’”, lembra Hebe naquele documentário. “Porque, claro, em todas as peregrinações a Luján se rezava, sei lá… pelo Papa, pelos padres, pelos bispos. Então nós começamos a gritar, a rezar alto pelos desaparecidos, e ali ninguém nos acompanhava, mas tudo bem — tinham que nos ouvir.”

As primeiras mães desaparecidas
Em pouco tempo, “as loucas da Praça de Maio” foram construindo uma voz que não podia ser facilmente ignorada. Foi assim que a reação da ditadura não tardou, e, durante aquele primeiro ano, chegaram os primeiros golpes contra o movimento nascente.
No fim desse ano, Alfredo Astiz — um militar que se passou por parente de desaparecidos — infiltrou-se nas Mães da Praça de Maio. Ele acompanhou cada um de seus movimentos e realizou um trabalho sistemático de inteligência sobre elas.
A repressão se concretizou entre 8 e 10 de dezembro de 1977, quando a ditadura sequestrou várias pessoas que colaboravam com as mães, entre elas as freiras francesas Alice Domon e Léonie Duquet, junto com três Mães da Praça de Maio: Teresa Careaga, María Ponce e Azucena Villaflor.
Todas elas foram levadas a centros clandestinos de detenção, onde foram torturadas. Poucos dias depois, Azucena — junto com as freiras francesas — foi “transferida” para um aeroporto militar, sedada, colocada em um avião da Marinha e jogada viva ao mar, na costa de Santa Teresita, em uma prática comum da ditadura conhecida como os “voos da morte”.
O duro golpe abalou o movimento. Ainda assim, após intensos debates, as mães chegaram a uma conclusão: Azucena tinha razão. A posição que acabou prevalecendo — e nesse processo Hebe emergiu como referência — foi a de que deviam continuar na Praça de Maio, porque era ali que sua presença mais incomodava. Mais convencidas do que nunca, decidiram encarar o terror de frente e seguir enfrentando a ditadura.
Não seja covarde: lute como uma avó
Sua luta persistente as transformou em um dos principais movimentos de resistência contra a ditadura. E, assim, pouco a pouco, conseguiram expandir essa luta em nível internacional.
Como muitas vezes contaram, foi em sua busca que foram conhecendo e descobrindo a militância de seus filhos, assim como os sonhos revolucionários que levaram aqueles jovens a lutar por um país e um mundo melhor. Foi nesse peregrinar que as Mães abraçaram esses sonhos que a ditadura pretendia esmagar — os sonhos e as lutas por um mundo mais justo.
Junto à luta pelo aparecimento dos desaparecidos, as Mães passaram a buscar também os mais de 500 bebês que a ditadura se apropriou. São os filhos dos desaparecidos — muitos deles nascidos em cativeiro, nos campos de concentração — que foram roubados pelo terrorismo de Estado.
Com a queda da ditadura, as Mães e Avós da Praça de Maio mantiveram viva a luta pela memória, verdade e justiça, enfrentando as políticas de impunidade que diversos governos civis tentaram promover. “Não perdoamos, não esquecemos, não nos reconciliamos” foi a consigna que mantiveram firme — muitas vezes em solidão — ao longo de décadas.
Essas lutas permitiram que o movimento de direitos humanos na Argentina impulsionasse centenas de julgamentos por crimes contra a humanidade cometidos durante a última ditadura. Ao mesmo tempo, sua busca incansável conseguiu recuperar a identidade de 140 netos. Uma luta que continua, porque, até que o último neto ou neta apropriado durante a ditadura seja encontrado, a identidade de toda uma geração segue roubada.

