Trabalhadores apontam fim da escala 6×1 como pauta central no 1º de Maio em Porto Alegre

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O Dia do Trabalhador e da Trabalhadora reuniu milhares de pessoas ao longo deste 1º de Maio, na Casa do Gaúcho, em Porto Alegre. Desde as primeiras horas da manhã até o início da noite, o espaço foi ocupado por apresentações culturais, Feiras de Economia Solidária e rodas de conversa que deram centralidade às demandas da classe trabalhadora.

Entre diferentes categorias e trajetórias, um tema apareceu de forma recorrente nas falas: o fim da escala 6×1. A proposta, que busca garantir mais tempo de descanso sem redução de salários, foi apontada como a principal pauta do momento por trabalhadores formais, informais, sindicalistas e empreendedores.

A presidenta do Sindicato das Sapateiras e Sapateiros de Novo Hamburgo, Jaqueline Hertal, destacou o caráter histórico das conquistas trabalhistas. “O dia do trabalhador é importante para a reflexão, pois nada veio de graça. Tudo o que temos hoje, como o 13º e o FGTS, foi conquistado com muita luta e mortes. Nossa grande bandeira hoje é o fim da escala 6×1 e a redução da jornada. Como mulher, também lutamos pelo fim do feminicídio. Para mim, este dia significa que trabalhador, trabalhadora e comunidade devem estar unidos para avançar”, disse.

Jaqueline Hertal, presidenta do Sindicato das Sapateiras de Novo Hamburgo, destaca a importância histórica das conquistas trabalhistas e a luta pela redução da jornada | Crédito: Fabiana Reinholz

O engenheiro ambiental Eduardo Raguzi também destacou o caráter político da mobilização. “O dia do trabalhador é um dia fundamental para a gente trazer o debate para a sociedade, para relembrar a necessidade de promover uma luta de classe e nos entendermos enquanto classe trabalhadora. Hoje, a pauta mais importante no contexto brasileiro é a campanha contra a escala 6×1. Ontem, no Congresso Nacional, em vez de aprovarem o fim dessa escala, estavam comemorando o afrouxamento de leis e a anistia para golpistas, então essa é a nossa pauta principal pensando nas eleições”, disse.

Eduardo Raguzi, engenheiro ambiental, afirma que o 1º de Maio reforça a luta de classes e aponta o fim da escala 6 x 1 como pauta central | Crédito: Marcela Brandes

Demandas que atravessam o cotidiano

As falas também revelaram como diferentes pautas se articulam à realidade concreta dos trabalhadores. A argentina Fabiana Armando Menaquian chamou atenção para a violência de gênero. “O dia do trabalhador é um dia especial, pois é o local onde se encontram os trabalhadores e o povo de luta. Hoje em dia, a pauta do feminicídio é algo que me atinge muito”, declarou.

Enédio Galvão Fonseca, aposentado dos Correios, associou a pauta trabalhista ao cenário político. “O dia do trabalhador é importante para fortificar na cabeça do povo que o trabalho é o que mantém a sociedade e dá honra às pessoas. Atualmente, a pauta mais importante, além da queda da escala 6×1, é a renovação do nosso Congresso Nacional, que tem se mostrado inimigo do povo, como vimos na derrubada do veto à lei de anistia para golpistas. O trabalhador precisa parar de votar em patrões e votar em quem realmente representa a população, pois a maioria dos congressistas hoje é ligada a grandes indústrias e bancos”, afirmou.

Enédio Galvão Fonseca, aposentado dos Correios, defende a renovação política e critica a atuação do Congresso frente às pautas dos trabalhadores | Crédito: Marcela Brandes

Entre os trabalhadores da educação, o tom foi de alerta para a perda de direitos. A professora Karen Nunes da Silva relacionou a data à resistência cotidiana. “O 1º de Maio não é um dia de celebração, é um dia de luta e resistência contra o sucateamento da educação pelo governo neoliberal, que tenta privatizar as escolas estaduais. Precisamos de respeito pelo trabalhador, pois estamos perdendo direitos que foram conquistados com muito sacrifício. Precisamos de um governo que olhe para o trabalhador e não apenas para o empresário. Para mim, há 12 anos como professora, este dia significa luta e resistência”, afirmou.

Karen Nunes da Silva, professora da rede estadual, define o 1º de Maio como um dia de resistência diante da perda de direitos na educação pública | Crédito: Fabiana Reinholz

O trabalhador da saúde André Almeida que é higienizador de hospital reforçou a centralidade da pauta. “O 1º de Maio é muito importante para valorizar a nossa classe de trabalhadores que são CLTs e estão sempre na luta. A pauta principal agora é o fim da escala 6×1. Precisamos de mais tempo com a família”, afirmou.

O trabalhador da saúde André Almeida que é higienizador de hospital reforçou a centralidade da pauta | Crédito: Marcela Brandes

Economia solidária e empreendedorismo

A Feira de Economia Solidária também ocupou espaço central no evento, com forte presença de mulheres. Solange de Carmen Mânica, de São Leopoldo, destacou as desigualdades enfrentadas. “Como trabalhadora, estou aqui trabalhando no feriado, seguindo as lutas da economia solidária, dialogando com mulheres contra o feminicídio e pela reposição salarial, já que homens ainda ganham mais que mulheres. Trabalho com temperos e produtos integrais orgânicos através do grupo Banco do Tempo. Além da escala 6×1, estamos discutindo este ano político e a importância de conquistar políticas públicas para o Rio Grande do Sul. A economia solidária é ocupada 70% por mães e donas de casa que sustentam suas famílias”, explicou.

Solange de Carmen Mânica, integrante da economia solidária, destaca a presença de mulheres no setor e a luta por igualdade salarial e políticas públicas | Crédito: Fabiana Reinholz

No mesmo espaço, a empreendedora Juliana Pais Dorné Joaquim apresentou sua trajetória ligada à necessidade de sustento familiar. “É importante, né? Porque é uma luta que a gente tem nós, principalmente mulheres negras e empreendedoras, pela falta de emprego, pela falta de oportunidade. Então, esse dia representa uma luta para nós, a busca de algo melhor, de outras oportunidades dentro do nosso nicho”, afirmou.

Ela relatou que a empresa surgiu a partir da necessidade de conciliar renda e cuidado com os filhos. “Sou formada em administração e também na área da confeitaria pelo Senac. A obrigação de ter filhos para sustentar e o trabalho CLT não estava ajudando financeiramente. Então comecei a empreender junto com o CLT, e quando vi que estava dando certo, saí do CLT para conseguir cuidar mais dos meus filhos e trabalhar de casa”, disse.

Juliana Pais Dorné Joaquim, empreendedora do ramo de alimentação, defende mais reconhecimento ao microempreendedor e melhores condições para mulheres chefes de família | Crédito: Fabiana Reinholz

Juliana também destacou a importância de valorização do pequeno empreendedor. “Para mim, as principais pautas seriam o empreendedorismo ser mais valorizado. Existe o empreendedor que tem uma empresa mais sólida, mas tem o microempreendedor individual que precisa de um olhar mais atencioso, com mais carinho, principalmente as mulheres chefes de família que dependem disso. A política precisa olhar mais para a gente, não só no dia 1º de Maio, mas todos os dias”, declarou.

Vida e resistência

Para Tales Rodrigues da Silva, assessora parlamentar, o debate está diretamente ligado às condições de vida. “O dia do trabalhador representa a cultura viva de quem se dedica para construir e desenvolver o país. Este ano, a pauta mais importante é, com certeza, o fim da escala 6×1. Trabalhamos para sobreviver e ter condições dignas, mas o fim dessa escala não pode estar atrelado à precarização; precisamos manter salários e ter qualidade de vida, lazer, esporte e tempo com a família”, defendeu.

Tales Rodrigues da Silva, assessora parlamentar, defende o fim da escala 6 x 1 e destaca a necessidade de garantir qualidade de vida aos trabalhadores | Crédito: Marcela Brandes

Unidade na pauta da jornada

Mesmo com diferentes experiências e reivindicações, as falas convergiram para um ponto comum ao longo do dia: a necessidade de rever a jornada de trabalho no país. A defesa do fim da escala 6×1 apareceu como elemento de unidade entre trabalhadores formais, informais e empreendedores.

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