A cultura hip-hop marcou presença no 1º de Maio, durante o Festival do Trabalhador e Trabalhadora, em Porto Alegre. Expressões do rap, do grafite e de outras linguagens da cultura de rua ocuparam o espaço com performances que entrelaçam arte e reivindicação. A organização contou com o apoio de Eduardo Tamboreiro, do Preconceito Zero.
No palco e nas intervenções espalhadas pelo evento, artistas ecoaram narrativas conectadas à realidade da juventude artista trabalhadora, atravessadas por temas como precarização, jornadas exaustivas e a luta por direitos, transformando a data em um território pulsante de expressão cultural e posicionamento político.
A curadora da Batalha de Conhecimento do Festival, Mariana Marmonteldestacou que a proposta da atividade foi articular o hip-hop com temas centrais da realidade social, como trabalho, gênero e raça. Segundo ela, a batalha trouxe como um dos eixos a discussão sobre a escala 6×1 e o impacto do trabalho, muitas vezes não remunerado, na vida das mulheres artistas.
“Hoje eu fiquei incumbida da organização, produção e curadoria da batalha de conhecimento que rolou nesse evento. Sou uma pessoa atuante do movimento hip-hop há alguns anos e, para mim, a pauta da raça e do gênero é sempre fundamental”, afirmou.

A curadora explicou que, ao assumir esse papel, buscou garantir a presença de vozes representativas no palco. Ela ressaltou que a batalha foi inteiramente feminina, com predominância de mulheres negras, e abordou temas como feminicídio, valorização do trabalhador e da trabalhadora.
“Eu sempre tenho esse cuidado de trazer pessoas que eu acho que são importantes estar pisando nesses espaços. Hoje a gente teve uma batalha inteiramente feminina, com a maioria de mulheres pretas, e a gente trouxe temas como feminicídio, escala 6×1 e valorização do trabalhador”, disse.
Mariana também enfatizou que essas pautas não se restringem ao palco, mas fazem parte do cotidiano das participantes. Ao final, convidou o público a conhecer a Batalha das Monstras, iniciativa voltada para mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, que também promove debates por meio da chamada “batalha de conhecimento”.
“São coisas que a gente está tratando no dia a dia. Deixo a sugestão de vocês conhecerem a Batalha das Monstras, onde a gente abre espaço para discutir essas temáticas que permeiam a nossa vida o tempo todo”, completou.
O trabalho não remunerado das mulheres artistas
Já a artista NeguinhaMC e compositora atuante na cena hip-hop no estado, destacou a importância do evento como espaço de visibilidade e fortalecimento cultural no Dia dos Trabalhadores, em especial, das Trabalhadoras.

Ao abordar a realidade das mulheres artistas trabalhadores, ela chamou atenção para a desigualdade de gênero presente não apenas na cultura, mas em diferentes áreas da sociedade. Segundo a MC, as mulheres precisam constantemente provar sua capacidade.
“Em todas as áreas que as mulheres atuam, sempre tem a necessidade de ter que se provar mais, porque existe essa desigualdade de gênero que faz com que as mulheres sejam vistas como menos”, disse.
Ela também ressaltou que o hip-hop, em sua essência, se posiciona contra qualquer forma de preconceito, incluindo racismo, machismo e discriminação contra a diversidade.
“O hip-hop é uma cultura que não aceita nem concorda com nenhum tipo de preconceito, desigualdade de gênero, racismo ou preconceito com a diversidade”, afirmou.
Neguinha destacou ainda o esforço das mulheres para conciliar trabalho remunerado com a dedicação à arte, muitas vezes sem retorno financeiro, reforçando a resistência e permanência na cultura.

“A gente veio mostrar que é possível equilibrar o trabalho não remunerado, que é o nosso sonho, com um trabalho remunerado que desgaste menos a gente semanalmente. Independentemente das condições, a gente não vai deixar de estar ativa na cultura”, declarou.
Por fim, a artista valorizou a iniciativa da organização da batalha, ressaltando a importância de garantir espaço para mulheres no hip-hop gaúcho.
“Foi extremamente importante trazer quatro mulheres para a batalha, para mostrar que as mulheres têm destaque e que é possível atingir espaços que muitas vezes são negados para a gente por sermos mulheres”, concluiu.
A arte e a luta pelo fim da escala 6×1
Para a multi-artista independente Quedao debate sobre a escala 6×1 dentro do hip-hop é essencial, especialmente para quem vive na base da cadeia produtiva cultural e ainda enfrenta marginalização.

Ela explicou que muitos artistas conciliam empregos formais com a atuação na cultura, frequentemente sem remuneração, o que torna o tema ainda mais sensível.
“Eu trabalho com audiovisual, sou atriz, rapper e compositora, entre várias outras coisas. A importância de debater a escala 6×1 dentro do contexto da cultura hip-hop é muito grande, porque nós estamos na base da base e ainda somos marginalizados”, afirmou.
A artista ressaltou que essa realidade impacta diretamente a vida dos trabalhadores da cultura, que muitas vezes enfrentam jornadas duplas.
“Muitas vezes a gente trabalha CLT e ainda trabalha no pós com a cultura, às vezes nem remuneradamente. Então, para nós, é ainda mais delicado tocar nesse assunto, pode até ser um motivo de gatilho, porque machuca”, disse, relembrando sua rima durante a batalha.
Apesar das dificuldades, THS Drop enfatizou a resistência dos artistas e a busca por melhores condições para o setor, incluindo políticas públicas que garantam a sustentabilidade da cultura hip-hop.
“A gente está resistindo sobre isso e fazendo cada vez mais busca por políticas públicas para nós, para movimentar a cultura hip-hop e poder viver do que realmente amamos, que é fazer arte”, concluiu.
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